Arquivo para dezembro 3rd, 2013

O uso de novas tecnologias no contexto escolar

            O presente texto visa abordar a relação entre tecnologia e educação dentro do contexto escolar. A revolução científico-tecnológica repercute com intensidade, principalmente em se tratando de tecnologia da informação e da comunicação, na estrutura escolar e no trabalho docente. Acredita-se com isso que a relação ensino-aprendizagem angaria um potencial de desenvolvimento nunca visto antes, qualificando a educação dos alunos e facilitando a prática docente de ensino. Contudo, essa expectativa cria uma relação associativa entre qualidade de ensino e o uso de recursos tecnológicos, que nem sempre são coadunados e condizentes com a aprendizagem eficiente dos alunos e um trabalho docente eficaz.

É preciso questionar essa associação abordando quais são os pressupostos implícitos que envolvem o uso da tecnologia na educação. A pretensa atratividade oferecida pelos novos recursos tecnológicos na sala de aula por vezes mascara a necessidade de criatividade, conhecimento e capacitação para aproveitar com maior eficiência esses instrumentais. A utilização desses novos meios tecnológicos impacta na formação de professores, que precisam ser formados não somente a manusear eficientemente esses recursos, mas a observar criticamente essas tecnologias e o seu uso apropriado. Ademais, a interação entre domínio do uso de tecnologia e conhecimento prévio dos alunos precisa ser analisada para além da “navegação” de redes sociais, que corresponde ao um tipo de acesso à internet intimamente relacionado ao público jovem.

A introdução de novas tecnologias na escola pressupõe uma concepção de melhoria e qualidade de ensino. O professor, visto socialmente como principal responsável pelo ensino dos alunos, é impelido a ser adequar a esses novos instrumentos de prática educacional que supostamente permitem uma maior eficiência em seu campo de trabalho. A repercussão da revolução tecnológica na vida social demanda do docente uma exigência de flexibilidade e prontidão para atualização constante de novos conhecimentos surgidos na sua arena profissional. Essa pressão também afeta os alunos, tendo em vista que serão futuros trabalhadores que deverão estar conectados com os novos saberes demandados pelo mercado de trabalho.

Essa visão é atrelada ao padrão globalizante de trabalho que repercute na área educacional, em especial a formação docente, como Kramer & Moreira (2007) observam:

Na educação, o comportamento flexível é tanto demandado dos professores quando difundido, como habilidade a ser adquirida, aos estudantes, futuros trabalhadores. Estimula-se o professor, por diferentes meios, a adaptar-se a circunstâncias variáveis, a produzir em situações mutáveis, a substituir procedimentos costumeiros (às vezes repetitivos, às vezes bem-sucedidos) por “novas” e sempre “fecundas” formas de promover o trabalho docente. Deseja-se um professor disposto a correr riscos e a investir em sua atualização. Subjacente a todos esses princípios e comportamentos, que visam reinventar a escola, tendo por norte padrões globalmente definidos, está a preocupação com o sucesso, com a eficiência, com a eficácia, com a produtividade, com a competitividade, com a qualidade na educação (entendida segundo os parâmetros vigentes). (p. 1041)

Além dessa necessidade de atualização tecnológica gerar toda uma rede de negócios em torno de cursos de capacitação profissional pelo mercado, considerando que o Estado não oferece essa formação de maneira eficaz, esse quadro transforma a escola em um modelo de empresa cuja produtividade significa qualidade de ensino. O uso de tecnologias na escola, ao invés de facilitar o trabalho do professor em suas atividades na sala de aula, pode resultar em apreensão de um conhecimento precário e utilitário, sem ligação com uma prática didática crítica, voltado para um padrão de produtividade no qual a aprendizagem do aluno é vista como componente de um processo produtivo.

Há que se questionar de igual forma essa concepção de qualidade subjacente ao modelo do uso de recursos tecnológicos na escola. Noção de qualidade quando implícita no modelo de aprendizagem dos alunos em ritmo de produtividade empresarial está vinculada a pressupostos técnicos. As premissas técnicas se constatam no momento de avaliar resultados de exames nacionais, o emprego de tecnologias avançadas e o domínio sobre conhecimentos, habilidades e competências relacionados a atividades funcionais do mundo do trabalho de empresas corporativas. Quando esses resultados são positivos, confirma-se a tese de que a aplicação técnica foi satisfatória e com isso alcançou-se um determinado padrão de qualidade.

Embora o conceito de qualidade seja polissêmico e contextualizado historicamente, uma noção que escapa a concepção produtivista e utilitária refere-se ao desenvolvimento dos indivíduos em uma significação abrangente. Tendo em vista essa perspectiva, o uso de tecnologias pelo professor no contexto escolar deve promover o desenvolvimento intelectual, cultural e humano dos alunos. Intelectual em um sentido de domínio de saberes relacionado a práticas comunicativas e informacionais, criando visões e critérios críticos sobre o uso desses recursos tecnológicos e seu aproveitamento na articulação com as disciplinas de conhecimento científico. Cultural quando trata de observar novas linguagens de inter-relação e práticas sociais diversas, inseridas e presentes no mundo virtual da internet, atualmente um dos principais meios de relacionamento e comunicação entre os jovens. E, por fim, desenvolvimento humano na perspectiva de criar experiências de significados de compreensão múltiplos com outros indivíduos, partilhando uma rede de relações internacionais, nacionais, locais e comunitárias que permite observar diversos modos de vida.

