Inclusão social: dados estatísticos da Unicamp

A dificuldade de acesso dos negros à universidade

Esta análise de dados foi produzida por Gustavo Milaré, estudante da pós-graduação do IMECC Unicamp. Achei prudente postá-lo aqui por conta do último post que fiz em relação a questão das cotas. Esse texto foi discutido, antes de elaborado, pela Frente Pró-Cotas da Unicamp, da qual fiz parte, por isso resolvi compartilhá-lo.

Apesar de ter um programa de ação afirmativa, a segregação racial e elitização presentes na nossa universidade são gritantes. A dificuldade de acesso dos negros à nossa universidade é visível no dia a dia das salas de aula e na clara diferença racial entre estudantes e funcionários. A Unicamp orgulha-se da existência do PAAIS mas os dados socioeconômicos divulgados pela própria Comvest [1] nos mostram como este programa é ineficiente como tentativa de inclusão social.

A Comvest afirma que o vestibular da Unicamp tem “ênfase em leitura, raciocínio e expressão em lugar de conhecimento enciclopédico memorizado” e complementa que “mesmo antes do PAAIS o vestibular não modificava de forma significativa o percentual de autodeclarados pretos, pardos e indígenas ou de egressos de escola pública entre inscritos e matriculados.” [2, p. 21]. Mas esta é uma estatística geral que desconsidera as diferenças entre os cursos.  Vamos analisar esta questão mais de perto.

No vestibular de 2012, não houve nenhum matriculado dentre os que declararam ter cor ou raça preta em 25 dos 69 cursos oferecidos pela Unicamp (com exceção de Música: Regência, por indisponibilidade dos dados). Estes são os cursos:

  • Artes Visuais (Integral)
  • Ciências Biológicas (Integral)
  • Ciências Econômicas (Integral)
  • Comunicação Social – Habilitação: Midialogia (Integral)
  • Dança (Integral)
  • Enfermagem (Famerp) (Integral)
  • Engenharia Civil (Integral)
  • Engenharia de Controle e Automação (Noturno)
  • Engenharia de Produção (Integral)
  • Engenharia Elétrica (Noturno)
  • Engenharia Química (Integral)
  • Engenharia Química (Noturno)
  • Estudos Literários (Integral)
  • Farmácia (Integral)
  • Fonoaudiologia (Integral)
  • Geologia (Integral)
  • Gestão de Comércio Internacional (Noturno)
  • Gestão de Empresas (Noturno)
  • História (Integral)
  • Letras – Licenciatura (Integral)
  • Medicina (Famerp) (Integral)
  • Música: Composição (Integral)
  • Nutrição (Integral)
  • Pedagogia – Licenciatura (Noturno)
  • Química (Integral)

Entre os cursos acima estão oito dos dez mais concorridos da Unicamp. As exceções são os cursos de Medicina (Integral) e de Arquitetura e Urbanismo (Noturno), que tiveram apenas um matriculado de cor preta cada um (note-se que, em 2010 e 2011, não houve nenhum matriculado com essa característica nestes dois cursos).

Apenas para simplificar a explicação, vamos desconsiderar os 25 cursos acima listados e, dentre os cursos restantes, tomaremos apenas os cursos onde a diferença entre a porcentagem dos inscritos e dos matriculados que declararam ter cor preta seja maior ou igual a 1,5%.

 

a1

 

Se a universidade fosse composta apenas pelos 26 cursos no gráfico acima, poderíamos dizer que, no geral, a proporção de inscritos e matriculados deste grupo étnico são parecidas. Entretanto, devemos adicionar a estes cursos outros 25 cursos que têm quantidades significativas de inscritos de cor preta, mas nenhum matriculado. Com isso, a diferença entre as proporções de pretos entre inscritos e matriculados é gritante! Isso não contradiz os dados apresentados anteriormente?

Apesar de parecer contraditório, este fenômeno é bastante comum em estatística e recebe o nome de Paradoxo de Simpson [3]. Neste caso, a falsa impressão dada pela estatística geral acontece porque os cursos mais concorridos têm menos candidatos afrodescendentes. Portanto, a argumentação dada pela Comvest é simplista e falaciosa.

Quem estiver interessado, pode analisar os dados coletados na íntegra. [4]

A mesma dificuldade de acesso é encontrada entre os que se declararam pardos, entretanto de forma menos acentuada. Os três cursos em que nenhum pardo se matriculou são Ciências Econômicas (Noturno), Música: Composição (Integral) e Música: Licenciatura (Integral). Em 12 dos 14 cursos mais concorridos, a proporção de pardos entre os inscritos foi maior que entre os matriculados.

