Aulas sobre Violência – Depoimento

Leciono aulas de sociologia em duas escolas estaduais pertencentes ao município de Monte Mor – Sp. Nas aulas de estágio supervisionado II, fiz um agradecimento e alguns comentários rápidos sobre algumas aulas que lecionei parar meus alunos nas últimas semanas. Os conteúdos foram relacionados a temática da “Violência”, tema referente à Proposta Curricular do Estado de São Paulo para os segundos anos do ensino médio, que abordam os seguintes subtemas:

O aluno em meio aos significados da violência 
no Brasil:

 1 -Violências simbólicas, físicas e psicológicas.
2 – Diferentes formas de violência: doméstica, sexual e na escola.
3 – Razões para a violência.

Procurando ler e me atualizar sobre tais conteúdos, encontrei algumas aulas preparadas pela:

Cintia C. Santos e Denis Gonçalves, os quais faço o devido agradecimento por proporcionarem através de suas ideias, um arcabouço eficiente para a realização dessa  experiência:

http://pibidsociologiaunicamp.wordpress.com/2013/04/16/aulas-sobre-violencia-simbolica/

A partir desse trabalho e mesclando alguns pontos levantados por temas que procurei nos livros didáticos e em textos de jornais, revistas de ciências sociais e as seguintes bibliografias:

CALDEIRA.Tereza Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo, Editora 34/Edusp, 2000

ZALUAR, Alba. A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.

Pude concluir uma aula muito gratificante. E faço uma descrição para os leitores, que assim como eu, estão engajados na situação educacional do nosso país, e visam dar uma boa formação reflexiva para os alunos, principalmente na questão da violência tanto simbólica quanto física e psicológica.

As escolas, suas localidades e perfil dos alunos:

Trabalho em duas escolas, uma no centro e outra na periferia da cidade. Por mais que os alunos tenham a mesma idade, e problemas semelhantes de ordem social, há de se destacar as diferenças com o convivo em relação a violência e aos seus desdobramentos, incluindo a violência urbana e a criminalidade. Na periferia,  são mais latente as questões relacionadas ao crime e a relação com a violência diária, os alunos são sujeitos que observam e muitas vezes até mesmo agem,se impressionam e se fascinam com o crime e a violência.
Na unidade do centro, os alunos enfrentam uma realidade diferente, estão muito mais acostumados a ouvir falar sobre a violência na mídia e pelo censo comum vigente nos pensamentos e discursos da classe média(a escola possui uma grande parte dos alunos na faixa econômica em questão). Perfis tão diferentes e abordando o mesmo tema, de inicio da mesma forma.

Abordagens da Aula:

Realizei a divisão da matéria em 6 aulas:

  Conceito de Violência Simbólica

Ouvindo Experiência dos alunos, e analisamos revistas, charges e jornais, para identificar violências simbólicas no dia a dia.

  Reprodução da música do Racionais Mc’s – Um homem na Estrada. Reprodução de partes do filme Sequestro(Wolney Atalla – 2009) para discutir violência urbana e tensões no foco da desigualdade social e o poder da lei. Também foi reproduzido o filme “Noticias de uma Guerra Particular”(João Moreira Salles/Katia Lundi – 1999).

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Um Homem Na Estrada – Racionais MC’s

Exposição sobre Foucault – Vigiar e Punir e a sociedade vigiada e controlada, e o sensacionalismo da mídia. “Nessa aula foram exibidos trechos dos programas de José Luiz Datena e Marcelo Rezende. E comparamos Estatísticas da violência com a fala dos apresentadores. O momento da comparação, registro como um dos mais importantes dessa bateria de aulas. Pois a ideia que os apresentadores passaram com seu discurso, não eram condizentes com a realidade. Dessa forma, pudemos desmarcar juntos o sensacionalismo exacerbado contido nos programas televisivos. Principalmente na questão da criminalidade crescente entre os menores de idade.

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Com o desmascaramento dos apresentadores, surgiu a ideia de debater sobre a questão da redução da maioridade penal. Fizemos uma votação, perguntando quem era a favor ou contra a redução da maioridade penal. O resultado foi um racha equilibrado, 13 a 12 contra a redução. Vários argumentos foram levantados, então surgiu a ideia de organizar um debate, dividimos a sala em dois grupos, para que pudessem procurar os temas e montar argumentos pertinentes para defender suas posições. Fomos a sala de informática e formamos um grupo para organizar essas ideias. Sendo que nas outras aulas iriamos iniciar o evento.

Não é que a ideia deu super certo? Os alunos começaram a procurar noticias e informações e mudar de opinião, pedindo para mudar de grupo, pois haviam  mudado totalmente as suas ideias iniciais.

Posto Print Screen das discussões (pedi a devida autorização aos alunos, eles me disseram que podia postar normalmente, se algo ocorrer, retiro as imagens).

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5ª e 6ª – O trabalho em cima do debate foi gratificante. Selecionamos dois debatedores de cada grupo. Selecionamos 10 argumentos de cada proposta, cada grupo ganhou 3 minutos para expor cada argumento, e o outro grupo 2 minutos para rebate-lo. Dessa forma foram colocados os 10 argumentos de cada lado, e os grupos se reuniram novamente para rebate-los.

