Letramento…mas o que é isso?

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Ultimamente, o que mais tem me tocado em relação à Educação diz respeito ao letramento, que envolve também discussões relacionadas à alfabetização e aquisição de linguagem. Para mim, faz muito sentido postar algumas considerações sobre o tema aqui no blog, uma vez que estamos nos formando educadores e, mais cedo ou mais tarde, enfrentaremos a realidade educacional do nosso país, seja na escola ou seja em outros espaços educacionais.

Das poucas experiências que eu tive com educação até agora, de fato, pude constatar que muitos alunos que passaram por uma trajetória escolar na rede pública de ensino tem dificuldades em leitura e escrita. Dentre elas, por exemplo, é mais comum do que gostaríamos encontrarmos jovens ou no Ensino Fundamental ou no Ensino Médio (este último, público com o qual os licenciados em Ciências Sociais vão lidar diretamente) que apresentam enorme dificuldade em ler, compreender e interpretar um texto satisfatoriamente. É mais complicado ainda quando o professor depara-se com uma situação em que o aluno nem mesmo foi alfabetizado devidamente, tendo percorrido anos dentro de sala de aula sem ter sido formado para exercitar plenamente suas capacidades em leitura e escrita. Recentemente, comecei a trabalhar no programa Mais Educação(1) na rede pública de Campinas, e tenho lidado cotidianamente com essa realidade, que me coloca em contato com crianças do Ensino Fundamental II que, muitas vezes, foram alfabetizadas no ano anterior ou em um período muito recente. Na escola em que eu trabalho, a atividade que eu realizo é tida como “Oficina de Letramento”, e é realizada mais vezes também ao longo da semana, pois muitos alunos são encaminhados para essa atividade, a qual se referem também pelo nome de “Aula de reforço”. Essa situação, sem dúvidas, gera impactos negativos no desempenho não só escolar, mas também pessoal para os alunos, que acabam por relutar em participar da atividade porque sentem vergonha, ficam nervosos ou acham que são “burros” e que tem algo de errado com eles.

Mas, daí, você, que está matriculado nessa matéria de estágio supervisionado em um curso de Ciências Sociais, deve estar se perguntando no que isso te diz respeito, certo? Bem, na minha opinião, eu responderia que não só os licenciados da nossa área, mas todos aqueles que lidam com Educação, em algum momento, deveriam passar por essas reflexões!

Saber ler e escrever é fundamental para o desenvolvimento pessoal, social, político de todo indivíduo. Aprender a dominar a língua escrita e os processos de letramento (logo falaremos melhor sobre isso) faz parte do processo de educar um indivíduo, em todos os níveis. Acredito que a principal mágica de saber ler e escrever está na aquisição de uma entre outras ferramentas que o indivíduo tem para se expressar e comunicar de forma cada vez mais plena, com implicações profundas em todas as esferas da vida, desde sua auto-estima até o seu desempenho nas relações sociais. E isso, com certeza, acredito que poderá evidenciar-se numa aula de Sociologia, na realização de exercícios, provas, debates, etc., pois essa questão não limita-se somente às aulas de Português e aos professores desta área. A preocupação com o saber ler e escrever deveria ser de todos os educadores, sendo uma tarefa compartilhada.

Portanto, entendemos que letramento é um processo que compreende “o desenvolvimento de habilidades e comportamentos de uso competente da língua escrita nas práticas sociais de leitura e escrita” (SOARES, 2004:100), ou ainda, que é uma “prática social organizada e mediada pela cultura letrada, são práticas de leitura e escrita que ocorrem nas mais diferentes esferas, que trabalha intencionalmente com o ensino da leitura e da escrita” (2). Deste modo, trabalhar com letramento não significa exatamente alfabetizar. Para ficar mais claro, é preciso expor que alfabetização e letramento são processos diferentes mas que articulam-se na prática. Conforme Magda Soares, pesquisadora renomada na área de alfabetização e letramento:

Por outro lado, também é necessário reconhecer que, embora distintos, alfabetização e letramento são interdependentes e indissociáveis: a alfabetização só tem sentido quando desenvolvida no contexto de práticas sociais de leitura e de escrita e por meio dessas práticas, ou seja, em um contexto de letramento e por meio de atividades de letramento; este, por sua vez, só pode desenvolver-se na dependência da e por meio da aprendizagem do sistema de escrita” (SOARES, 2004:97).

