TEORIA SOCIAL COGNITIVA E ANÁLISE DE CASO ESCOLAR

Trago nesse post um pequeno resumo da Teoria Social Cognitiva de Albert Bandura e a partir dela a análise de caso de uma observação participante que fiz em uma escola municipal em São Paulo. Esse texto foi produzido na disciplina de Psicologia e Educação que fiz na Faculdade de Educação (FE)/Unicamp. Acredito que a partir do pouco que sei sobre teóricos da educação, possa contribuir para a formação dos colegas como professores. Apesar de discordar de muitos pontos da psicologia educacional, creio que ela nos traz conceitos e aprendizados muito caros para o fazer do professor e nos mostra que o ensino se torna uma via de mão dupla, na qual o professor e os alunos estabelecem uma constante troca entre eles, desnaturalizando a ideia de que, muitos de nós como recém formados possamos vir a ter, como professores levaremos o conhecimento pronto e acabado aos alunos, quando na verdade aprenderemos tanto quanto ou mais que eles. O conhecimento vai sendo construído conjuntamente.

De acordo com a Teoria Social Cognitiva proposta por Bandura, o indivíduo não é um agente passivo do meio incapaz de transformá-lo a fim de melhor satisfazê-lo. É claro que tal posição não parte do pressuposto de que o homem é capaz de alterar completamente sua realidade, pois há certas situações e doutrinas que já estão dadas e, segundo Durkheim, correspondem aos fatos sociais. Tal conceito parte da premissa que há determinadas induções que estão atreladas a dimensão coletiva e transcendem os indivíduos por ter uma existência exterior e independente deste. Contudo, em contraposição ao behaviorismo, a teoria permite que o indivíduo não seja vítima da realidade, como uma fatalidade na qual ele não tem outra opção além de aceitá-la.

Nesse sentido, os seres humanos perdem o seu caráter puramente reativo e adquirem a ambição e a pro atividade como elementos indispensáveis a sua conduta, uma vez que orientam-se e motivam-se por metas e é a crença na própria autoeficácia que os permite conquistá-las. É válido ressaltar, a princípio, a diferença que existe entre autoeficácia e autoestima: “A autoeficácia, como julgamento da capacidade pessoal, não significa autoestima, que é um julgamento de amor-próprio, e nem lócus de controle, que é a crença se os resultados são causados pelo comportamento ou por forças externas” (BANDURA, 2005, p.32). A partir desta pequena explanação, pode inferir-se que a autoeficácia não apresenta um aspecto valorativo porque leva em consideração os fatores reais segundo o modo como eles são dados, e não de acordo com juízos de valor.

Na teoria, são assinalados quatro fatores considerados como fontes de autoeficácia: experiência pessoal; aprendizagem vicária; persuasão verbal e outros tipos de influência social; indicadores fisiológicos. A importância da primeira fonte refere-se ao fornecimento de informação a respeito da capacidade do indivíduo, uma vez que o desempenho por si só é insuficiente para demonstrar sua aptidão por ser pontual e envolver questões que muitas vezes estão aquém do controle da pessoa, como as condições externas onde realizará a experiência e até mesmo o seu estado emocional.

Em contrapartida, a aprendizagem vicária ao partir da observação de um modelo cujas características são semelhantes as do observador, dispensa a necessidade do sujeito se expor a determinadas situações a fim de apreender experiências, sobretudo as negativas, que geralmente são tidas como desestimuladoras e inibidoras. Por essa razão, tal fonte é usada recorrentemente nos casos em que se tem pouco conhecimento sobre a tarefa que deverá ser realizada ou quando há dúvidas sobre a própria capacidade, por ser o comportamento do modelo o padrão de comparação. Quanto à crença na autoeficácia baseada na persuasão verbal e outros tipos de influência social, ela é similar à fonte anterior quanto à existência de um mediador entre a crença na capacidade em si mesmo e  as ações que serão geradas a partir dessa. Todavia, este medianeiro não é necessariamente um modelo, e sim alguém capaz de fazer o outro acreditar que conseguirá fazer algo (ou não), através de orientações, feedbacks de desempenho, elogios ou críticas, entre outros.

