Reflexões sobre os dilemas da relação entre a diversidade social e a educação

Escrevi este ensaio como trabalho final da disciplina Ciências Sociais na Educação, cursada com a Professora Helena Sampaio da Faculdade de Educação da Unicamp, em 2012. Busquei elencar as diversas contribuições da disciplina e, portanto, de diversos autores no campo das Ciências Sociais para a reflexão sobre os temas cultura, diversidade social, educação e suas inter-relações.

Primeiramente, parte-se de que a “educação” é um processo complexo e que para ser compreendido, interpretado, experimentado, e/ou praticado, deve ser “desconstruído” de modo a se vê-la como um processo histórico, construído e permeado por questões relativas à cultura, além de aspectos políticos e sócio-econômicos. Além disto, a própria cultura também é influenciada pelo momento histórico em suas características econômicas e políticas.

De modo que para se pensar na relação “educador” – “alunos”, uma série de problematizações a respeito das relações sociais em geral devem ser levadas em conta.

Primeiramente o fato de que a partir do momento que se constata que há diferentes “culturas”, é necessário compreender que o olhar do indivíduo é lançado sobre os demais a partir do ponto de vista de sua “cultura”. E este olhar pode ocorrer a partir de diferentes perspectivas. Na perspectiva humanista de Claude Lévi-Strauss a “originalidade de cada uma delas [cultura] reside antes na maneira particular como resolvem seus problemas e perspectivam valores que são aproximadamente os mesmos para todos os homens, porque todos, sem exceção, possuem uma linguagem, técnicas, arte, conhecimentos de tipo científico, crenças religiosas, etc.”

Além disso, segundo este autor, as culturas em si já seriam uma mistura de culturas, e quando se olha a cultura não se pode vê-la fragmentada, pois que as “culturas” digerem diversas outras “culturas” e a devolvem a sua maneira, num processo histórico complexo.

Mas de outro lado, nos processos sociais, se construíram as culturas como diferentes práticas e olhares coletivamente assumidos. Quanto às práticas, Marcel Mauss elencou como as práticas corporais de todos os tipos podem ser tão diversas e díspares em diferentes países e grupos, de modo a corroborar que a espécie humana tem, naquilo de mais biológico que a constitui, seu corpo, a potencialidade de fazer dele e resolver suas necessidades de formas culturalmente diferentes. Representando sua cultura no próprio corpo, e de forma coletiva.

Quanto às diferentes formas coletivas de ver a si e aos outros, diferentes culturas podem ver o “outro” em suas características negativas ou positivas, podem reduzi-lo a apenas um de seus aspectos ou podem buscar vê-lo em sua complexidade. Em síntese, a relação entre culturas pode ser polarizada, resultando em formas etnocêntricas, ou pode buscar se pautar por um relativismo cultural. Indivíduos, grupos, etnias, nações e até mesmo continentes, podem se relacionar com o “outro” ou os “outros” em relações de oposição e distanciamento ou de justaposição e aproximação. E estas relações serão permeadas ou atravessadas justamente pelas demais relações sociais em cada “sociedade”, como as relações de poder. E como apresenta Pierre Clastres, mesmo as sociedades ditas “primitivas” e “isoladas”, sociedades sem estado, onde as relações de poder não se baseiam na coerção, nem por isto deixam de apresentar-se como complexas, apresentando conflitos e tensões decorrentes de suas próprias formas culturais de dar respostas as suas necessidades, como a divisão social do trabalho por gênero.

Historicamente, as sociedades ditas “modernas” têm experimentado relações culturais de oposição, seja entre o “ocidente” e o “oriente”, entre os “civilizados” e os “selvagens”, entre “raças” construídas, entre países desenvolvidos e países periféricos, entre blocos de nações poderosas e outros blocos submetidos, seja pela colonização, seja pela exploração de seus recursos, entre classes sociais, e entre grupos: homens e mulheres, heterossexuais e homo sexuais, católicos e judeus ou muçulmanos e vice-versa, brancos e negros, homem branco e o índio, entre tantas outras, inclusive educadores e educandos. Por outro lado, na contemporaneidade o debate sobre estas questões tem ganhado novas tendências em torno de temas como a “globalização”, o “multiculturalismo”, o “direito a diferença”, o “interculturalismo”, mas que também reascendem discussões anteriores sobre o “nacionalismo”, o “universalismo”, o “pluralismo”, o “racialismo”, etc. Todas estas questões muito complexas e que até a atualidade ainda dividem opiniões tanto na “sociedade civil” quanto na “comunidade acadêmica”.

