Um outro possível exemplo

Em termos de ensino da disciplina de Sociologia acabamos nos deparando com assuntos que podem ser considerados polêmicos, onde há muito para se debater, especialmente com opiniões e casos diferentes sendo acrescentados a todo momento. Um desses é a violência, sendo aqui abordada especificamente como violência contra a mulher.

A violência contra a mulher, de qualquer que seja o tipo, é um assunto, hoje em dia, muito comentado e estudado, mas para alguns, especialmente para aquelas que sofrem com a violência, ainda é um tabu, por inúmeros motivos, como a vergonha, a necessidade de ocultação ou por talvez por simplesmente não saberem o que fazer. E que fique claro que não pretendo fazer nenhum tipo de julgamento ou pontuar causas e consequências de quaisquer que sejam as atitudes. A intenção é apenas abordar e questionar o assunto sob um ponto de vista diferente, porém longe de ser singular, usando como exemplo as questões postas no livro No Escuro, de Elizabeth Haynes. Este traz a história de Catherine Bailey em duas épocas distintas de sua vida, mescladas através de uma narrativa que se alterna entre o antes e o depois de um parceiro.

Embora pareça um pouco confuso inicialmente, é como se estivéssemos acompanhando duas personagens distintas: Catherine, dona de si, baladeira, que nunca parava em casa, sempre saindo com aquele que fosse o melhor da noite, até conhecer Lee, o homem dos sonhos de qualquer mulher; e anos depois temos Cathy, uma mulher nervosa, isolada e insegura socialmente, sofrendo de estresse pós-traumático e transtorno obsessivo compulsivo. Uma não se parece nem um pouco com a outra, nem mesmo na aparência, pois Cathy não lembra nem de longe a mulher exuberante que era Catherine.

A grande questão é o que realmente aconteceu para que aquela garota extrovertida se transformasse em seu completo oposto? O que sabemos é que a personagem foi atacada por Lee, seu parceiro, mas não sabemos de que forma. Além disso, somos confundidos pela transcrição do julgamento ao início do livro, onde é dito que Catherine tinha ataques de pânico, ciúmes extremo e se autoflagelava, sendo que suas próprias amigas não acreditavam em sua palavra. A confusão do leitor é aumentada conforme é descrita a rotina de Cathy, com suas inúmeras verificações de segurança, que são metódicas e chegam a durar horas e horas, com ela checando a maçaneta uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes, depois a janela que não abre, a gaveta de talheres, as persianas que devem ficar com exatos oito quadradinhos de cada lado… e tudo novamente, pois algo saiu errado, ou ela fez rápido demais, ou um barulho a interrompeu ou qualquer outra coisa. Ela levantava às quatro da manhã, mas muitas vezes só conseguia sair às nove para o trabalho, voltando todos os dias por caminhos diferentes e indo dormir tarde da noite, mas nunca antes de fazer e refazer todas as verificações.

Que tipo de vida era aquela? Ela sabia que todas as manias, os horários, as verificações, que tudo aquilo não era normal, mas como parar? Como não deixar o pânico aumentar? Como não deixar ele voltar à sua mente? Ela enxergava Lee em todos os lugares, mesmo sabendo que ele estava preso. E a única luz que começou a surgir, muito fraca, era Stuart. O vizinho do andar de cima, que não deixava a porta do prédio aberta e que com toda calma e paciência, afinal ele era um psicólogo e tentava entende-la e ajuda-la, consegue fazer com que Cathy tenha a esperança de um dia voltar a ter uma vida normal, fazendo até mesmo com que ela tente procurar ajuda. E tudo parece ir bem, até que Lee é solto da prisão. E ela sabia que ele a acharia, que voltaria pra matá-la.

