O ponto em…

   O ponto em que nos encontramos – recentemente e cada vez mais passível de ser analisado através de uma lógica relacional (que considera a intersecção de campos) em contraste com a costumeira e embaçada lente bipolar que vinha regendo a ciência –,  desvela-se aos nossos olhos como uma era de limiares na qual opressão e libertação estão muito próximas interagindo frequentemente no tempo/espaço.
    Na educação, há muito vem-se pesquisando esquemas e estruturas alternativos à um sistema que nasceu baseado na separação de indivíduos (seja por gênero, raça ou posição social), sistema esse executor de uma lógica reprodutiva que tem como principal objetivo a manutenção do próprio sistema a despeito da vida como um todo. Surge então, através do desenvolvimento tecnológico e industrial, um aspecto nunca vivido antes no que nossa ciência – até agora – considera como história humana: comunicação global acessível em larga escala, ou internet.
    Tal realidade de conexão têm despertado exponencialmente pessoas para o entendimento das relações em rede não apenas no contexto virtual e, por sua vez, esse movimento de interação coletiva nos transporta para o vislumbre de uma nova estrutura que venha a contemplar os frutos vindouros da produção humana embebida agora de experiências de multimeios (no sentido sensorial) e multiversais (no sentido da diversidade), sedenta de libertação de uma opressão já há muito naturalizada. Sendo assim, a nova educação pode ter a missão de suprir carências que vêm de longe no que diz respeito ao saber, contudo a emergência de novos paradigmas vem equipada com ferramentas multimídia conectadas ao mundo todo, entendendo-se que  é a pedagogia que deve direcionar a tecnologia.
    É nesse cenário que, com o advento da Web 2.0 (sistemas de wiki, blogs, redes sociais), surge a noção e possibilidade da autoria colaborativa enquanto um novo horizonte para o processo do saber, sendo possível formar indivíduos que possuem contato, inclusive lógico/estético, com um aprendizado ativo que permite a transformação ou (re) construção do conhecimento, desde sua formação básica. Este horizonte, pode trazer novamente o papel ativo do professor enquanto intermediador entre o estudante e uma ciência pronta para ser reinventada em direção a descoberta da misteriosa experiência humana. É através desse novo aparato tecnológico de conexão global que julgo necessário ensinar a autodidatia pois, essa sim, pode lembrar os indivíduos de sua autonimia e poder de criação que foram suprimidos.

    Mirabolando, vislumbrei um novo sistema de ensino público que tenha suas apostilas virtuais abertas como num sistema de wiki. Imaginei então, ao longo do tempo, o quão mais ricas estariam as matérias de tais apostilas uma vez que cada turma de cada série contribuiu e acrescentou informações ao longo de seu ano letivo. Ainda, essas modificações estariam online num servidor interligado entre escolas municipais, estaduais e federais. Qual não seria a grandeza de tal fonte de conhecimento – construída pelos indivíduos que a acessaram para também aprender – ao se passarem décadas. Da própria escola, educação básica, poderiam surgir questões e alternativas à problemas pungentes em comunidades, cidades, estados e países, sendo de fato, tal conhecimento compartilhado e acessado publicamente, quebrando com uma lógica centralizadora de fontes de saber que podem (vejam que estou sendo generoso) ser tendenciosas e direcionadoras.

Citações:
“[…] a ética hacker tem a ver com compartilhamento, acessibilidade e descentralização. Os hackers querem tomar as máquinas para melhorar o mundo. Assim, o computador deveria ser introduzido nas escolas, não como mera ferramenta, ou como máquinas aprisionadas em um laboratório, mas de um modo que permitissem a colaboração, num processo de resgate do papel de ativista do professor.”
Pretto (2010, p. 1)

“Para que serve um estudante sem autoria? Não sabendo aprender e dominando […] conteúdos ultrapassados e/ou mal arrumados, fica à deriva, não pode assumir posto de comando e coordenação, não irá além de cumprir ordens.”
Demo (2010, p. 3)

“A imagem da rede é bastante esclarecedora a respeito da natureza da Internet, um sistema interativo de comunicação humana, tornando possível que a criação, a publicação, a distribuição e o uso das produções culturais, científicas e artísticas ocorram de forma integrada, ao mesmo tempo, independentemente do espaço, e aproximando autores, produtores e consumidores.”
Antonio (1998, p. 191)

“O processo típico de aprendizagem dos hackers começa quando um problema interessante é estabelecido. O hacker, então, se lança em busca da possível solução, utilizando, para tanto, diversas fontes e, depois, submete seu resultado a exaustivos testes. Aprender cada vez mais sobre determinado assunto torna-se uma obsessão para o hacker. A princípio, Linus Torvalds, um autodidata, aprendeu a programar computadores num computador herdado de seu avô. Ele criava problemas para si mesmo e descobria do que ele precisava para resolvê-los. Muitos hackers aprenderam a programar dessa maneira informal, perseguindo suas próprias paixões. A capacidade que muitas crianças possuem de aprender problemas intrincados de programação demonstra a importância da paixão no processo de aprendizagem, (…)”
Himanen (2001, p.74)

“(…) a conquista de espaços públicos ampliados, em nome do bem comum. Quando o resultado compartilhado é o que move o todo, a apropriação privada pode recuar”
(DEMO, 2009, p. 24)

“[…] não há nisso nada de automático e garantido. Pode-se continuar copiando tudo ou apenas facilitando as coisas. Depende sempre, em última instância, da atitude pedagógica, um desafio que pode ser visualizado nos estudantes, nos professores e nas próprias instituições educacionais.”
(2009, p. 54)

 

Fonte:

http://www.fae.unicamp.br/revista/index.php/etd/article/view/2273

Mais artigos:

http://www.fae.unicamp.br/revista/index.php/etd/issue/view/160

Curiosidade sobre novos horizontes de nossa ciência:

http://www.aguiadourada.com/pdf/inteligencia.pdf

 

 

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