Organização dos espaços na escola, é necessário mudar?

A organização escolar deve ser feita em diferentes níveis. Esses níveis variam desde a organização dos horários de aula e vão até a organização das regras e diferentes estatutos de conduta e trabalho internos e externos à uma determinada escola ou instituição. Porém um nível de organização normalmente negligenciado pelos diretores, professores, alunos e, muitas vezes, até pela academia é a organização dos espaços e como estes influenciam o aprendizado e a conduta daqueles que os frequentam.

Há, em geral, duas maneiras de se pensar o espaço, do ponto de vista dos frequentadores, quando um arquiteto planeja uma construção. O arquiteto pode privilegiar a circulação ou a permanência dos indivíduos neste espaço. Essas duas maneiras de pensar influenciam o pensamento urbano desde a inspiração para construir prédios em si até a modelagem de bairros ou cidades inteiras.

Não podemos esquecer também a parte estética da arquitetura. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer escreve que na arquitetura há uma constante luta entre a gravidade e a rigidez. Para o filósofo, a arquitetura se torna a bela arte quando esta luta transcende a função do prédio.

Mas o que tudo isso tem a ver com a educação? Muita coisa. Quando Michel Foucault escreveu “Vigiar e Punir”, na segunda parte do livro intitulada “Disciplina”, o autor fez um estudo sobre como o controle dos corpos é exercido e como a racionalização dos espaços contribui para isso. É essa mesma racionalização que torna similares instituições muito antigas da nossa sociedade, como hospitais manicômios, escolas e presídios. Essas instituições, em princípio, não possuiriam motivos para ter elementos espaciais que coincidissem entre si, porém a adequação de meios a fins trazidas pela racionalização da sociedade industrial teve esse efeito. O francês escreve e é metodologicamente impecável ao atestar que o controle sobre o corpo é fundamental para o sistema educacional moderno. Essa racionalização excessiva da arquitetura faz com que a teoria schopenhaueriana da estética nos prédios se torne escassa e complicada de se concretizar.

Cabe aos arquitetos (e sua habilidade e vontade políticas) romper com a racionalidade na arquitetura e fugir à racionalização para que os espaços escolares passem a ser mais inclusivos e efetivamente ajudem a construir uma educação efetiva. Uma das maneiras pelas quais podemos pensar os espaços escolares de outra maneira é mudar a modelagem das salas de aula, e mudar assim a lógica empregada nos seus espaços. O modelo tradicional de sala de aula é aquele na qual as carteiras possuem lugar específico, o quadro negro fica à frente de todos, quando muito há um armário para os alunos guardarem alguns livros, às vezes há ventiladores e, antigamente era muito comum, havia um tablado de madeira. Os alunos sempre esperam o professor chegar e começar a aula, eles geralmente estão conversando quando o professor entra em sala, leva um tempo relativamente grande para fazê-los parar e geralmente é impossível manter os alunos calmos durante todo o período da aula. Isso causa uma grande estafa nos professores e um grande sentimento de “pra que isso serve” nos alunos. Os primeiros se cansam cada vez de seus empregos e os segundos se questionam cada vez mais da razão de serem obrigados a estarem ali.

A própria agitação dos alunos nos faz questionar se ficar 5 horas sentados em uma cadeira aprendendo sistematicamente conteúdos que eles abertamente questionam a necessidade de aprendizado é realmente a melhor maneira de educar as futuras gerações. Muitos acabam pedindo para ir ao banheiro em várias aulas seguidas, um recurso utilizado para se movimentar um pouco, dado que no ensino médio seus organismos conseguem se controlar o suficiente para não precisar ir ao banheiro a todo momento. Algumas pedagogias alternativas se preocupam com a articulação e intercalar conteúdos mais físicos com os mais intelectuais, assim os alunos poderiam ter uma aprendizagem mais significativa. Como exemplo temos a pedagogia Waldorf, que mostra essa preocupação com a ordem dos conteúdos, coisa que não é nem questionada na educação tradicional ou pública. Fato evidenciado pela presença de “dobradinhas” (duas aulas seguidas da mesma matéria) nos horários de aulas. É claro que duas aulas seguidas do mesmo conteúdo podem ser vantajosas, uma vez que uma aula de 50 minutos não é muitas vezes o necessário para abordar um assunto com profundidade, mas mesmo assim essas duas aulas estão dentro de um período de 5 horas, o que torna a sua presença ali no mínimo questionável.

Há outra maneira, além da própria organização dos conteúdos, de pensar a agitação dos alunos. Uma maneira que tem a ver com os espaços, essa maneira é organizar as salas de aula em salas temáticas por área. Normalmente cada série e cada turma tem sua sala, as salas por sua vez são ordenadas em anos, geralmente de maneira progressiva. As salas temáticas mudam essa lógica, agora cada matéria tem sua sala e os alunos se deslocam entre as diferentes salas para terem aula. Assim temos uma (ou mais) sala(s) de matemática, uma de português, biologia, história e assim por diante. A Universidade Federal de Roraima já organizou um projeto de transformação das salas do seu Colégio de Aplicação (Cap) no qual a Universidade justifica a adoção das salas ambientes (como a Universidade as chama) como uma maneira de fazer com que as disciplinas possam usufruir de ambientes apropriados ao seu próprio ensino.