A partir disso, não é possível deixar de pensar em quantas mulheres hoje em dia não entram em relacionamentos esperando a felicidade e encontrando apenas uma vida controlada por parceiros obsessivos? Em uma passagem do livro Catherine se questiona sobre o que acreditava antes, pensando que ao ver-se em uma relação abusiva seria apenas a questão de dizer chega e ir embora, mas que ao viver essa realidade não consegue agir como pensou. Lee é um homem tão encantador e manipulador que ninguém acredita nela. Como escapar dessa situação se não há suporte ou ajuda? A questão se torna ainda mais complicada se ainda existe amor por alguma parte do parceiro. E na realidade, quantas pessoas não se veem nessa mesma situação? Falar é fácil, tentar ajudar também, mas a atitude de dar um basta deve partir da própria pessoa.

Maria da Penha, que deu nome à lei de proteção às mulheres, diz em uma entrevista à Revista TPM que apenas tomou uma atitude após o marido tentar matá-la, mesmo havendo episódios de agressão anteriores. No livro, Catherine somente conseguiu sair do relacionamento após Lee ser acusado de tentativa de homicídio. Mas temos que enxergar aí uma nova questão: como será a vida depois do rompimento? Pesquisando em diversas campanhas, vemos mulheres que dizem ter nascido de novo, que tomaram as rédeas de suas vidas, que mudaram. Mas e quanto às sequelas psicológicas?Cathy escapou, mas se tornou uma pessoa totalmente diferente, presa a um momento do qual não consegue escapar e, consequentemente, sem dar seguimento à sua vida, vivendo presa ao medo. O quanto o medo não domina a vida de mulheres que saíram de uma relação? Vemos todos os dias casos de mulheres que foram vítimas de violência mesmo após a separação, por vingança, por sentimento de posse do parceiro. O quanto o grito de independência é real? A sugestão geral é que essas mulheres passem por acompanhamento psicológico, mas quem paga por isso? Independente de classe social, muitas ainda não conseguem sequer falar sobre o fato.

O livro é complicado, especialmente para um leitor casual, mas a autora consegue, de uma forma diferente, transformar em algo coeso dois períodos da vida de uma personagem, enfatizando a questão da mudança de personalidade ocorrida após um fato tão traumático. Além disso, é uma forma de se questionar acerca de como se encararia uma situação, enfatizando a questão de que nunca sabemos como será a reação para com algum evento até que ele aconteça.

Dessa forma, ao tentarmos abordar o assunto em sala de aula, muitas vezes acabamos presos aos chavões já existentes, sem pensar em algo diferente. Entretanto, é grande a chance de que todos os alunos conheçam casos de violência, mesmo que não se sintam à vontade para falar sobre isso. O livro é apenas mais um recurso possível para discutir a questão, especialmente levando em conta que ele apresenta uma situação que muitas vezes deixamos de levar em conta, o depois.

Livro: NO ESCURO
Autor: HAYNES, ELIZABETH
Idioma: PORTUGUÊS
Editora: INTRÍNSECA
Ano de Lançamento: 2013
Número de páginas: 336

* Texto revisto e adaptado da resenha original, publicada em 06/04/2013 no blog Reações Adversas (http://reacoesadversas.wordpress.com/2013/04/06/resenha-no-escuro-elizabeth-hynes/)

Raiça Fernandez – 092752

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  1. Cinthia Santos

    Olá, Raiça, aqui sim você se empenha em fazer uma análise critica de uma obra (no caso, literária) para possível utilização nas aulas de sociologia no ensino médio. O tema é realmente pertinente. Eu apenas aconselharia, pensando em utilizar de fato o livro na sala de aula, em você falar um pouco mais sobre a organização das aulas que utilizariam um livro como esse. Algumas dúvidas aparecerem para mim ao final do seu post, por exemplo: os alunos leriam o livro? Se, sim, eles leriam o livro inteiro (em quanto tempo)? Quantas páginas tem o livro? Como se daria o acesso a ele? Qual a didática o professor usaria na sala de aula para trabalhar com esse tipo de material (contando ou não com a leitura por parte dos alunos)? Como fazer o vínculo, nas aulas de Sociologia, da condição psicológica da mulher que sofre violência à condição social das mulheres de modo geral? Abraços.




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