Resenha (Débora Palma)

 

Pais e professores sentem-se indignados com o comportamento dos jovens e buscam compreender quais os principais motivos que levam aos atos violentos na escola. Na opinião dos professores, tal se deve pela ausência, na escola, de medidas mais duras, da falta de contratação de psicólogos, da falta do policiamento e da ausência de projetos de conscientização e valorização da escola. Em tais circunstâncias e perante essas opiniões, é importante a reflexão: que jovens as escolas estão formando, tendo em vista que, de acordo com determinadas opiniões, devem ser constantemente monitorados, contidos e acompanhados e que, do contrário, desrespeitam, destroem e machucam?

Para as autoras, é desejável que a obediências às regras não se dê por medo, temor, por estarem sendo vigiados ou a mera obediência acrítica, mas que o respeito às regras ocorra porque os alunos vislumbrem sua necessidade para o estabelecimento da justiça e da harmonia no ambiente no qual convivem.

Diante das formas de contenção, o professor mostra despreparo para lidar com situações de conflito. O ideal, no entanto, é que se busque desenvolver com o aluno formas não violentas de expressar seus sentimentos, bem como buscar estratégias mais cooperativas e justas para a resolução de conflitos.Critérios e regras morais próprias consideram os sentimentos, necessidades e perspectivas dos outros e de si mesmo. É desejável que o jovem compreenda as razões de seu comportamento e veja as normas como traduções de princípios, seguindo valores morais independentemente de receberem alguma recompensa por isso.

Educação moral

De acordo com a teoria construtivista de Jean Piaget, os valores morais são construídos a partir da interação com os ambientes sociais. Assim, é preciso refletir sobre a qualidade moral do ambiente no qual o indivíduo está inserido, bem como o tipo de educação moral que está recebendo. O que o aluno assiste? Quais as características da escola? O que os educadores e a comunidade estão valorizando? Quais as respostas que dão diante dos conflitos? A questão da moralidade não reside somente nas normas, mas por que as seguimos. O valor moral de uma ação não está na mera obediência às regras determinadas socialmente, mas no principio inerente a cada ação, ou seja, o motivo da obediência.

As consciências moral e intelectual formam-se em conexão com o meio social. A heteronomia (moral heterônoma) é caracterizada quando a fonte de obediência é movida pelo exterior, bem como a ação. Os valores são periféricos e a ação moral só faz sentido de existir e ser praticada se é vista sendo praticada pelos outros, ou seja, independe de mim (código de ética não internalizado). Já na autonomia (moral autônoma), a regra é um contrato entre iguais, e não deve ser confundida com individualismo, independência ou liberdade de fazer o que quer, mas agir da melhor maneira com todos. O código de ética é internalizado (apesar das mudanças dos contextos e de pressões sociais, permanece fiel a seus valores e princípios de ação). O sentimento de obrigação é consciente e fundamenta-se nas relações de igualdade e reciprocidade (autorregulação); os valores morais são centrais e integrados.

A moralidade depende da interação com os outros, e é imprescindível a dimensão cognitiva, pois é necessário descentrar-se, coordenar perspectivas diferentes e pensar por hipóteses. No entanto, só a cognição (saber, pensar, raciocinar e julgar) não é suficiente para a ação moral: é preciso querer agir bem (dimensão afetiva).

Para que haja ação, é preciso que o conhecimento se torne valor para o sujeito. Para Piaget, valor é investimento afetivo, produto de um sentimento projetado no objeto, como ter orgulho por ter realizado uma tarefa. Para Tognetta, valor é investir mais energia em certas coisas do que outras.

Para Adler, todo ser humano tem o sentimento da inferioridade, e uma das motivações é a expansão de si. Construímos imagens de como nos vemos e como desejaríamos ser: o que admiro? Do que me envergonho? O que me satisfaz? Do que sinto culpa? Etc. E o ser humano deseja ser visto como tendo valor, e há uma busca por superação buscando representações que nos deem uma imagem positiva de nós mesmos (desejo de ser visto como honesto, atencioso, amigável, confiável, bonito, etc.). Para La Taille (2002, 2006), o conjunto dessas representações (dimensão simbólica) constitui a personalidade. As representações são interpretações sobre si mesmo e são sempre valor (dimensão afetiva): pensar sobre si é julgar-se a partir de valores, que podem ser morais e não morais, estruturando-se a autoestima (ter consciência de ser bom em suas capacidades; valorizar a si próprio é ter representações positivas de si, que são contrárias ou estranhas à moralidade) e o autorrespeito (autoestima experimentada quando a valorização de si mesmo incide sobre os valores morais). Autorrespeito é um caso particular de autoestima, mas é regido pela moral. Criamos as representações de si com base nos juízos, positivos ou não, das outras pessoas, ou nos modelos valorizados.