Se é verdade que conhecer o “outro” pode ser uma das formas de conhecer a sua própria “cultura’, com o trabalho de Ruth Benedict pode-se ver como este conhecimento pode ser utilizado também para lidar com o “outro” de modo a tirar vantagem da capacidade de previsão sobre como este “outro” age. Este conhecimento em si não é ruim e pode ser importante para evitar conflitos desnecessários a partir da compreensão de formas de agir e pensar distintas. Mas esta vantagem também pode ser instrumentalizada inclusive contra o “outro”, seja na guerra, seja nas relações de poder, inclusive nas relações entre professores e alunos. Como mostra Pierre Bourdieu, na sociedade “industrial”, a convivência entre indivíduos ou famílias de países e religiões diferentes, entre os residentes de origem e imigrantes, ainda que supostamente pertencentes a uma mesma classe social, é repleta de preconceitos, de formas de “estranhamento” e sentimentos de insegurança ou ameaça em relação ao “outro”. De certa forma relacionado ao que Norbert Elias também observou nas relações sociais de uma cidade em processo de industrialização, chamada Winston Parva. Seu estudo aprofundou na compreensão da lógica de conformação social e das relações de interdependência que se formaram na cidade. Das três zonas da cidade, em duas delas, apesar de aparente semelhança entre seus moradores – sendo em ambos os casos trabalhadores das indústrias -, se observava o seguinte: os moradores da zona mais antiga, ou seja, que ali moravam e trabalhavam há mais tempo e tinham relações de convivência, vizinhança e familiares comuns construídas com o tempo, se sentiam superiores e melhores que os moradores do novo bairro, formado por trabalhadores sem origem, convivência e condutas comuns aos mais antigos e mesmo entre eles. Ao mesmo tempo, os trabalhadores mais antigos, que se consideravam os melhores, mantinham coesão não somente entre eles próprios, mas também com os moradores da região mais abastada da cidade e junto a estes estigmatizavam e excluíam os moradores do novo loteamento. Daí que Elias irá falar em “estabelecidos” e “outsiders”. E o mais complexo é que, não só os estabelecidos criaram o estigma sobre os outsiders e criaram fronteiras que impediam ter com eles qualquer tipo de relação, como os próprios outsiders passaram a assumir o estigma de modo que se auto-depreciavam e depreciavam-se mutuamente, o que dificultava ainda mais a possibilidade de criar laços entre eles próprios. De modo que, de um lado e de outro, se reafirmavam as diferenças culturais e do próprio valor de cada cultura entre “os melhores” e “os piores”. Chegando-se a refletir no próprio comportamento dos jovens, que apresentavam maior relação com a criminalidade entre os outsiders. De modo que “os piores” pioravam ainda mais inseridos nesta lógica.

Esta mesma lógica é vista atualmente como presente de alguma forma em muitos países, e entre suas diferentes regiões, cidades e mesmo entre bairros urbanos, e aparecem na forma da “exclusão social”, da polarização entre centros e periferias, dos preconceitos, das fobias, das intolerâncias de todos os tipos. Na busca por solucionar estes problemas, muito se discute em termos de como neutralizar estas diferenças e conflitos, seja na forma da construção de práticas interculturais, seja na forma de reparação dos “excluídos” e das várias minorias. Movimentos e redes sociais neste campo se engajam na afirmação de seus direitos a serem “diferentes” e ao mesmo tempo a terem o mesmo tratamento que os demais. Neste debate, há os que defendem a diferenciação positiva e aqueles como Antonio Pierucci que levantam o problema deste retorno à idéia de “diferença”, ainda que pela afirmação positiva, que sempre foi um argumento utilizado justamente para afirmações negativas e para a segregação, o preconceito, o racismo, a separação entre superiores e inferiores, melhores e piores. De modo que é importante que neste debate, que muito tem de implicações nas relações escolares entre estudantes e entre educadores e aqueles se tenha em conta que não se pode fechar os olhos ao “outro”, ao “diferente”, mas que também se deve estar atento as “ciladas” que podem se originar desta tentativa de reafirmar as diferenças sem ao mesmo tempo buscar a inter-relação dos grupos através daquilo que tenham em comum e que os podem aproximar e permitir intercâmbios mutuamente positivos.

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  1. Paulo

    Olá. Tentando estimular uma discussão, gostaria de fazer um breve comentário. Existem mesmo várias ambiguidades nesse debate sobre a semelhança e a diferença. Um dos aspectos disso na teoria social é que houve um certo evolucionismo que deu sim a condição humana a todos, mas veja só, uns sendo mais humanos do que outros no sentido evolutivo. Como se afirmassem o seguinte: somos todos diferentemente humanos. Ou seja, disso poderia-se concluir que é sempre possível negar uma cota de humanidade no outro. Já uma certa teoria social culturalista afirmaria a diferença ser de outra ordem: somos igualmente humanos, mas culturalmente diferentes. Também um certo estruturalismo permitiria dizer ainda outra coisa: podemos ser culturalmente diferentes, mas somos estruturalmente semelhantes ao nível do intelecto e do pensamento.

    Veja bem, poderíamos entender esses movimentos teóricos como diferentes formas de pensar a semelhança e a diferença. O que não podemos deixar de ter em mente é exatamente a preocupação política com as quais essas e outras teorias tentaram lidar: a dominação dos ditos “primitivos”; a colonização; o capitalismo; o apartheid; a imigração; a guerra. Nesse sentido, ocorre um outro movimento, agora não teórico, de que passou-se a conviver com o outro (tão diferente) que antes estava distante e então estaria perto. E, mais do que isso, “nós” também passamos a pensar a alteridade nas nossas próprias relações – nós mesmos somos outros.

    Para um bom entendimento dessas ambiguidades, trata-se, ao meu ver, de pensar os usos e os lugares da semelhança/diferença em teoria social, atendo-se à imbricação da cultura e do poder. Um exemplo, é o culturalismo ter servido, por um lado, à defesa de imigrantes frente à homogeneização e opressão de estados nacionais, e, por outro lado, ter servido à ideologia de segregação do apartheid. Deste modo, a ideia de inclusão social em educação me parece dizer pouco sobre o modo como a alteridade é operada com essa categoria e esclarece pouco as ambiguidades pras quais tentei conferir destaque.
    *é importante lembrar que há um debate sobre o uso de “diferença” e “diversidade” e suas consequências políticas.
    grande abraço.




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