Prosseguimos da mesma forma que anteriormente, considerando apenas os cursos tais que a diferença de proporção de pardos entre os inscritos e os matriculados seja maior ou igual a 4,5%.

a2

 

 

Vemos, novamente, que a quantidade de inscritos pardos é relativamente maior que a de matriculados, apesar deste grupo compor 12,3% tanto dos inscritos quanto dos matriculados da Unicamp neste ano.

Entre os autodeclarados indígenas, a quantidade de inscritos é bem pequena. Por este motivo, apenas alguns cursos contam com a presença de membros deste grupo étnico. As análises feitas anteriormente não são possíveis neste caso. No caso dos autodeclarados amarelos, vemos o efeito totalmente oposto, o que mostra que nem todas as minorias étnicas são vítimas de opressão na nossa sociedade.

Os cursos com maiores proporções negros (pretos ou pardos) entre os matriculados são, em sua maioria, cursos noturnos ou de pouca concorrência. Este grupo étnico também têm maior receio de concorrer no vestibular. No Estado de São Paulo, segundo a estatística do IBGE de 2009 [5, p. 232], 5,8% da população declarou-se preta e 28,3%, parda. Entre os inscritos no vestibular da Unicamp de 2012, estes números caem para 3,2% e 12,3%, respectivamente. Com exceção dos cursos Pedagogia – Licenciatura (Noturno) e Licenciatura Integrada Química/Física (Noturno), todos os outros cursos tiveram porcentagem de matriculados pardos abaixo da porcentagem de pardos na população.

Vemos, assim, que o acesso dos negros às vagas dos cursos de maior prestígio é bastante limitado (mesmo considerando apenas os que se inscrevem!). Os afrodescendentes evitam concorrer às vagas oferecidas pela universidade, especialmente nos cursos de maior concorrência, e os poucos que ousam fazê-lo dificilmente são aprovados. O PAAIS mostra-se ineficiente em combater esta dura realidade.

Os efeitos do PAAIS

Ao ser implementado no vestibular de 2005, o PAAIS fez com que houvesse um grande aumento na procura à Unicamp por parte dos autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI) entre os inscritos, efeito que diminuiu com o tempo [8]. Houve também um salto na quantidade de matrículas de membros deste grupo: os PPI eram 11,8% dos matriculados em 2004, 16% em 2005 e 15,6% em 2012. Entretanto, comparando os dados de 2004 e 2012 nos cursos oferecidos nos dois anos, percebemos que este aumento da participação dos grupos étnicos excluídos concentrou-se nos cursos de menor concorrência, como mostra a tabela a seguir.

 

Variação da porcentagem de matriculados PPI entre 2004 e 2012

Número de cursos

Média de candidatos por vaga em 2012

Menos de -5%

7

17,9

-5% a menos de 0%

5

20,3

0% a menos de 5%

13

28,8

5% a menos de 10%

10

14,2

10% a menos de 15%

7

13,2

15% ou mais

4

4,4

 

Os cinco cursos em que esta variação foi maior são todos noturnos. A maior delas no curso de Licenciatura Integrada Química/Física (Noturno), em que as matrículas dos PPI aumentaram em 36,2%!

Se não bastasse estes problemas, o aumento da participação dos alunos egressos de escola pública na universidade foi praticamente nulo: estes eram, em média, 29,9% dos matriculados de 2001 a 2004 e 32,0% de 2005 a 2012 (um aumento de 2,1%). Assim, é impossível que o aumento da participação de PPI entre matriculados de 11,8% em 2004 para 16,0% em 2005 (aumento de 4,2%) tenha sido por conta da bonificação. Estes dados apenas refletem o aumento na autodeclaração por parte dos pretos, pardos e indígenas.

O desempenho acadêmico

Vários estudos feitos por professores desta universidade e até pela própria Comvest [2, 6, 7] mostram que os alunos que são bonificados pelo PAAIS apresentam melhor rendimento acadêmico do que os não bonificados. Um dos critérios utilizados foi o CR (Coeficiente de Rendimento). Por ser determinado a partir da média aritmética das notas finais em cada disciplina, este critério não leva em conta o aumento de desempenho dos alunos ao longo dos cursos. Por exemplo, um aluno que, por não ter estudado numa boa escola de Ensino Médio, teve média 6 no primeiro semestre, mas aumentou progressivamente suas notas até obter média 8, terá o mesmo CR que um aluno que teve média 7 durante todos os semestres, mesmo que, claramente, o primeiro tenha melhor desempenho acadêmico geral.

