Sociologia: da academia, para dentro dos muros da escola

            O filme “Entre os muros da Escola” apresenta o cotidiano de uma instituição escolar que, segundo as críticas, pode ser compreendido como a representação de uma realidade mais ampla, devido à similaridade de conflitos apresentada. Logo no início do ano letivo, o filme apresenta os professores reunidos e fazendo comentários sobre os alunos. Uns afirmam que “fulano” é bonzinho, dedicado e inteligente, que outro é mediano, e outro ainda que é bagunceiro e “nada bonzinho”. Certo professor, ao afirmar que está no colégio há mais de quatro anos, recebe dos colegas uma salva de palmas, como se ele fosse um herói.

            A apresentação desta realidade escolar, pretende mostrar algo que esta por detrás, a figura de um professor ou professora que sub-existe ao meio educacional, em meio aos alunos que o desrespeitam, que estão desinteressados e desanimados. Mas ocorre também que, por vezes, há um desinteresse da própria parte dos educadores, desânimo, desesperança. Seguindo mais adiante no filme, temos a figura do professor de francês, que entra em sala e propõe a leitura de um texto junto com os alunos. Nessa prática, ele proporcionaria aos adolescentes um maior domínio da linguagem, conhecendo palavras novas, visto que boa parte da realidade de sua sala de aula é de alunos estrangeiros. Em momentos, ele é bem sucedido, desperta o interesse da turma, porem em outros, a discussão parece desordenada e pouco proveitosa à aprendizagem.

Em “Sociologia vai à escola”, texto organizado por Anita Handfas e por Luiz Fernandes de Oliveira, no artigo assinado por , Adélia Maria Miglievich Ribeiro, Dalton José Alves, Renata Saul e Virgílio de Lima Pereira, temos a ideia da dificuldade em se transpor o conhecimento teórico adquirido na ‘academia’ para a educação básica (2009: 57). Menciono esta reflexão para pensarmos em como se pode fazer para transmitir o conhecimento de forma mais apropriada às faixas etárias dos educandos. É de se esperar que assuntos muito densos tenham maior resistência em serem trabalhados. Uma proposta que se faz por estes autores é justamente trazer a Sociologia para a realidade dos alunos. Assim, não ficaria algo distante e sim mais fácil de ser compreendido e mais prazeroso de se estudar.

O que ocorre, segundo outro autor que assina essa compilação de textos, prof. Dr. Amaury Cesar Moraes, é que o material didático de sociologia ainda não sofreu uma crítica especializada (2009: 20). Os próprios professores tem suas formações muito limitadas, com poucas disciplinas de licenciatura (Santos, 2013). Segundo Moraes, deve-se encontrar um equilíbrio entre bacharelado e licenciatura. A aproximação entre escola e academia poderia solucionar esta situação, ao se repensar na própria estrutura dos cursos de Ciências Sociais, considerando-se a regulamentação da disciplina Sociologia para o Ensino Médio. Estes fatores tem muita influência sobre como a disciplina recém “nascida” será recebida pelos alunos, despertando ou não seus interesses, deixando-os empolgados ou desanimados com essa matéria.

Outro fator que provoca o desinteresse pelo ambiente escolar, ou o seu “desencanto”, é a disseminação do conhecimento para além dos muros da escola. Os meios de comunicação apossaram-se de saberes que outrora eram restritos a esta instituição. Há canais televisivos que apresentam documentários 24 horas por dia, na área de ciências, história, física, matemática, geografia. A internet cumpre seu papel de enciclopédia, em que tudo o que quiser saber, basta entrar em sites de busca e tudo se resolve. Este monopólio do saber escolar, embora enfraquecido, pode ser superado, ao se dialogar com o os novos meios que a tecnologia oferece.

Esta nova realidade que a escola enfrenta questiona uma postura mais centralizadora do conhecimento por parte do professor que expõe e interpreta a matéria. Esta figura trazia consigo uma teoria pedagógica conhecida como Tradicional, de cunho burguês. Segundo J. Carlos Libâneo a exposição oral é a ferramenta principal desta tendência. A ideia é que os alunos gravem a matéria por repetições dos conteúdos, estando a matéria desvinculada de seus interesses e dos problemas reais da sociedade e da vida. Não há reelaboração mental do material apresentado por parte dos alunos, que são meros receptores. (1994 : 64)

Contrário a esta visão, temos o surgimento da pedagogia Renovada (configurando correntes de cunho piagetiano, culturalista e monterrosiano), que considera o aluno como sujeito da aprendizagem e não como receptor passivo de conteúdo. Esta estimula o aluno a procurar por si mesmo conhecimentos e experiências, colocando-o em situações em que são exigidas sua atividade intelectual, de criação, de expressão verbal, escrita, plástica ou outro tipo. (1994 : 66).

