Sociologia?

Este texto é resultado de três leituras: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a proposta curricular do Estado de São Paulo e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio do Ministério da Educação (todas adquiridas através de links deste blog). As leituras foram feitas com duas perguntas em mente: “sociologia para quê?” e “sociologia por quê?”. Logo, o que busquei foram os argumentos que justificassem a Sociologia nas escolas.

A proposta curricular do Estado de São Paulo “apóia-se no reconhecimento de que a democratização do acesso ao conhecimento científico tem na Sociologia, como ciência humana produtora de conhecimentos específicos, uma mediação indispensável para atingir o objetivo de incrementar a participação consciente, racional e bem informada dos cidadãos nos assuntos públicos”.

Por isso, é possível afirmar que dois dos pontos chave da proposta são a democratização do conhecimento científico e a idéia/conceito de cidadania. Em relação à cidadania, encontramos a mesma justificativa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, onde é dito que é preciso proporcionar ao aluno “domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício da cidadania”.

Contudo, ainda na LDBE o exercício da cidadania é colocado como objetivo da educação em geral, assim como a qualificação para o trabalho e o entendimento do processo histórico de transformação da sociedade e da cultura. Logo, o ensino de Sociologia estaria em concordância com o “projeto” educacional da LDBE na questão da cidadania e na questão do conhecimento sobre a sociedade e cultura.

Uma vez que os objetos das Ciências Sociais são a sociedade e a cultura, suas contribuições para o conhecimento dos processos de transformação das duas são praticamente uma conclusão lógica. Mas e quanto à cidadania? O que há de especial na Sociologia e nas Ciências Sociais que faz possível que afirmem sua importância para a construção do cidadão?

Segundo as Orientações Curriculares para o Ensino Médio a força das Ciências Sociais está em dois processos intelectuais muito caros a elas: a desnaturalização e o estranhamento. É dito que o ensino de Sociologia visa ensinar e criar no aluno a capacidade de desnaturalizar e estranhar as concepções e explicações dos fenômenos sociais, de sua vida e do mundo ao seu redor. Entender que a sociedade é o resultado do processo histórico e de decisões. Afirma-se (ou talvez se espere) que com essa capacidade os alunos serão sujeitos – e cidadãos – mais críticos, éticos e participativos.

Por incrível que pareça o ensino de Sociologia é justificado nas Orientações Curriculares da seguinte forma: se concordarmos que é possível ensinar a estranhar e a desnaturalizar criando, assim, um pensamento mais crítico, o Brasil, enquanto um país com grandes desigualdades sociais possui no ensino de Sociologia um imperativo político.

Como dito acima, a LDBE aponta a existência de conhecimentos e capacidades adquiridas através da Sociologia e Filosofia que são necessários à cidadania. E as Orientações Curriculares deixam claro que dar ao povo brasileiro esses conhecimentos e capacidades é uma escolha política, necessária num país com grandes problemas socio-econômicos.

Somente nas Orientações Curriculares é exposta uma definição de cidadania, apesar de simples. Cidadania é vista como direito e dever do indivíduo ao voto e à participação na organização e decisões de sua comunidade e país. Por isso, o que se espera é que a sociologia dê ferramentas que permitam ao indivíduo uma participação mais crítica e aprofundada.

Portanto, os argumentos pró-sociologia são baseados em dois pressupostos: 1) é possível ensinar e adquirir a capacidade de pensar criticamente; 2) o ensino de sociologia, e também de filosofia, são capazes (e talvez necessários) para a criação dessa capacidade nos indivíduos.

Creio não existir grandes problemas quanto ao primeiro pressuposto, pois toda capacidade pode ser ensinada e ninguém nasce com uma: todas são desenvolvidas. Mas e em relação ao segundo pressuposto? O ensino de sociologia é capaz de criar um pensamento crítico?

Entrando nas minhas considerações pessoais sobre o tema, acredito que sim. O que não quer dizer que isso irá ocorrer. As Ciências Sociais e a Filosofia podem ajudar a criar um pensamento mais crítico, mas isso não quer dizer que elas são necessárias ou suficientes.

O pensamento crítico pode surgir de várias fontes, como das artes, do estudo, da experiência, etc. O problematizar, o refletir e ponderar não são processos exclusivos da ciência e da Academia, eles são capacidades possíveis a todos os seres humanos, que podem ser aperfeiçoadas. Contudo, concordo que as capacidades de desnaturalização e estranhamento são de grande auxílio ao pensamento que aspira ser crítico, mas de maneira alguma elas são uma garantia de sua criação.

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