Resenha do texto “Quanto vale uma criança negra. Idéias básicas” – Joel Rufino dos Santos

O texto aqui apresentado traz importantes reflexões sobre a noção de raça, racismo, exclusão escolar e classes sociais.

A reflexão do autor tem início com a  questão dos possíveis “usos” da literatura. Após uma breve análise da obra “As Mil e Uma Noites” o autor argumenta que a literatura pode possuir duas configurações distintas: uma literatura inútil que só serve para adiar a morte temporariamente, como a personagem Scheerazade, que conta histórias noite após noite para entreter o sultão ao saber que este pretende matá-la ao final da história, e uma literatura que se torna necessária por propiciar a convivência com o “outro” através da sedução, uma configuração que estabelece pontes para o diálogo, para o conhecimento sobre o “outro”, o possível acordo e a tolerância.

A partir da reflexão inicial sobre os possíveis “usos” da literatura, o autor define que no ensino brasileiro como um todo, a literatura possui uma abordagem de “caráter utilitário e desnecessário” [1], que não possibilita esta “sedução”.

O autor passa então a uma seguinte questão, sobre a maior capacidade de uma classe social fazer literatura do que outra classe, ou da propensão de uma cultura em fazer literatura em detrimento em relação a outras. Longe de cristalizar características a priori de uma classe ou uma cultura, atribui um não como resposta a estas questões mas não deixa de sinalizar que há pré-condições objetivas que podem favorecer ou desfavorecer a criação.

Em seguida o Joel Rufino dos Santos nos propõe uma noção ampliada de literatura, que nos faz questionar certa “naturalização” que fazemos da literatura apenas como expressão escrita e impressa. Com esta noção, nos mostra exemplos históricos da intensa produção das classes populares, ou da “cultura popular” que também são formas literárias, como as cantigas , cordéis, causos, lendas, os autos, os mitos e etc. Tais formas literárias são muito marcadas pelo “façanhismo”, histórias marcadas pelos grandes feitos dos seus personagens, geralmente representantes das classes populares que se deparam com desafios. O autor se utiliza então da análise que o escritor, psicanalista e militante anti-colonial Frantz Fanon faz sobre os sonhos “façanhistas”, onde estes seriam um tipo de espaço de exercício da liberdade do colonizado, o “lugar” onde podem se libertar; e assim como eles os contadores de histórias (produtores de literatura) também se libertam em suas histórias.

Assim como um tipo de libertação, a literatura pode propiciar o prazer, atividade com fim em si mesmo, marcada pelo gozo único que se opõe ao utilitarismo e ao planejamento massificado da sociedade marcada pelo capital e a racionalidade instrumental. Além, do prazer, de forma de libertação, consciente ou inconsciente, a literatura também é espaço de aprendizagem, onde podem ser ensinadas as expressões vindas das classes populares, demonstrando suas lógicas próprias e sentidos distintos atribuídos nestes contextos, proporcionando assim bases mais sólidas para a construção do diálogo, e o contato destas classes com os setores/grupos progressistas da sociedade que assim poderiam caminhar para um futuro de mudanças positivas mais amplas no conjunto da sociedade.

No segundo momento do texto, o autor passa a uma analise crítica da noção de raça que opera na sociedade atual através de um exame histórico do conceito. A primeira vista, raça é caracterizada por um fato objetivo associado ao conhecimento biológico: “um conjunto de pessoas consangüíneas que guardam parentesco biológico entre si” [2], ou a é “reserva de milhares de genes transmitidos hereditariamente” [3]. Estas afirmações que recorrem à biologia são desmontadas com próprios argumentos desta disciplina, pois se os homens descendem de ancestrais comuns e todos os humanos possuem o acesso à reserva comum de genes logo a raça é única, a raça humana.

A noção de raça vai se construindo como o desígnio do senso comum aos distintos grupos classificados de acordo com os diferentes traços visíveis, e dentro destes traços de distinção o mais perceptível é a cor da pele. Como um desígnio do senso comum, esta noção é transmitida em larga escala sem um exame mais rigoroso de seus fundamentos e passa a carregar todos os preconceitos gerados historicamente e que são reproduzidos ao longo do tempo.

Além da cor da pele, outra característica que no senso comum é incorporado à noção de raça, e com isso associado ao conjunto dos genes, é o comportamento social. As distintas práticas, manifestações culturais, e seus distintos significados são reduzidos como comportamentos naturais das varias “raças”.

