Resenha – Caderno de Sociologia – 1ª Série, Volume 3

O volume 3 da 1ª série do caderno de sociologia fornecido aos professores da rede pública de ensino, traz como tema o debate geral sobre cultura. Para tal realização recorre mais especificamente à antropologia cultural, disciplina que de certo modo possui este tema como uma de suas especificidades.Neste sentido atende a idéia inicial de incorporar na reflexão sociológica para o ensino médio as demais áreas pertencentes às ciências sociais, como a ciência política e a antropologia.

Para o debate sobre o homem como ser cultural, as diferenças culturais foram utilizados conceitos gerais como etnocentrismo e relativismo cultural, fundamentais na reflexão inicial desenvolvida pela antropologia moderna.

Sobre o papel determinante da cultura na formação do individuo, da multiplicidade de culturas, e sobre a própria noção de cultura enquanto um conceito científico, foram mobilizados, de forma mais acentuada, argumentos mais presentes em uma das vertentes ou “escola” antropológica, neste caso o culturalismo norte americano e um de seus autores de maior expressão, Clifford Geertz.

Na Situação de Aprendizagem 1, é trabalhada de forma geral a noção do homem como ser cultural. A partir de perguntas básicas mais fundamentais, tais como “O que nos distingue dos animais?”, “O que nos une como seres humanos?”, “O que nos diferencia?” , o texto passa a elaborar de forma sistemática a idéia do homem como ser que produz e é produzido pela cultura. Para isso a abordagem principal é tentar desnaturalizar os fenômenos sociais para o aluno e mostrar como são culturalmente e historicamente construídos pelas diversas sociedades. São usados vários recursos interessantes para o professor problematizar a questão com os alunos, como imagens e exemplos. Uma pequena sistematização dessa problemática é que o que nos une enquanto seres humanos são nossas diferenças, expressas na diversidade de culturais encontradas pelo mundo.

Para o avanço da discussão, são apresentadas e discutidas as noções de etnocentrismo e relativismo cultural. O etnocentrismo é definido como a postura segundo a qual observamos e avaliamos os outros povos a partir de nossas categorias culturais. E o relativismo cultural é explicado como a postura em que produzimos um distanciamento de nossas próprias noções e nos colocamos no lugar do outro para compreender a lógica de seus valores e pensamento.

Após tais definições, o caderno elabora uma ótima questão, que é “Por que até hoje nós confundimos diferença com inferioridade?” e aponta como resposta uma idéia um pouco genérica mas interessante para ser trabalhada, que é o medo que nós teríamos de relativizar nossas instituições e valores, não mais os considerando os únicos possíveis, e sim admitindo inúmeras outras possibilidades de existência e organizações sociais. Questão muito interessante e que poderia ser melhor trabalhada, apresentado situações mais concretas deste medo da diversidade.

No fim desta Situação de Aprendizagem, destaque para a presença de algumas idéias de Claude Lévi-Strauss, de seu famoso texto “Raça e História” e de exercício para reflexão sobre o conteúdo apresentado.

Na Situação de Aprendizagem 2 é debatido o determinismo geográfico e determinismo biológico. As duas formas de pensamento são combatidas, sobretudo através de exemplos. para reforçar a idéia da cultura como determinante do comportamento social. Admiti-se a influência do meio geográfico e da bagagem genética mas jamais como fatores determinantes, dando a primazia dos fatores culturais na interação e construção do comportamento.

Na questão do determinismo biológico, a questão das raças só é mencionada, e não há nenhum desenvolvimento do tema. O próprio caderno do professor admite não ser este o objetivo, já que a noção de raça será melhor trabalhada no caderno 4. Devido a importância e atualidade do tema, a questão deveria ser melhor explorada, ou pelo menos se admitir o debate em sala de aula, antecipando o próximo caderno. No geral deveria ser usados mais exemplos para tratar das questões das duas formas de determinismo

Na Situação de Aprendizagem 3 há o esforço para definição do termo cultura enquanto conceito científico próprio das ciências sociais, mais especificamente da antropologia. Aparecem autores como o norte americano Clifford Geertz e o brasileiro Roberto DaMatta. A cultura é definida de forma mais geral como “sistemas de símbolos entrelaçados e interligados entre si que fornecem para os indivíduos um modo de pensar, de agir e sentir” [1]. A partir de tal definição são diferenciadas as ações provenientes dos instintos das do universo simbólico, retomando e complexificando a relação homem e natureza e as diferenças entre homens e animais apresentadas no começo do caderno.

Um importante ponto introduzido é a crítica ao evolucionismo cultural, visão científica do século XIX e que ainda permeia o senso comum. Nesta questão há o esforço para demonstrar o desenvolvimento multilinear das culturas em contraposição a idéia de um desenvolvimento geral, linear da cultura que se da em etapas e que classifica as diferentes culturas a partir de seu “estágio” nesta suposta escala.

As diversas características da cultura são apresentadas, de formar a tornar mais completo o conceito. São destacados o caráter simbólico da cultura, enquanto um conjunto de símbolos e significados transmitidos pela linguagem, o caráter social, histórico, e dinâmico, ponto importante por não representar a cultura como uma esfera imutável, estática, que apenas “enjaula” os indivíduos nas tradições, mas sim como uma esfera que se transforma na prática e incorpora elementos.

Neste ponto poderiam ser problematizadas questões de poder e disputas por significados no universo cultural em sociedades como a nossa, marcada pela diferença interna entre os distintos grupos sociais. Um recurso interessante é o texto da página 27, bem dinâmico e que fornece muitos exemplos de como a culturas não são fechadas, afastando a idéia de uma cultura “pura” ou “original”.

O Caderno se apresenta de maneira geral de forma positiva quanto aos conteúdos selecionados, trazendo para o ensino médio a concepção mais abstrata da determinação cultural do ser humano, além de temas fundamentais para o processo de formação de indivíduos que compreendam, além de respeitarem, a diversidade cultural, para além do senso comum, entrando em contato com o exercício do relativismo em contraposição ao etnocentrismo. As dificuldades e criticas se impõe, no que diz respeito a quantidade de aulas por semana (apenas uma), e a certo fechamento do professor aos conteúdos do caderno, não propondo muitas aberturas para a introdução de recursos e técnicas trazidas pelo professor.


[1] Caderno do Professor – Sociologia, 1ª Série, Volume 3, p.29.

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