Entretanto, ao longo do curso, o CR médio dos bonificados vai aumentando quando comparado ao CR médio dos não bonificados, um perfil bastante semelhante aos cotistas de outras universidades [9, 10]. Isso mostra que, apesar de não possuírem a mesma quantidade de conhecimento prévio acumulado, eles se mostram mais determinados a estudar, a progredir academicamente, e também que, mesmo considerando como critério de avaliação apenas a questão de “mérito”, o PAAIS é um programa fraco, um simples protótipo de um programa de ação afirmativa e de inclusão social.

Estes dados indicam que é possível criar um programa de cotas para a nossa universidade sem prejudicar a qualidade dos cursos. É claro que, para isso, são necessárias medidas para auxiliar o aprendizado dos alunos, como aumentar as horas de atendimento extra-classe, de aulas de exercícios e garantir a disponibilidade de livros didáticos. Além disso, é essencial a ampliação dos programas de assistência estudantil. Este é um compromisso que a Unicamp deve firmar com a sociedade, em especial os indígenas, os negros e os estudantes egressos de escola pública.

Acesso à educação segundo raça e renda

Costuma-se afirmar que um programa de cotas sociais podem substituir um programa de cotas raciais e sociais. Entretanto, uma pesquisa feita na Unicamp sobre acesso à educação revela que a desigualdade racial existente no Brasil não se trata meramente de desigualdade social, mas existe mesmo quando se compara indígenas, negros, amarelos e brancos de uma mesma faixa de renda, desigualdade que existe em todas as faixas de renda, mas é mais acentuada nas faixas de menor renda, conforme mostra a tabela a seguir. [11]

a3

 

 

[1] http://www.comvest.unicamp.br/estatisticas/perfil/perfil.html

[2] http://www.comvest.unicamp.br/paais/artigo1.pdf

[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Simpson_Paradox

[4] http://www.dropbox.com/sh/ummntsdy3yjdu3y/DocGPQjDnx/Coletivo/Dados%20socioecon%C3%B4micos%20Unicamp

[5] http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2010/SIS_2010.pdf

[6] http://www.comvest.unicamp.br/vest2004/desempenho_publica.pdf

[7] http://www.comvest.unicamp.br/paais/artigo2.pdf

[8] http://www.comvest.unicamp.br/paais/numeros.html

[9] http://cotasunicamp.wordpress.com/2012/08/01/pesquisas-mostram-desempenho-similar-ou-melhor-de-cotistas/

[10] http://www.scielo.br/pdf/cp/v39n137/v39n137a14.pdf

[11] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742007000200009

 

Caue Pastrello RA: 093569

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  1. Paulo

    Caue, o texto é muito bom. Quero chamar atenção para um ponto relativo à pedagogia dessa universidade sobre seus estudantes de graduação.

    Sobre o “desempenho acadêmico”, outros índices absurdos são importantes de serem lembrados: Coeficiente de Progressão, Coeficiente de Progressão Futuro, Classificação do aluno em sua Turma, Coeficiente de Progressão Exigido, Coeficiente de Rendimento Padronizado.

    Todos funcionam não simplesmente para monitoramento da instituição sobre seus alunos, mas para o próprio monitoramento do aluno sobre seu desempenho que pode ser acompanhado por ele durante toda a sua graduação, suas notas, cancelamentos de matrículas, etc. Como se sabe, há uma ênfase da responsabilidade que pesa sobre o indivíduo e seu aperfeiçoamento.

    A noção de “desempenho” destaca ainda uma medida comum, homogeneizante e a-histórica. O cálculo sobre os coeficientes diz respeito à crença de uma medida comum a todos os alunos, um tipo de média de suas competências, o que cria a figura virtual do “aluno médio” com o qual a instituição trabalha como o aluno modelo, que é submetido ao ensino e o qual a universidade também quer formar. Percebe? Para que se possa medir a todos, existe não apenas a medida mas também uma estrutura (aluno) mensurável em todo o corpo discente.

    Absurdamente, os coeficientes são transformados em uma medida/hierarquização de “inteligências”. E sabemos que esses coeficientes e índices são utilizados para acesso a outras vagas internas à universidade, tais como as de intercâmbio, mas também fora desta. Nesse sentido, não é menos importante relacionar os “desempenhos” e as trajetórias desses alunos quando saem da universidade, incluindo a inserção no mercado de trabalho.

    Ou seja, outros aspectos devem somar ao “acesso”, como a “permanência” e as “trajetórias”. Penso que os estudos não seriam mais animadores.
    grande abraço




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