Os valores podem ser centrais ou periféricos, o que permite avaliar a força motivacional. Os valores integrados são mais fortes que os valores isolados, e uma moralidade central implicam que o sujeito é fortemente influenciado por suas convicções e objetivos. Na moralidade periférica há noções do que seja o desejável a ser feito, mas considera-se periférico em relação ao engajamento pessoal. O sentimento de dever cumprido dá uma satisfação interior prazerosa quando a ação é coerente com nosso valor moral.

A maioria das escolas visa uma formação para a autonomia, sendo que a origem dessas representações está nos juízos das pessoas, nos modelos valorizados, nos sucessos e fracassos vividos, etc. Diante disso, cabe a pergunta: que tipo de valores morais estamos transmitindo? São morais (honestidade, reciprocidade, respeito mútuo, lealdade, justiça) ou não morais (beleza, sucesso, competitividade)? O que seus olhares estão contemplando? Quais seus modelos? Quais seus sucessos e fracassos? Qual a qualidade do meio onde estão interagindo? Que valores estamos construindo? Família e escola formam moralmente os alunos.

O educador precisa associar o cumprimento das normas a um sentimento de bem-estar, satisfação interna e orgulho por respeitá-las, devendo também promover a reflexão sobre as consequências naturais do não cumprimento das normas, favorecendo o autorrespeito.

‘’A conquista de relações equilibradas e respeitosas, o que não significa que os conflitos estarão ausentes, não são decorrentes de um processo de amadurecimento ou de aguardar passivamente a mudança da sociedade como pré-requisito para tanto (…) depende de todo um processo de construção e aprendizagem (…) a criança e o jovem não irá aprender sozinho questões tão complexas, se não forem previstas boas intervenções e oferecidas situações que contribuam para essa aprendizagem. Em vez de investirmos nossos esforços na antecipação, contenção e na obtenção de um ‘bom comportamento’ do aluno, deveríamos dirigir nossos olhares para o desenvolvimento e para a aprendizagem, para a formação de identidade. (…) ética considerada ‘vacina e não remédio’, necessitando para tanto de uma contínua vivência da cidadania em um ambiente sociomoral cooperativo.’’ (VINHA, T.P.; MANTOVANI DE ASSIS, O.Z., 2008, p. 11)

Considerações finais

Os conflitos só surgem porque as pessoas se relacionam. Como é impossível evitar o relacionamento interpessoal, deve-se ao menos saber o que fazer perante essas situações. Primeiramente, é preciso entender que os conflitos são oportunidades para a construção moral e mobilizam recursos afetivos e cognitivos dos envolvidos, havendo a possibilidade de construir recursos mais evoluídos e formando personalidades mais éticas, que conservem valores morais centrais.

É notável e bastante recorrente a desmotivação e cansaço dos educadores diante dos conflitos, mas é importante que estes compreendam que relações conflituosas são naturais e através das quais há a possibilidade de aprendizagem. É comum, em relação a um conflito, contê-lo, evita-lo ou ignorá-lo, quando seria melhor ensinar a autorregulação, desenvolvendo sentimentos e valores mais fortes para conter uma vontade sem a necessidade de controle externo.

Resultado da falta de ética, a violência praticada no cotidiano escolar deve ser superada através do melhoramento dos relacionamentos interpessoais e das condições sociais da escola. Costuma-se considerar a violência quando esta afeta, direta ou indiretamente, os professores e, assim, mecanismos de contenção e repressão são colocados em prática. Conflitos entre alunos, por não afetarem diretamente ao professor, tendem a não ser considerados tão importantes, e são muitas vezes ignorados.

Numa situação de conflito, há algumas possibilidades de reação: ser reativo, submisso ou assertivo. A última forma é melhor, pois considera os outros e as relações entre os indivíduos. Quando há um conflito, a criança precisa ser instigada a vivê-los e gerenciá-los, percebendo quais as consequências de seus atos, formando representações de si e quais são seus valores.

