Aula sobre Desigualdade de Gênero

A sugestão de aula é sobre o tema de Gênero. O plano de aula foi elaborado por mim e um grupo de estagiários participantes do projeto PIBID. As aulas foram ministradas no final do ano passado(2011), porém parte do que foi planejado sofreu algumas alterações, devido ao andamento em cada sala de aula e ao cronograma escolar.

A intenção de publicar neste blog mais um material a ser usado pelo tema de Gênero é possibilitar aos professores, que tiverem contato ao site, a opção por escolha dentre os materiais e ferramentas apresentadas, seja filme, texto, artigo ou imagens, e apresentar como podemos trabalhar nas aulas de Sociologia com livros debatidos na academia. O debate feito com os alunos foi embasado pelo livro de Margareth Mead, Sexo e Temperamento. Todavia, trabalhar a diferenciação de gênero por meio das tribos indígenas pesquisadas pela antropóloga possibilitou aos alunos “desnaturalizar” as construções sobre feminino e masculino.

1ª Aula

       No livro, Sexo e Temperamento, Margareth Mead estuda as relações de gênero em três tribos: Arapesh, Mundugumor e Tchambuli. Um dos objetivos da antropóloga com a pesquisa era observar até que ponto as diferenças sexuais eram inatas ou culturalmente construídas. Assim, em cada tribo, levanta elementos diferentes para os comportamentos femininos e masculinos. Na tribo Arapesh, apesar do homem e da mulher realizarem funções diferentes, não existe distinção entre o seu comportamento, pois o objetivo principal é o apoio total no crescimento dos filhos. A menina Arapesh vai ainda criança morar com a família do marido, sendo ele o responsável por alimentá-la e cuidá-la para que cresça bem e saudável. Há um tabu acerca do crescimento da menina, que se for iniciada sexualmente antes pode ficar feia ou não crescer adequadamente. Depois do casamento, a preparação do casal é para o recebimento do filho, a maternidade é uma relação entre pai e mãe. Quando a criança nasce existem regras para os pais seguirem até o seu crescimento, por exemplo, não ter relação sexual entre si até a criança atingir, mais ou menos, os dois anos de idade.

A segunda tribo é os Mundugumor, onde o comportamento feminino e masculino é violento. Para entender essa relação conflituosa, é preciso compreender a configuração do parentesco na tribo. O pai tem maior proximidade com as filhas, ele deseja ter muitas meninas, porque estas podem ser trocadas por outras esposas. O homem quanto mais esposas possuir é considerado rico, pois são elas responsáveis pela secagem do fumo, objeto de riqueza na sociedade estudada. A esposa, por sua vez, nunca deseja engravidar, porque se nasce uma mulher, a chance é que a casa receba outra matriarca, ao mesmo tempo, o pai não deseja a gravidez da esposa, pois se nasce um menino, este pode usar uma das irmãs como objeto de troca por esposas. Portanto, nesta sociedade os laços familiares e os comportamentos dos gêneros são baseados no confronto e na disputa.

A última tribo apresentada no livro são os Tchambuli, em que o comportamento feminino e masculino é distinto. A mulher é quem pesca, detém a posição de poder na sociedade, controlando o lucro das relações de comércio, e tem a opção de escolher o parceiro para a união matrimonial. Enquanto os homens se preocupam com as atividades cerimoniais, cuidando dos ornamentos e das atividades artísticas, são os chefes da família, porém quem estipula as regras são as esposas.

Em sala de aula, fizemos um quadro com os alunos dividindo-o em quatro partes, as três primeiras diziam respeitos as informações fornecidas no livro e contadas para a classe, de modo a apresentar como era as relações de gênero em cada uma das tribos. Após montar o quadro com os alunos, fizemos uma quarta linha com título “comportamento do homem e da mulher na nossa sociedade”. Pedimos para os alunos apontarem características que achavam que eram mais femininas ou masculinas no dia-a-dia. Com essa atividade a intenção era mostrar para a classe que os comportamentos do homem e da mulher não são construções fixas, mas que mudam de acordo com o meio em que os indivíduos estão inseridos.

2ª aula

       Essa aula foi baseada na leitura do texto “Conceito de Gênero” retirado do livro “Gênero e Diversidade na Escola: formação de professoras/es em Gênero, Orientação Sexual e Relações étnico-raciais”. Para aprofundar a discussão da aula passada sobre as diferenças comportamentais entre homem e mulher em cada sociedade, estudaremos mais afundo a construção social de Gênero.

Solicitamos aos alunos que lessem em casa o texto citado acima, e em sala de aula, utilizando os exemplos trabalhados com o livro de Margareth Mead, aprofundamos alguns pontos principais. O pensamento comum busca as diferenciações entre homem e mulher nas características naturais, por exemplo, o fato da mulher ter útero e poder gestar um ser humano, não  significa que toda mulher é feita para “ser mãe”. Ao contrário disso, as ciências humanas vêm para reafirmar que a diferenciação entre os comportamentos feminino e masculino são derivações da cultura e do meio em que o individuo nasceu. Os gostos, as maneiras de se vestir e a preferência sexual são constituídas a partir do ambiente em que os seres humanos crescem e se desenvolvem, como aponta Simone de Beauvoir, “ não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Gênero é uma construção social, assim as concepções que assimilamos como sendo mais masculinas ou femininas na nossa sociedade não são definitivas, vistos que no estudo da antropóloga observa-se variações nos comportamentos de gênero. Apresentamos outros exemplos para desconstruir a categoria do gênero como algo natural, por exemplo, o homossexualismo. Os indivíduos não são determinados a gostarem somente de alguém do outro sexo, existem pessoas que optam por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo. Outro exemplo seriam os travestis que nascem como homem ou mulher, porém transformam seus corpos e personalidades para aparentar características do sexo oposto.