O DEBATE: 

O debate foi realizado em só uma das escolas, por motivos de tempo e outras condições, como falta de  tecnologia e espaço para trabalhar, tivemos que realizar apenas na escola do centro. Aqui estarão detalhados alguns argumentos usados no debate e suas configurações.Assim como o entusiasmo dos alunos que aparecem em algumas fotos do dia do evento. Todas com as devidas autorizações.

Grupo 1 – Argumentos

O grupo “contra a redução da maioridade penal” bateu na tecla do sistema carcerário brasileiro, dizendo que o mesmo era falho e que nossa justiça era completamente falida. Que não educávamos nossas crianças da maneira correta. Então não seria justo e nem honesto que a sociedade condenasse quem não teve oportunidade ainda de virar adulto com condições de viver fora da criminalidade.

Os alunos enxergaram o Estado como provedor do futuro da criança e do adolescente.

Trouxeram vários artigos do ECA.

Gráficos sobre crimes cometidos por menores de idade atenuando sua gravidade, e mostrando que são minorias.

Índice de reincidência nos presídios brasileiros.

E resultados da educação no Brasil (apresentaram um ranking que o país está em penúltimo lugar na qualidade de ensino).

A história da responsabilização do menor de idade, que vem desde a época do Vargas, confesso que desconhecia o processo. Trouxeram textos de pedagogos famosos, como Piaget.

Também trabalharam com um método comparativo de debate, trazendo o sistema educacional e prisional da Noruega e dos países Escandinavos, para mostrar como o sistema de lá é eficaz investindo na educação de presos e pessoas livres.

Grupo 2 – Argumentos

A favor da redução da maioridade penal, o grupo 2 apelou para o sensacionalismo tão trabalhado na mídia mostrando casos reais de menores que cometeram crimes considerados bárbaros pela opinião pública.

Trouxeram também uma estatística sobre crimes cometidos por menores de idade.

E um depoimento de um delegado, dizendo que facções criminosas aproveitam a flexibilidade da punição para menores de idade, para que os mesmos cometam crimes que dariam um bom tempo de pena para adultos e reincidentes.

Além de uma grande porcentagem de países desenvolvidos que adotam penas mais duras para criminosos que possuem menos de 18 anos.

Algumas teorias sobre juristas(pouco conhecidos pela academia). Olhares de alguns deputados, entre eles, Afanásio Jazadji e Conte Lopes(Ex Capitão da ROTA), além do depoimento de Carlos Massa(Ratinho, apresentador de TV).

Insistiram nas estatísticas de crimes cometidos por menores de idade, e ressaltaram que o crime é uma vida escolhida de forma individual, sem qualquer forma de coerção social. E que a escola pública gratuita está aí pra ser uma opção contra a vida criminosa(vida louca)

Ressuscitaram o caso  Liana Friedenbach e Felipe Caffé ocorrido em 2003:
Entenda o Caso

CONFIRA AS FOTOS: Fotos autorizadas pelos alunos, com concepção dos pais.

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O Resultado:

O resultado do debate ficou em aberto, o grupo de alunos da proposta contrária a redução da maioridade se saiu melhor, apresentaram dados mais concretos e convincentes, e um olhar mais crítico sobre a realidade. Mas o grupo 2 também trabalhou de forma a constituir argumentos válidos e convincentes usando o ponto de vista da punição como forma de educar e regenerar os infratores da lei.
No final, avaliei os alunos e atribuí 2 pontos na média de cada um deles.

Conclusão:

Por fim, ressalto que senti essa experiência como algo extremamente gratificante. Pude conferir as ideias dos meus alunos, e construir novas concepções de mundo com os mesmos. A partir do interesse sobre a questão do fenômeno da “violência”, o corpo discente se interessou pela pesquisa, buscando fontes e tentando entender melhor o mundo em que vivem e que existe uma desigualdade na questão educacional e no acesso aos bens culturais, como consumo, cultura, educação, família, lazer e perspectiva de vida.

Debatendo sobre meninas e meninos da mesma idade e talvez com os mesmos sonhos que eles. O problemas social da violência e do crime, incitou o pensamento sociológico dos alunos, que através do debate de ideias, e buscando contradições nos argumentos de seus debatedores, conseguiram pelo menos por uma hora e quarenta, exercitar seu pensamento crítico e suas competências para analisar a realidade de forma mais aprofunda e qualitativa.

Me sinto honrado e feliz por ter sido o mediador desse belo trabalho. Espero ter compartilhado da forma mais clara possível tal experiência, pois a sensação de ter planejado e executado a mesma, ninguém poderá senti-la mais.

Agradecimentos:

Gostaria de agradecer aos colegas Cíntia C. Santos, Paulo Vallis, Dennis Gonçalves, Professor Doutor Pedro Peixoto, meus alunos e aos meus colegas de sala que ajudaram a enriquecer o debate sobre as questões que circundam a escola e a vida dos alunos em geral.
Também quero deixar um parabéns todo especial aos professores, gestores, pensadores e colaboradores que tentam manter viva a escola pública, mesmo sendo tão sucateada pelos vários governos que passam por aí de quatro em quatro anos.

Joel Aparecido Paviotti Junior – 093926 – Turma B

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  1. Oi, Joel. Essa troca didática é bastante proveitosa. Creio que seu relato se encaixe na proposta da disciplina e contribui para formação do professor de sociologia. Aconselho você a apenas fazer mais uma revisão no texto. Abraços.




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