Educação moral 

Em certas escolas, há projetos para educar moralmente, e isso demanda aperfeiçoamento contínuo dos docentes. Para implantar um ambiente sociomoral cooperativo numa escola, é necessário criar um grupo de estudos com o professor e a equipe pedagógica, ter aula semanal com os alunos, ensinando procedimentos da Educação Moral; supervisão pedagógica com observação das aulas e feedback aos professores, trabalhando em parceria com eles. A afetividade na escola precisa ser trabalhada, e o sujeito deve ser apreendido em sua complexidade, com suas alegrias, tristezas, mágoas e limitações.

Relação família-escola 

A família e a escola devem unir-se para enfrentar a violência escolar, pois ambas são responsáveis pela formação moral dos indivíduos. Ao delegar a tarefa de educar aos pais, a escola desqualifica-se e desconsidera que escola e família devem trabalhar juntas para alcançar resultados satisfatórios na educação e aprendizagem. Família e escola são ambientes diferentes com diferentes possibilidades de aprendizado. Enquanto que a família é responsável pela educação primária, num espaço privado marcado por assimetrias, relações estáveis, privilégios e manutenção das crenças, a escola é onde ocorre a socialização secundária, num espaço público marcado por relações instáveis que visam ser democráticas e onde é desejável que se aprenda sobre o mundo real.

Soluções para os conflitos 

Há maior engajamento nos estudos quando há um bom clima escolar e uma boa relação entre professor e aluno. A escola deve estabelecer planos de convivência, entender a quem são dirigidos atos de violência, de qual natureza é, se físico, psicológico, verbal e buscar metas para sanar esses conflitos, estabelecendo um clima escolar melhor. Diante de uma situação de conflito, o professor não deve mostrar indiferença, mas colocar-se perante a situação e desenvolver relações mais construtivas e respeitosas com os alunos, buscando soluções inteligentes e conjuntas.

É igualmente importante demonstrar na prática que o valor é aprovado socialmente, embora seja costumeiro não assumir responsabilidades pelos atos cometidos. Ser honesto e confiável deve estar relacionado a um sentimento de bem-estar. Essa é uma motivação suficiente para o sujeito continuar tendo as características desejadas socialmente, mas nem sempre postas em prática.

O professor deve suprir as necessidades intelectuais dos seus alunos, além de estimulá-los aos saberes e à ciência. Uma escola deve estar apta a promover desenvolvimento profissional contínuo aos seus docentes e propiciar um ambiente para o estabelecimento de relações mais solidárias, com apoio ao estudo, reflexões sobre a prática docente, avaliação do ensino e avaliação dos resultados obtidos. É também válido ao professor buscar na teoria os fundamentos da prática, e buscar na prática os fundamentos da teoria. Liderança, diálogo e reflexão-ação são fundamentais na gestão escolar. É também imprescindível que valores, respeito e autonomia sejam discutidos na escola e estejam presentes no cotidiano escolar.

 

VINHA, T.P.; MANTOVANI DE ASSIS, O.Z. O direito de aprender a conviver: O ambiente escolar e o desenvolvimento da autonomia moral segundo a perspectiva construtivista. Anais do XXIV Encontro Nacional de Professores do Proepre: O direito de Aprender. Campinas, SP: Faculdade de Educação, Unicamp; Art Point. 2008.

LA TAILLE, Y. Cognição, afeto e moralidade. Oliveira, M.K; Rego, T.C; Souza, D.T.R (Org.).

Aula 3 (22-08) (Fichamento) VINHA, T. P.; MANTOVANI DE ASSIS, O.Z. O direito de aprender a conviver – O ambiente escolar e o desenvolvimento da autonomia moral segundo a perspectiva construtivista.

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  1. Débora, gostei do discurso. “O professor deve suprir…”, “a escola deve estar apta…”, etc, pois são realmente necessidades reais, mas estão distantes de algo prático que nós docente do dia-a-dia conseguimos executar, principalmente em escolas de periferia, marginalizadas, sem relação “família-escola”, onde a educação moral demorará para ser construída.

    Concordo que a assertividade do professor deve ser buscada, mas na realidade como vamos conseguir isso? Ainda vamos ficar sem resposta.

  2. Olá, Débora.

    Você anuncia que seu post se trata de uma resenha e já começa escrevendo “Para as autoras, é desejável que a obediências às regras não se dê por medo, temor […]”, ou seja, sem anunciar o texto ou as autoras a que se faz referência. Ainda que vc coloque referências bibliográficas no final, isso não dispensa uma introdução mais adequada daquilo que você se propõe a fazer. Também não está claro de as considerações finais são suas ou do texto que você fez a resenha.

    Abraços.




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