Terminamos a aula perguntando aos alunos se poderiam dar outros exemplos que mostrassem a construção social de Gênero e finalizamos passando uma atividade para casa que se consistia na elaboração de um texto discutindo o tema das duas aulas.

3ª aula

      Na terceira aula, o assunto foi a desigualdade de gênero focada no movimento homossexual. Como forma de promover o estranhamento nos alunos e retomar as discussões feitas anteriormente, trouxemos exemplos históricos dos diferentes tratamentos que os homossexuais receberam durante a História. O primeiro exemplo é na Grécia Antiga, onde os jovens para aprender sobre as regras sociais e os saberes cultural e militar estudavam com seus mestres. A maioria dessas relações eram baseadas na pederastia, pois além dos jovens estudarem assuntos gerais tinham sua iniciação sexual.

O segundo exemplo é no período da Alemanha nazista. Esta ideologia afirmava a pureza da raça ariana contra os “defeitos” da humanidade, como o homossexualismo, o judaísmo e a negritude, principalmente. A purificação do povo alemão dependia da eliminação das raças ou das características que eram consideradas como doenças ou transtornos biológicos dos seres humanos. Aliado a outros fatores sociais e culturais, o governo nazista durante 1933 e 1945 condenou, matou ou enviou à campos de concentração os homossexuais.

O último exemplo histórico é em Berlim atualmente. Em 2001, após especulações sobre a posição sexual do candidato a prefeitura de Berlim, Wowereit afirmou que era homossexual e antes das eleições proferiu a seguinte frase “Ich bin schwul und das ist auch gut so!” (“Eu sou gay e isso também é bom!”).

A partir dos três exemplos, mostramos aos alunos como através da história a postura em relação aos gays mudou. No entanto, discutimos com a classe que apesar do último exemplo apresentar determinada abertura para o posicionamento sexual dos homossexuais, ainda observamos ataques violentos e psicológicos a essas pessoas. Recentemente, saíram noticias sobre homossexuais que apanharam na avenida Paulista em São Paulo ou mesmo igrejas que tentam procurar a cura para estes indivíduos. O que expõe que ainda a questão do Gênero é tratada aos modos biológicos, pois a pessoa  cresce recebendo ensinamentos de como deve se relacionar e gostar do outro sexo, e qualquer outra atitude sexual diferente é considerada um distúrbio.

4ª aula

           Para fechar a discussão sobre desigualdade de gênero resolvemos trabalhar com imagens. Trouxemos alguns cartazes que de um lado tinham fotos ou charges sobre como a sociedade diariamente trata as mulheres ou os homossexuais, muitas vezes alvo de piadas e gozações; e do outro lado reportagens de jornais, panfletos de movimentos feministas e fotografias de mulheres que sofreram violência doméstica. A intenção era contrapor as ideias que apareciam em cada lado do cartaz, de modo a refletir com os alunos como as nossas ações diárias, muitas vezes levam ao preconceito e violência.

As imagens abaixo ilustram como era a ideia desse trabalho; foram feitos cerca de seis cartazes diferentes. Cada cartaz era passado entre os alunos, que podiam manusear as imagens, o que tornou a aula mais dinâmica. A partir da curiosidade dos alunos em relação as imagens, fomos explicando-as e discutindo, por exemplo, até que ponto uma propaganda de cerveja com mulheres nuas pode levar a violência doméstica? Ou como o corpo feminino é retratado nessa foto abaixo? Como mercadoria?

 

 

As próximas imagens fazem relação entre as piadas com mulheres e as agressões e violências domésticas que ocorrem diariamente. Perguntamos aos alunos se eles sabiam de outro ato ou ação que podem levar a atitudes de opressão feminina ou ao homossexual? Quando ouvimos que as mulheres estão ganhando liberdade financeira e familiar, isso é realmente verdade ou elas ainda estão presas a paradigmas como a maternidade e a posição de esposa?

      A aula finalizou com as problemáticas levantadas pelos alunos sobre os temas de cada cartaz e pedimos para que relacionassem em casa o conceito de construção social de Gênero com as contradições que apareceram nas imagens.

 

Referências:

 

  • Gênero e diversidade na escola: formação de professoras/es em Gênero, Orientação Sexual e Relações Étnico-Raciais. Livro de conteúdo. Versão 2009. – Rio de Janeiro : CEPESC; Brasília : SPM, 2009.
  • MEAD, Margareth. Sexo e Temperamento. São Paulo, SP: Perspectiva, 2000

 

 

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