Por último, os indicadores fisiológicos possuem um efeito direto na crença das pessoas em executar determinada tarefa por desencadearem diferentes reações psicofisiológicas (como ansiedade, sudorese, dor, alteração na frequência cardíaca) de acordo com a circunstância. A partir destas quatro fontes que foram apresentadas separadamente por uma questão elucidativa mas que na realidade são postas em conjunto na vida das pessoas, estabelece-se a crença na autoeficácia e o desenvolvimento de atividades por meio desta.

Logo, a Teoria Social Cognitiva reconhece a importância das relações sociais na construção identitária do ser humano e como em função de tais relações o sujeito fornece diferentes significações aos fenômenos sociais. A crença na autoeficácia e a sua manutenção é decorrente da percepção que a pessoa tem sobre si, advinda da sua identidade constituída, o que significa que a compreensão desta interação entre o “indivíduo”, as “relações sociais” e a “crença na autoeficácia” permite melhor a compreensão do papel do sujeito no meio em que vive, e no caso específico deste trabalho, o do aluno no âmbito escolar.

Mediante a exposição feita, é importante apresentar o estudo e a análise de caso realizado a partir das observações em sala de aula de escolas públicas a fim de exemplificar a Teoria Social Cognitiva no contexto escolar. O caso abordado será o de Leandro (nome fictício), garoto de 14 anos de idade, pobre, trabalhador de feira desde os 7 anos e que agora está na quinta série* do ensino fundamental pela terceira vez. Leandro sempre teve dificuldades de aprendizagem que, atreladas à falta de tempo devido ao trabalho e as intempéries do cotidiano de um garoto pobre, morador da favela do Vietnã em São Paulo, levou-o a se ausentar muito das aulas por causa do cansaço o que contribuiu para desmotivá-lo ainda mais. O desestímulo é algo constante na vida dele pois além de viver em um contexto social adverso, a escola onde estuda não exerce uma função motivacional, uma vez que os professores nunca se dispuseram a lhe dar uma atenção especial para a partir disto acompanhar e ajudar no seu desenvolvimento. Ao longo da sua trajetória escolar, o que mais tem escutado de seus docentes é: “você é burro!”, “você não tem jeito”, “você nunca vai progredir, porque não tem interesse”. Apesar de tudo isso, Leandro gosta de ir à escola e de aprender coisas novas pois no fundo acredita em si mesmo e na sua capacidade de um dia conseguir transcender essa situação e “ser alguém”.

Outras dificuldades também se fazem presentes na vida do garoto como: dificuldade de concentração, lentidão de raciocínio, sonolência e analfabetismo funcional (fenômeno muito comum entre alunos de ensino público em nosso país). As três primeiras são resultado do cansaço advindo das poucas horas de sono por ter que acordar às três horas da manhã para ir à feira, sendo que muitas vezes acaba dormindo nas aulas e muitos professores, acostumados com essa sua “prática”, já não mais se importam com sua situação. Ainda assim, Leandro gosta de ir à escola a despeito das contrariedades e de ter feito a quinta série uma, duas, três vezes… Em função da repetência, o menino foi remanejado quatro vezes para diferentes escolas e na que está atualmente, onde novamente faz a quinta série, acredita que terá mais chances de aprender.

Com um olhar triste e envergonhado sempre direcionado ao chão enquanto conversava com o observador, ao ser questionado sobre a razão de ter repetido várias vezes, Leandro afirma: “Sempre achei a escola muito difícil”. O garoto que atualmente tem 14 anos, parece se envergonhar de estar no meio de pequenos entre 10 e 11 anos. Todavia, a sua postura em relação aos demais se faz totalmente diferente, talvez como um modo de defender-se de uma possível rejeição do grupo. Assim, diversas vezes o garoto se distrai nas aulas e fica brincando e bagunçando com certos colegas, o que impacienta os professores e alguns alunos que desejam silêncio para prestar atenção na aula.