O que entendemos por raça então é uma “forma de percepção dos fatos objetivos” [4]: as diferenças visíveis (cor da pele), sociais e culturais entre os diversos grupos humanos; e como formas de percepção, são construções sociais historicamente construídas e internalizadas. O racismo em sua raiz é puramente a afirmação da existência de raças humanas distintas e as características sociais e culturais a elas atribuídas, mas vai além, a isso foi somada a atribuição de uma diferença qualitativa entre os grupos humanos que serviu e serve de base para dominação de um grupo (ou grupos) sobre outros.

A partir destas considerações sobre a noção de “raça” o autor passar ao exame profundo da idéia que temos do negro e suas representações. Somente pelas características físicas, seria muito difícil achar um individuo que fosse de acordo com um “tipo ideal negro”,sendo então impossível definir “o negro” somente através da categoria biológica.

O “negro” também é uma atribuição histórica, pois é relacionado ao seu passado como descendente de escravos, uma atribuição inconsciente segundo o autor, mas que se manifesta quando não esperamos nos deparar com indivíduos negros desempenhando trabalhos e funções de prestígio não-braçais, pois como estão associados a escravidão seriam intelectualmente inferiores, como era atribuído as escravos. A recente escravidão, ainda deixa diferenças sociais profundas agregadas a “cor da pele” em nossa sociedade, onde a maioria dos pobres são negros. O trabalho manual, negros e pobreza são sinônimos.

Além destas categorias, temos que ainda somar o plano da cultura, ou como o autor define, os contextos culturais diversos que compõe a sociedade. Contextos com práticas culturais distintas e com lógica própria aos contextos aos quais pertencem, assim os indivíduos transitam e pertencem a vários contextos mas é “medido” ou avaliado segundo a cultura que se estabelece como hegemônica. Os contextos culturais associados aos negros são tidos como inferiores aos não-negros, assim como a imagem de indivíduo negro é cristalizada segundo ao que é considerado ser um negro.

Encerrando o debate sobre as raças e a idéia que se tem do que é o negro, o autor chega a concluir que negro é o individuo de pele escura, pobre, associado ao escravo e consecutivamente às características associadas ao escravo como baixa intelectualidade, somado ainda ao conjunto das práticas culturais atribuídos aos negros.

Em um terceiro momento do texto, o autor entra na discussão sobre a escola brasileira, e a crise anunciada a tempos em que esta se encontra. Não identifica o fracasso da escola com a condição dos alunos, considerados burros ou marginais, ou com o professor considerado mal pago, mal preparado e desinteressado. Não ignora estas condições totalmente mas identifica o fracasso da escola relação estabelecida entre professor e aluno. Esta relação se forma na verdade pela mediação das imagens idealizadas que tanto o professor faz do aluno como o aluno faz do professor.

A imagem que chega do aluno ao professor é a de um aluno inculto, desestruturado e incapaz, e a imagem obtida pelos alunos do professor é a de um sujeito, culto, educado e estruturado. O aluno acaba estabelecendo uma oposição entre a imagem que faz de si e a imagem que tem do professor e neste processo é o aluno, um indivíduo ainda em formação, quem acaba saindo em desvantagem.

Tais imagens, segundo o autor, são produzidas fora dos muros da escola e representam idéias encontradas na sociedade brasileira como um todo, sendo a escola um espaço em menor escala reproduzindo práticas, hábitos e visões de mundo que compõe o país. Estas imagens idealizadas entre alunos e professores são compostas fundamentalmente pelas imagens que as elites fazem das classes populares, e das imagens que estas fazem das elites, portanto se há uma crise nas escolas, ela reflete também os rumos tomados pelo país, e sua crise. O Brasil, um país inserido em relações que se dão no âmbito global “reproduz nos seus dilemas e impasses a trajetória do mundo contemporâneo” [5], ou seja, grande parte dos problemas nacionais, são também problemas mundiais. Se há uma crise no Brasil, há também uma crise mundial.

Diante da constatação do fracasso da escola vir da relação entre aluno e professor mediada pelas imagens que um faz do outro e que tais imagens refletem as práticas e idéias contidas na sociedade brasileira e que por sua vez se encontram em dilemas globais, o autor passa então a questionar este ponto de chegada que muitos pensadores se deteriam: que o problema na verdade é um grande problema social em várias escalas. Dada nossa condição de ser social, todos os problemas em última instância são sociais, explicação que detém o avanço sobre complexidade dos fenômenos sociais atuais.

