Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire

Mediante a discussão feita em sala acerca do texto do Paulo Freire, considerei relevante postar um resumo e algumas reflexões de outro texto do mesmo autor, A pedagogia do oprimido.

Algumas das considerações que faço vão no sentido de se pensar a validade dessas proposições no contexto atual.  Parece-me às vezes anacrônico uma compreensão da sociedade que a divida em duas partes, os opressores e oprimidos. Muitos são os questionamentos que colocam em xeque uma visão que seria, no limite, simplista. Simplista no sentido de não considerar uma sociedade plural e ainda mais complexa, onde os indivíduos não são totalmente passivos, oprimidos, nem totalmente ativos, opressores.

Além disso, considero relevante compartilhar de uma experiência vivida no meu primeiro dia de estágio no EJA, que elucida ainda mais esses questionamentos. Pois bem, logo no meu primeiro contato com a sala e com a professora, nós conversamos sobre o curso de Pedagogia. A professora também é formada em Ciências Sociais e acabou discutindo comigo sobre o conteúdo do curso de pedagogia na universidade. Segundo ela o curso está há 30 anos com a mesma abordagem, e ela não faz sentido porque o ensino sofreu transformações. Ela citou justamente Paulo Freire como uma leitura importante, mas talvez não aplicável: “o curso parou no tempo”.

Entretanto, com os protestos de junho de 2013, e principalmente os protestos e a greve no Rio do Janeiro, dos professores de Ensino Público (em outubro de 2013), foi o momento de se pensar novamente a validade dessas obras clássicas da Educação brasileira. Nessa situação aguda dos movimentos sociais são retomadas essas obras como uma espécie de inspiração por mudanças estruturais, um grito por justiça social, por uma educação mais humana. Não seria, portanto, Paulo Freire um autor atemporal, e não anacrônico?

(essa imagem foi retirada de uma página do Facebook, intitulada Black Prof  – que seriam os professores Black Bloc manifestantes dos protestos do Rio de Janeiro: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=515663088520217&set=a.514997818586744.1073741828.514974111922448&type=1&theater )

Abaixo está um breve resumo de Pedagogia do oprimido:

Pedagogia do oprimido

Paulo Freire

Introdução

A princípio Paulo Freire situa o homem como ser inquietante, que busca se descobrir. À procura de respostas os homens indagam sobre sua existência, e quando conseguem respostas, encontram novas perguntas.

Posto isso, Freire reconhece dois fenômenos: a humanização e desumanização, que permeiam sua tese acerca da opressão. Esses dois fenômenos têm raiz na inconclusão, num permanente movimento de busca, uma vez que o homem é um ser que sempre questiona a sua existência, é inconcluso e consciente de sua inconclusão.

A humanização seria a vocação dos homens, que é negada na injustiça, na exploração, na opressão, na violência dos opressores; e afirmada no anseio de liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela recuperação de sua humanidade roubada.

Desumanização: distorção do “ser mais” (humano?), uma distorção na história, mas não vocação (se fosse vocação não poderíamos fazer nada pra mudar), uma vez que essa desumanização é resultado de uma ordem injusta e não um destino dado (pensar numa estrutura que continue com a desigualdade, isso seria desnaturalizar aquilo que é nosso senso-comum). Um exemplo de desumanização é a violência dos opressores. Os opressores tem uma consciência possessiva do mundo e dos homens, daí que tendam a transformar tudo o que o cerca em objetos de seu domínio.

 

O opressor:

Os opressores não podem ter o poder de transformar, é preciso que nasça uma força da debilidade dos oprimidos. Quando os opressores tentam amenizar essa desumanização cria-se uma falsa generosidade pela necessidade desse opressor de realizar sua generosidade, que se nutre da morte, do desalento e da miséria. A verdadeira generosidade está em lutar para que esse falso amor acabe, para que ao haja mais súplicas. Lutar pela restauração de sua humanidade é também restauração da verdadeira generosidade.

Violência simbólica (?): basta que os homens estejam sendo proibidos de ser mais para que a situação objetiva seja uma violência. “Não haveria oprimidos se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão. Em resposta a essa violência do opressor os oprimidos vão em busca do direito de ser.

Sadismo: uma das características da consciência opressora, na sua visão necrófila do mundo, Por isto é que seu amor é um amor as avessas – um amor à morte e não à vida. A ciência é um exemplo de como os homens “matam a vida”.

Adesão dos opressores: elemento de extrema importância para Freire, essa chamada adesão aconteceria quando o opressor passa para o pólo do oprimido, na busca de libertação. Entretanto, mesmo que haja adesão, o opressor ainda carrega marcas de sua origem que influenciarão sua visão acerca do oprimido, principalmente preconceitos e a desconfiança que o povo seja capaz de pensar certo. Para existir adesão de fato é preciso crer no povo e destruir qualquer comportamento ambíguo. Essa passagem é como um renascer, que se cria com a partir da convivência com os oprimidos.

 

O oprimido:

“Hospedar o opressor”: um grande problema para realizar a libertação é perceber que o oprimido pode “hospedar” o opressor nele mesmo, ele na verdade vive uma dualidade na qual ser é parecer e parecer é parecer com o opressor. O oprimido pode buscar ser opressor também quando entender que ser alguém é ser o opressor. Isso acontece quando ele não se percebe hospedeiro, quando está imerso na realidade opressora.