Apesar de ter alguns amigos e estar na nova escola há seis meses, é perceptível que o menino ainda está em processo de adaptação, em partes por se sentir um pouco deslocado por já não se identificar mais com aquele ambiente (uma classe da quinta série com alunos que são no mínimo três anos mais novos do que ele). Atrelado a este isolamento por parte do próprio aluno, a classe também contribui para este distanciamento dele com os demais, ao zombarem-no por ainda estar naquele ano e por verem-no como alguém bem mais velho, o que é motivo de discriminação pelos colegas de classe. Em contrapartida os professores apresentam uma postura de indiferença quanto a esta situação, como se nesse tipo de preconceito presente na classe não fosse de sua responsabilidade intervir, como educador.

De modo geral Leandro não se questiona muito acerca de seu futuro. Ultimamente tem estado desanimado e diz que “não vê a hora” de terminar a escola e continuar a trabalhar, por crer que não há perspectivas nos estudos. Em última instância, a sua única esperança encontra-se na coordenadora pedagógica que percebendo suas dificuldades, sucessivamente o chama para conversar, procura ensiná-lo algumas coisas e já o encaminhou para a recuperação paralela e para o projeto de leitura, eventos que acontecem todos os dias no contraturno das aulas.

Mediante a apresentação da história de Leandro, alguns questionamentos podem ser feitos: como está a autoeficácia do garoto? Quais são as fontes de autoeficácia preponderantes na vida dele? E as suas expectativas quanto aos estudos? O que pode ser feito para que sua autoeficácia seja positiva e ele aja de maneira que seja o próprio agente de suas escolhas e vivências?

Apesar das imensas dificuldades, pode-se afirmar que Leandro possui uma boa autoeficácia, porque durante muito tempo ele acreditou na sua capacidade de aprender, não desistiu de frequentar a escola e achava que um dia poderia “ser alguém”. Entretanto, atualmente sua autoeficácia tem se mostrada baixa em razão do longo período de expectativa em relação a si, os professores e a escola e uma possível melhoria destas, que se frustrou. Mesmo porque é difícil a manutenção de uma alta autoeficácia quando depende-se inteiramente da sua própria crença em si. Na verdade, é preciso considerar o contexto em que esse aluno está inserido (classe social, gênero, local onde reside, etc), porque é muito superficial analisar somente que sua autoeficácia depende dele mesmo, como se o entorno não fizesse a mínima interferência. Uma análise desse tipo tenderia a reforçar o “senso comum” de que o indivíduo é inteiramente responsável pelo o que faz, independente de seu contexto sóciocultural, como conseguir ter acesso ao ensino, aprender e conhecer, dependessem somente da “boa vontade” individual.

Segundo a Teoria Social Cognitiva, o meio onde se vive, as influências dele advindas são muito importantes tanto na constituição do indivíduo (e por conseguinte na sua crença na autoeficácia) quanto de sua autoeficácia. No caso do Leandro que, o contexto em que vive não é propício para uma crença positiva em suas capacidades e as fontes de autoeficácia em sua vida estão agindo de forma inibidora e desestimuladora. A sua experiência pessoal, por exemplo, é repleta de frustrações e tentativas mal sucedidas pois apesar do seu esforço pessoal, possui certos obstáculos como: dificuldade na aprendizagem, indisposição das pessoas (inclusive dos professores) em ajudá-lo e falta de tempo para dedicar-se aos estudos.

Quanto à experiência vicária, o garoto não teve modelos educacionais nos quais pudesse se inspirar pois provavelmente tem outro foco, como o aprendizado para trabalhar na feira, pois provavelmente, foi observando os outros que ele desenvolveu as inúmeras habilidades para o exaustivo trabalho de carregar caixotes, montar e desmontar barraca de feira, vender e organizar as mercadorias.