Segundo reportagem recente de Maria Alice Setubal, também especialista na área, “apenas 1 em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Da população de 15 a 64 anos, 27% é analfabeta funcional –a proporção de analfabetos funcionais na área rural é de 44% e de 24% nas áreas urbanas. Um em cada 4 brasileiros que cursaram até o ensino fundamental 2 tem nível rudimentar de alfabetismo e somente 35% dos brasileiros com ensino médio completo podem ser considerados plenamente alfabetizados (Indicador de Alfabetismo Funcional 2011/2012)” (3). Fazendo coro com as informações apresentadas pela pesquisadora, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), de 2012 e divulgados em 2013, mostram que temos no nosso país 8,7% de analfabetos, isto é, 13,2 milhões de pessoas de 15 anos ou mais (4). A partir disto, apontamos: 1) postura de combate ao analfabetismo, em termos de políticas públicas, nos últimos 20 anos; 2) certa eficácia em  relação às ações voltadas para a educação básica, pois na faixa dos 15 aos 19 anos, a taxa de analfabetismo é de 1,2%; 3) estimular e articular mais intensamente políticas e ações em prol da alfabetização na região Nordeste, que concentra 54% do total de analfabetos; 4) necessidade de direcionar maiores esforços para as políticas voltadas à educação de jovens e adultos, principalmente para os idosos.

Setubal ainda aponta os desafios provenientes da cultura digital, realidade geracional de muitos dos alunos com os quais iremos trabalhar, que por sua vez demanda o exercício do letramento digital para garantir o pleno acesso a essas novas tecnologias que proporcionam novas possibilidades de interação e de práticas sociais.

A fim de lidar com esse quadro educacional brasileiro, é necessário que o governo elabore e implemente políticas públicas competentes, que consigam articular os três níveis do poder público em torno da concretização do propósito de combate ao analfabetismo. Desta forma, ao contrário do que pode-se pensar, tratar de políticas públicas voltadas para alfabetização e letramento é selecionar e traçar um determinado projeto político para o país, dado que optar por alguma postura em relação a o que ser executado é fazer uma escolha ideológico-política. A pesquisadora Maria do Rosário Longo Mortatti esclarece este ponto em um dos seus trabalhos:

Ao longo desses aproximadamente 130 anos de história da alfabetização, em decorrência do que se considerou a nova e a definitiva verdade científica sobre esse processo, pode-se constatar, em determinados momentos, a centralidade atribuída, no âmbito do que hoje denominamos “políticas públicas”, a um ou a alguns dos aspectos específicos da alfabetização, tendendo-se a reduzir esse processo a aspectos neutros e meramente técnicos, porque considerados correspondentes à verdade científica comprovada e inquestionável. Desconsidera-se, assim, que decorrem de opções e decisões relacionadas a determinada(s) teoria(s) educacional(is), fundamentada(s) em determinada(s) teoria(s) do conhecimento e integrantes de determinado(s) projeto(s) político(s) que lhe dá(dão) sustentação e motivação em determinado momento histórico” (MORTATTI, 2010:329).

No que se refere ao EJA, as pessoas que compõem essas estatísticas serão também, provavelmente, aquelas que alguns de nós encontrarão em sala de aula. Neste semestre, meu estágio para a licenciatura tem sido realizado em um EJA, e tenho percebido, de perto, o quanto esse trabalho demanda uma atenção específica e mais intensa devido ao perfil particular dos alunos que se encaixam neste segmento. No meu caso, a unidade do EJA atende um perfil de aluno com altíssima vulnerabilidade social, para o qual o universo da escola e dos estudos não figura como algo atraente frente às demandas que se colocam prioritariamente na sua vida. Além disso, fator fundamental para a continuidade e o sucesso da procura e da permanência desses alunos no EJA é a situação familiar que eles vivenciam, e isto de uma forma geral tanto para o ensino regular quanto para aqueles que estão retomando os estudos, uma vez que se a família não oferece suporte e apoio à continuação dos estudos e se os componentes da própria família não tem uma bagagem de anos de estudo que permita com que eles possam contribuir para esse processo, a probabilidade do indivíduo abandonar a tentativa de continuar os estudos torna-se muito alta.