Há, entre os oprimidos, essencialmente a classe média, uma irresistível atração pelo opressor e seus padrões de vida. O oprimido quer imitá-lo, segui-lo, ser também da classe “superior”.

Medo da liberdade: os oprimidos introjetam a “sombra” dos opressores e  seguem sua pautas, temem a liberdade na medida em que esta, implicando na expulsão desta sombra, exigiria deles que “preenchessem” o “vazio” deixado pela expulsão, com outro “conteúdo” – o de sua autonomia. Os oprimidos acomodados e adaptados, “imersos” na própria engrenagem da estrutura dominadora, temem a liberdade, enquanto não se sentem capazes de correr o risco de assumi-la. Preferindo a adaptação em que sua não liberdade os mantém à comunhão criadora.

Dualidade: os oprimidos descobrem que, não sendo livres, não chegam a ser autenticamente. Querem ser, mas temem ser. São eles e ao mesmo tempo o outro introjetado – trágico dilema dos oprimidos.

Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela porque precisamente não a tem.

Fatalismo: este é um elemento presente na mentalidade do oprimido, fruto de uma situação histórica e sociológico, não um elemento natural da sociedade. Este fatalismo liga-se a um poder do destino e a uma visão distorcida de Deus, como se Ele fosse o fazedor desta “desordem organizada”, e a situação do oprimido é uma vontade de Deus. A autodesvalia é outra característica dos oprimidos: de tanto ouvir que são incapazes, não podem e não sabem nada, acabam introjetando a visão dos opressores sobre eles neles mesmos. Com essa visão inautêntica de si e do mundo os oprimidos se sentem como se fossem uma quase “coisa” possuída pelo opressor.

Pedagogia do oprimido

Luta: a desumanização leva os oprimidos a lutar contra quem os fez menos. Esta luta se torna possível quando os oprimidos não se tornam os novos opressores, mas sim restauradores da humanidade em ambos. (isso quebra com idéia de “ditadura do proletariado”?).

Práxis: a libertação dos oprimidos ocorrerá pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. O primeiro passo é reconhecer-se como contrário de opressor.

Pedagogia do oprimido: essa práxis deve ser feita com o oprimido, e não para o oprimido. Seria uma pedagogia que refletisse as causas da opressão, resultando num engajamento pela sua libertação. Seria uma contradição se os opressores, não só defendessem, mas praticassem uma ação libertadora.

Libertação: um verdadeiro parto. É a superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos. Para haver libertação é preciso que se entreguem à práxis libertadora. O opressor também deve se solidarizar, mas não com um gesto piegas, sentimental, de caráter individual, e sim um ato de amor. Isso acontece quando o opressor deixa de ver os oprimidos de forma abstrata e passa a vê-los como homens concretos, injustiçados e roubados. Essa libertação é tarefa histórica.

Deve haver uma transformação concreta que abarque objetividade e subjetividade, relacionando-as de maneira dialética (objetivismo é pensar mundo sem pessoas, e subjetivismo é pensar pessoas sem mundo). Deve haver ação e reflexão – essa junção é a verdadeira práxis. Se a libertação não pressupor uma verdadeira reflexão seria os oprimidos transformados e massa de manobra, caindo no engodo populista.

“Os oprimidos hão de serem os exemplos para si mesmos, na luta por sua redenção.”

Como realizar a pedagogia do oprimido sem revolução? Essa pergunta existe por se tratar de um poder político que o oprimidos não tem. Primeiro deve ser feito trabalhos educativos com os oprimidos. Deve-se enfrentar a cultura da dominação.

 É preciso que haja ação associada a um sério empenho de reflexão, que seria o diálogo crítico e libertador (não um diálogo que provoque fúria e repressão maior do opressor). Não se deve “depositar” no oprimido a crença da liberdade, mas sim haver um diálogo que estabeleça confiança. A ação política tem que ser, no fundo, ação cultural. Nesse diálogo está o caráter pedagógico da revolução?

Sonho: que esta superação seja o surgimento do homem novo – não mais opressor, não mais oprimido, mas homem libertando-se. O oprimido quando se liberta tem a capacidade de ser o novo opressor, e quando ele não o faz, está libertando a todos. Quando isso for feito aqueles que antes eram opressores não vão entender essa nova lógica que não os distingue mais, e então vão se colocar como oprimidos, porque esse direito a todos tira deles o privilégio de antes.

 

 

Isis Frank de Abreu Henrique, 091588, turma A.

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  1. Olá, Isis, seu texto começa instigante e é bem escrito, porém, ao realizar apenas um “resumo” (como você mesma escreve) da obra do Paulo Freire (no formato de um glossário) o seu texto fica inconcluso. Você poderia, então, continuar a escrevê-lo, desenvolvendo as relações que você apontou no início do texto. Aliás, no início você colocou a fonte de uma imagem mas ela mesma não aparece no post. E, por fim, não ficou claro no seu texto se o Paulo Freire usa o termo violência simbólica com o símbolo de interrogação entre parênteses ou se a interrogação é sua. Se a interrogação for sua é preciso discorrer sobre ela. Se for dele, é preciso explica-la. Abraços.

    (É preciso colocar a referência completa também, seguindo as normas da ABNT)




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