A persuasão verbal como fonte de autoeficácia para Leandro parece ter agido em sentido oposto, como se pode observar nas declarações de professores afirmando que é “burro”, incapaz de progredir. Tais tipos de persuasão verbal tendem a levar as crenças de autoeficácia, de qualquer pessoa, a serem muito negativas de forma que, aos poucos, a pessoa vai acreditando cada vez menos em suas capacidades e o pouco que ela se acreditava capaz desaparece, especialmente no contexto social em que Leandro está inserido, que não contribui em nada para estimulá-lo a acreditar em suas capacidades de aprender e lhe coloca condições fisiológicas que também não atuam como fontes de autoeficácia e sim o contrário, pois lhe ocasionam muito cansaço, desânimo.

Ao analisar o caso de Leandro, pode-se inferir que talvez ele tenha uma possível fonte de autoeficácia na persuação verbal que, a coordenadora pedagógica de sua atual escola, possa efetuar estimulando-o e fazendo-o acreditar em suas capacidades de aprender, proporcionando-lhe condições de aprendizado mesmo que no contraturno das aulas. A história dessa coordenadora também pode influenciar muito a autoeficácia de Leandro, pois suponha-se que essa mulher veio de família muito humilde, sem recursos e tenha conseguido chegar na posição em que está com muito esforço, força de vontade e crença em suas capacidades, e dessa forma ela possa vir a ser um modelo para o garoto se inspirar. Portanto, o próprio interesse dessa coordenadora em ajudar o garoto, a crença que ela tem sobre as capacidades dele, podem ser o ponto chave para que ele renove as crenças em si mesmo e possa ser agente ativo e regulador de seu aprendizado escolar e fazer deste um instrumento para “melhoria” de vida.

A teoria de Vigotski, outro teórico acerca das questões de aprendizagem do indivíduo, também pode servir de base para efetuar mudanças graduais no quadro escolar de Leandro; como exemplo, poderia ser feita uma abordagem dos conteúdos de acordo com a realidade dele, de forma a despertar mais seu interesse para questões que dizem respeito a sua realidade social. Também deve-se agir a partir do conhecimento que Leandro já possui, para daí, introduzir novos aprendizados gradualmente, desenvolvendo a sua zona de desenvolvimento proximal, aquela que se situa entre o que o indivíduo é capaz de realizar/aprender sozinho e a zona de desenvolvimento potencial, que abrange aquilo que será capaz de aprender com a ajuda de um adulto.

Portanto, pode-se ver que é possível influenciar na autoeficácia de um aluno como ele, que até o momento parece não apresentar alternativas à sua situação de aprendizagem; é preciso mostrar-lhe como construir suas crenças de eficácia e como elas são importantes para todos os campos de sua vida, tanto o educacional como o corriqueiro que abrange o seu trabalho e sua vida em família. Logo, dá para mostrar ao aluno que talvez seja possível driblar as adversidades da realidade da qual se faz parte e as crenças negativas que se constrói acerca de si mesmo. Contudo, creio que falta a esses estudos de psicologia e educação, um pouco mais de atenção ao social, o que talvez possa ser resolvido com o diálogo frutífero com a sociologia, antropologia e sociologia da educação.

*Leandro está na quinta série, pois na nova nomenclatura ainda só existe até o quarto ano. Portanto, os alunos que entraram na antiga nomenclatura permanecem nela e cursam somente 8 anos e não 9.

Ligia Araújo Macedo Medeiros.

REFERÊNCIAS:

BANDURA, A.; AZZI, R. G. & POLYDORO, S. (2008). Teoria Social Cognitiva: conceitos básicos. Porto Alegre: Artmed

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998, cap. 1, 4 e 6.

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  1. Olá, Lígia. Seu posto está ótimo.

    Abraços.




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