Há outra preocupação também com o corpo do professor. Um professor de Sociologia que dá todas as aulas da semana em um período possui 15 turmas e 30 aulas pra dar. Supondo que ele tenha 5 turmas de primeiro ano, 5 de segundo e 5 de terceiro, ele vai escrever exaustivamente, em 30 aulas, três conjuntos de 2 aulas para cada ano. Isso é muita repetição, e acaba por desgastar o corpo do professor, ainda mais que ele fará isso por aproximadamente 30 anos. Quando há uma sala ambiente para esse professor dar a sua aula, se o horário for pensado para que ele não tenha mudar o que está escrito na lousa de uma aula a outra, preserva-se assim, pelo menos um pouco, o físico deste indivíduo. Ao se organizar a escola em salas temáticas, também se otimiza a utilização dos materiais didáticos disponíveis, cada sala não precisa ter um compasso ou um transferidor de lousa para o uso na aula de matemática se há uma sala ou laboratório próprio para o uso desses instrumentos. Se as salas possuírem armários, os próprios materiais didáticos podem ser guardados nela, evitando que os alunos tenham que carregá-los todos os dias.

È dada certa autonomia para os professores organizarem as suas salas da maneira estética que bem intenderem e também para melhor utilizarem os recursos à mão. Uma sala ambiente de história possuiria recursos de imagem (um projetor se o orçamento permitisse), talvez algumas cópias de documentos históricos, alguns objetos de cultura material de povos para melhor compreensão por parte dos alunos, um gravador de voz que permitisse o registro de depoimentos para o estudo da história oral também seria interessante1. No site do CAp da UFRR é possível fazer o download do projeto de implantação das salas ambientes2. A sala de filosofia ficou junto com a sala de sociologia, devido em parte à falta de espaço útil no CAp e à proximidade dessas duas disciplinas. Matemática ficou com duas salas (uma delas é um laboratório) e português também ficou com duas salas.

Há também uma universidade no Brasil que adotou o projeto de salas temáticas no nível superior. A Univates, situada na cidade de Lajeado, no Rio Grande do Sul conta com salas temáticas de “…Logística (202); Sala de Relações Internacionais (206); Sala de Contabilidade (306); Sala de Finanças (402) – serão utilizados por algumas disciplinas dos cursos do Centro de Gestão Organizacional (CGO)”. AS salas foram implementadas para que os alunos se inserissem desde o começo do curso em seus futuros ambientes de trabalho. A notícia do site descreve as salas adotadas:

A Sala de Logística conta com espaço para 40 alunos. A decoração é composta por quadros retratando as atividades logísticas; miniaturas de veículos utilizados para transporte, como caminhões, trem, empilhadeira, furgão; pallets; mapa do Rio Grande do Sul com a estrutura logística de transportes; mesa com planta de uma indústria para dinâmicas de ensino; quadro imantado para dinâmicas de ensino, entre outros itens.

Decorada com um mapa mundi e com um quadro com ímãs que podem ser utilizados para caracterizar os países em estudo, a Sala de Relações Internacionais possui capacidade para 30 alunos. No semestre 2013/A, o ambiente está sendo ocupado todas as noites com o oferecimento de disciplinas do curso de Relações Internacionais e Comércio Exterior.

Já a Sala Temática de Contabilidade possui sete conjuntos de mesas de trabalho, acomodando quatro alunos em cada conjunto. Para cada aluno há um notebook com softwares necessários para simular o ambiente de uma empresa de serviços contábeis, além de bancada para reuniões ou desenvolvimento de trabalhos, armários e expositores de materiais sobre escrituração, equipamentos antigos e outros materiais.

A Sala de Finanças conta com expositor para moedas e cédulas de dinheiro, bancada com notebook, televisor LCD, podendo ser utilizada em simulações de compra e venda de ações; operações simuladas no mercado futuro; demonstrativo em tempo real da movimentação da Bolsa de Valores; quadro imantado para uso em dinâmicas de sala de aula; equipamento de som; imagens nas paredes que ajudam a inserir o aluno na temática “finanças” e uma antiga caixa registradora.”3

Procurei fazer este texto para mostrar que não só discussões teóricas e de conteúdo são suficiente para se pensar a melhoria do ambiente escolar, mas também uma reestruturação física de seus espaços pode melhorar a sua situação atual. Espero que essa discussão ajude em sua escola.

Bilbiografia:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1984.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo, SP: Ed. Brasil, 1941

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  1. Paulo

    Olá. A abordagem do texto está interessante. Gostaria apenas de indicar uma referência, caso queira ampliar essa publicação ou dar continuidade a seus estudos particulares.

    BENCOSTTA, Marcus Levy Albino (org.). História da educação, arquitetura e espaço escolar. São Paulo, SP: Cortez, 2005.

    grande abraço




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