A realidade que se refere ao segmento do EJA tem se tornado cada vez mais delicada se observarmos que tem ocorrido um decréscimo da procura por matrículas nos últimos seis anos. De acordo com o Censo da Educação Básica de 2012, entre este período, 1 milhão de matrículas deixaram de ser feitas (5). Este panorama é muito preocupante, pois exprime uma grande dificuldade, no que diz respeito à elaboração de políticas públicas, para conseguir atingir esse público a fim de compreender e contemplar suas demandas. Segundo especialistas, a heterogeneidade deste público é um fator desafiante para que seja possível efetivar os propósitos de programas e ações. No entanto, em relação ao Programa Brasil Alfabetizado criado em 2003, por exemplo, que visa desenvolver um trabalho inicial para agir na alfabetização e continuação dos estudos de jovens e adultos, muito poucos resultados tem sido obtidos em comparação com o seu propósito, isto é, menos de 10% dos que participaram do programa fazem matrícula no EJA. Esse quadro só evidencia o quanto ainda é preciso avançar em termos de pesquisas e ações efetivas voltadas para a área de alfabetização e letramento.

Por fim, espero ter aguçado a curiosidade de vocês, amigos educadores, para esse universo de discussões no qual tenho cada vez me interessado mais e continuo descobrindo todos os dias com a experiência que educar tem me proporcionado.

Notas

(1) Sobre o programa, ver: http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=86&id=12372&option=com_content.

(2) Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?v=197899367052877.

(3) Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/09/1342215-maria-alice-setubal—o-direito-ao-letramento.shtml.

(4) Fonte: http://www.plataformadoletramento.org.br/em-revista/353/pnad-2012-divulga-novos-indices-de-analfabetismo-no-pais.html.

(5) Fonte: http://www.plataformadoletramento.org.br/em-revista/377/pnad-2012.html.

Referências bibliográficas

ALEXANDROFF, Marlene Coelho. “Retomando o fio da meada: a história dos métodos de alfabetização no Brasil”. São Paulo: Plataforma do Letramento, set. 2013.

KLEIMAN, Ângela.  “Preciso ‘ensinar’ o letramento?”. Ministério da Educação. 2005.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. “Alfabetização no Brasil: conjecturas sobre as relações entre políticas públicas e seus sujeitos privados”. ANPEd. Revista Brasileira de Educação, v. 15, n. 44, maio-ago. 2010.

SOARES, Magda. “Alfabetização e letramento: caminhos e descaminhos”. Pátio – Revista Pedagógica, n.29, fev-abril. 2004.

Links recomendados

– Paulo Freire e a alfabetização de adultos http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/contribuicoes-paulo-freire-alfabetizacao-515563.shtml

– Letramento e alfabetização http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/emilia-ferreiro-cisao-alfabetizacao-letramento-745163.shtml

– Reportagem “Letramento de verdade” http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/ler-escrever-verdade-423924.shtml

– Palestra de Emilia Ferreiro sobre alfabetização

http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/emilia-ferreiro-alfabetizacao-512949.shtml

– Plataforma do Letramento

http://www.plataformadoletramento.org.br/

– História da alfabetização, por Maria do Rosário Longo Mortatti

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=W_8yIABYF9Q

Thuany Figueiredo, 105738 – turma A

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  1. Olá, Thuany, para fins de avaliação, seu texto precisa de alguns ajustes (como adequação às normas da ABNT para citação e referências bibliográficas) e também pode ser melhor desenvolvido, visto a relevância do tema que você pretende debater. Enviarei para o seu email o seu texto comentado. Abraços.

  2. paulovallis

    Olá, Thuany. Ao meu ver, os estudos de letramento são importantíssimos também para a formação do professor de ciências sociais. Seria riquíssimo ter um post que abordasse esse tema. Fica a sugestão e uma indicação de bibliografia:

    KLEIMAN, Angela. Preciso “ensinar” o letramento?: não basta ensinar a ler e a escrever?. [Campinas]: UNICAMP/IEL/CEFIEL, [2005].

    ALFABETIZAÇÃO e letramento: perspectivas linguisticas. Coautoria de Roxane Helena Rodrigues Rojo. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1998.

    https://periodicos.ufsc.br/index.php/desterro/article/view/2175-8026.2013n64p256/25086

    grande abraço

  3. Oi, Thuany, ficou muito boa a discussão que vc desenvolveu, a partir do seu primeiro post, sobre letramento. A ênfase dada para o ensino de jovens e adultos é de grande relevância para as ciências sociais.




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