O autor passa a um questionamento interessante e necessário sobre a teoria nas ciências sociais. Busca demonstrar como o marxismo, um dos corpos teóricos mais influentes de toda teoria social, tem seus limites para fornecer as ferramentas de compreensão da realidade. Tal teoria, assim como a ciência em geral, surge no “interior de um processo civilizatório hegemônico mundial” [6], capitaneado pela Europa e os Estados Unidos e o desenvolvimento do capitalismo. Os valores e sentidos dos contextos culturais compartilhados por estes países/grupos dominantes passam a se impor como os sentidos e valores culturais universais, assim como as teorias que nascem em meio a este processo histórico. Para o autor, há uma crise nesta hegemonia do império euro-norte-americano e por conseqüência uma crise na teoria que floresceu junto a este processo.

Surge a necessidade de buscarmos novos instrumentos teóricos que ultrapassem as teorias clássicas, e toda sua carga universalista, para um quadro que possibilite apreender a singularidade do caso brasileiro e os problemas da nossa escola para além da constatação de uma crise brasileira inserida em uma crise mundial.

A visão que nossa elite tem das classes populares reproduz as visões etnocêntricas que as elites dos países hegemônicos possuem do que consideram os “povos subdesenvolvidos, primitivos, arcaicos, sem história” [7]. Esta reprodução em escala nacional de um pensamento civilizatório europeu, acaba por enxergar as camadas sociais que não pertencem à elite como “outros” e por conseqüência seus contextos culturais são tidos como inferiores, atrasados e arcaicos. Retornando à escola, professores e alunos possuem contextos culturais distintos e para além da relação entre classes sociais há a interação ao nível do simbólico, onde o encontro se da entre significados e valores distintos.

Em seguida o autor faz uma interessante diferenciação entre ensino e educação. Educar apresenta um sentido amplo, é a transmissão contínua de todo e qualquer conteúdo social, aos menos experientes, sem um objetivo definido. Já o ensino é a transmissão sistematizada de conteúdos específicos por meio das instituições (como a escola). A grande contradição que se verifica é os que educam (pais?) não são os que ensinam (professores). Diante da impossibilidade objetiva de colocar os educadores no lugar dos que ensinam o autor não formula claramente sua proposição, considerando ser vital “que o ensino se abra à educação e a escola se insira no processo civilizatório brasileiro”.

Na ultima parte do texto, o autor volta a discussões já abordadas,como o processo de hegemonia cultural europeu/norte-americano, na relação centro-periferia do capital, mas agora analisando as noções de tempo e espaço e sua utilização nas escolas.   A percepção da história (tempo) e da geografia (espaço) apresentadas faz parte de um saber oficial, do contexto cultural das elites que se impôs como legitimo; saberes conectados ao pensamento europeu com o mundo dividido em centro e periferia, noção ancorada numa percepção do espaço tido como absoluto, que por sua vez se divide em espaço cheio ou vazio.

Os espaços organizados a partir de um determinado ponto de vista (centro) são tidos como “cheios” em oposição aos espaços tidos como “vazios”, os que encontram na periferia ou que não compreendem a noção de “civilização”. Junto a esta noção de espaço absoluto esta a noção de tempo absoluto, linear e cumulativo. Para ilustrar estas ideais o autor cita Canudos, que a partir de um ponto de vista marcado pela utilidade mercantil, estava fora do tempo e do espaço oficiais. O tempo e o espaço dos contextos culturais populares, onde se encontram a maioria dos alunos pobres e negros, são excluídos pela escola e o ensino, estes representando os contextos culturais das elites. Com isso autor retorna então aos temas abordados no começo do texto sobre a necessidade de se conhecer melhor os contextos culturais populares possibilitando uma melhoria efetiva da educação brasileira.


[1] Ibidem

[2] Ibidem, p. 14.

[3] Ibidem, p.14

[4] Ibidem, p. 16.

[5] Ibidem, p. 23.

[6] Ibidem, p. 23.

[7] Ibidem, p. 24.

Referências:

SANTOS, Joel Rufino. Quanto Vale uma Criança Negra. Idéias básicas. In SANTOS, Joel Rufino; VARGAS, Eduardo Viana (orgs). Literatura e Criança. I° Encontro Local do Programa “Quanto vale uma criança Negra”. Rio de Janeiro: ISER,1989, p.11-34 .

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