Assim, fica claro que a imagem de professor como detentor do conhecimento vai dando lugar a um diálogo entre educando e educador, que fornece uma visão de educação não mais como monopólio escolar – do qual o “tablado” era um símbolo de hierarquia – mas como algo construído na relação mestre-aluno. No filme “Entre os muros da Escola”, esta nova relação se apresenta quando o professor de francês, na tentativa de ler um texto juntamente com a sala e ensinar-lhe novos vocábulos, ouve de uma aluna o termo juvenil “coxinha”. Sem saber o significado, pergunta-lhe, e esta lhe responde que “coxinhas” são os franceses de nascimento, brancos.  Ele que queria ensinar novas palavras aos alunos, aprende deles algo novo.

Anteriormente se disse que uma solução para a sociologia seria aproximar a academia da escola, transpondo esta disciplina de um âmbito para o outro, que se deve, nesse processo, aproximar o conteúdo com a realidade do aluno. Neste ponto, retomo o filme para apresentar uma atividade que o professor de francês propôs para seus alunos: estes deveriam escrever sobre suas vidas, em formato de diário, relatando o que gostam de fazer e o que não gostam. Percebe-se nesta ação, uma tentativa de aproximação aluno-professor, em uma proposta de conhecerem-se e ao mesmo tempo, aprimorarem a escrita em francês. Este recurso didático pensado pelo professor retrata a tentativa que se deve fazer com a sociologia, ao aproximá-la do cotidiano dos alunos. É claro que resistências sempre existirão, como as que o professor do filme teve de enfrentar, mas cabe ao educador contorná-las e envolver os alunos o máximo possível em suas propostas.

Um último ponto a se pensar na transposição da sociologia para “dentro dos muros da escola”, é o que nos afirma Moraes. A disciplina deve levar o aluno a pensar sociologicamente, mais do que decorar quadros teóricos. Um programa curricular deve apresentar conteúdos e metodologias unidos, tendo a metodologia o papel de “fazer a diferença”. Ou seja, não se deve prender-se ao resultado das análises sociológicas, mas transmitir as inquietações que levaram os sociólogos a produzirem suas obras, seus objetos de estudo, questionamentos, bem como nos meios que eles utilizaram para buscar uma solução – sua metodologia. Caso contrário, como salienta o autor, haverá uma “decoreba” sobre vida, obras e conclusões de um autor.

Assim, aproximando a disciplina da realidade social que a impulsiona, apresentar-se-ia aos alunos um conteúdo mais próximo à sua realidade, mais concreto e não abstrato, despertando seu interesse pela praticidade da teoria estudada. Cumprir-se-ia, por fim, o papel da sociologia na formação do indivíduo que é, como afirma Ribeiro, Alves, Saul e Pereira, de desconstruir as noções de sociedade pré-estabelecidas e transmitidas pelo senso comum, formando cidadãos mais críticos, reflexivos e conscientes da realidade social que o circunda, contribuindo para o “exercício da cidadania” (2009 : 58).

 

Rodrigo adamo de Faria – 092898

 

Bibliografia

Livros

LIBÂNEO, J. Carlos. “Didática”. São Paulo: Cortez, 1994.

Oliveira, Luiz Fernandes de. Oliveira, Luiz Fernandes de. Handfas, Anita. et Handfas, Anita. “Sociologia vai à Escola – História, ensino e Docência”. Quartet Editora. 2009. 288p.

Monografia

SANTOS, C.C. A inserção da sociologia no ensino médio e a formação de professores de

sociologia nas universidades estaduais paulistas após a Lei 11.684/2008. Monografia

apresentada ao Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2013

Filme

Entre os muros da escola (2008) Direção: Laurent Cantet

Trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=BDwLbwYr1cs

 

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  1. Paulo

    Olá, Rodrigo. Muito legal o texto. Longe de tentar reduzir sua publicação a apenas um aspecto, indico um artigo que pode servir de motivação e “insights” a continuar o debate sobre o ensino de sociologia, no que diz respeito principalmente à noção de “transposição” e alguns outros elementos que a acompanham.

    http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt04/t041.pdf

    grande abraço




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