Essa concepção de qualidade ligada à prática docente somente poderá ter um efeito concreto se estiver vinculada a uma melhor estrutura escolar e a uma ordem social menos desigual:

Uma concepção renovada de qualidade inclui a crença tanto em uma escola reformulada e ampliada, quanto em uma ordem social menos desigual e excludente. O grande desafio para escolas e universidades é oferecer aos professores a oportunidade de explorar o conhecimento tal como eles explorariam uma montanha, uma floresta ou um mar. Somente assim desenvolverão o poder de criar conhecimentos e idéias relevantes para enfrentar as necessidades e os problemas dos indivíduos de nosso tempo ( Kramer & Moreira 2007 apud Avalos, 1992, p. 1046).

Não se tratou dentro desse texto de fazer uma crítica generalizada ao uso dos novos recursos tecnológicos na escola. A utilização capacitada, criteriosa e crítica das novas tecnologias de informação e comunicação, explorando o seu potencial de ensino pelo professor na sala de aula, pode ser satisfatória e adequada com vistas a melhores resultados da relação ensino-aprendizagem. Se a utilização de instrumentais tecnológicos não for estritamente vinculada a uma concepção produtivista de ensino, o docente no exercício de sua prática profissional pode desenvolver novos métodos eficientes de ensino, aproveitando-se também do conhecimento prévio dos alunos sobre esses novos aparatos tecnológicos.

Para além da preparação do individuo para o mercado de trabalho, propôs-se uma concepção de qualidade que aborda o desenvolvimento humano, cultural e intelectual dos estudantes. Esse desenvolvimento precisa estar acompanhado de uma reforma da estrutura escolar e a diminuição drástica das desigualdades sociais presentes na sociedade contemporânea. Aproveitar os recursos tecnológicos disponíveis hoje significa dotar a escola de uma melhor estrutura tecnológica, de oferecer maiores oportunidades de ensino informacional e capacitar adequadamente os professores para o uso crítico desses recursos. Além disso, os produtos do avanço tecnológico têm que ser visto como bens pertencentes ao conjunto da sociedade, e não restrito a mercadorias do sistema capitalista, beneficiando os seus cidadãos em suas práticas e necessidades cotidianas.

 

Autor: Eduardo de Souza de Oliveira

R.A: 102051

 

Bibliografia

MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa; KRAMER, Sonia. Contemporaneidade, educação e tecnologia. Educ. Soc.,  Campinas ,  v. 28, n. 100, out.  2007 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302007000300019&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  03  dez.  2013.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302007000300019.

“Juventude e Escola na Contemporaneidade”

“Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados.

O que elas amam são os pássaros em vôo.
Existem para dar aos pássaros coragem para voar.
Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros.
O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.”

Rubem Alves – 2004

A Educação, a Escola e a Cultura:

 Carlos Rodrigues Brandão em seu texto “O que é educação”, tenta responder sobre a função deste fato social. Para o autor “ninguém escapa a educação”(Brandão,1988).

A educação é a forma de passar as questões sociais e boa parte do conhecimento produzido pelos seres humanos, para as próximas gerações. E é dentro da escola que podemos encontrar um recinto onde se trabalha a ideia de educação. Podemos considera-la como um espaço físico e sociocultural(Dayrell, 1996). Ao longo dos anos esse espaço veio sofrendo várias metamorfoses. Como qualquer instituição sócio-cultural, ela não escapa das questões relacionadas cultura predominante em seu tempo.

Para o autor Pedro Paulo Funari ( Funari,2005), nós podemos considerar existentes dentro da escola, dois tipos de cultura, a material e a imaterial. Ambas formadas pelas práticas pedagógicas e a estrutura arquitetônica. Obras como  os prédios, são construídos  de forma Panóptica, as carteiras, a forma de agir, os uniformes, os professores, as aulas, os pátios cheios, as interações entre sujeitos. Todas essas características formam o que podemos chamar de uma cultura escolar.

A contemporaneidade:

“A finalidade da educação…é contestar o impacto das experiências do dia-a-dia, enfrentá-las e por fim desafiar as pressões que surgem do ambiente social. Mas será que a educação e os educadores estão à altura da tarefa? Serão eles capazes de resistir à pressão? Conseguirão evitar ser arregimentados pelas mesmas pressões que deveriam confrontar?” (Bauman, 2007.)

Segundo o autor polonês, a contemporaneidade possui uma característica diferente de seu passado, Bauman classifica esses dois períodos(passado e presente) como sólido e liquido.  Os líquidos mudam sua forma muito mais rápido do que os sólidos. Dessa maneira o atuor descreve nosso tempo, como um período de muitas mudanças, algumas um pouco mais duradouras, outras menos. No passado sólido, havia a necessidade de se categorizar, se regrar os grupos sociais. O que no presente é tarefa árdua, por se tratar de uma pós-modernidade fluída.( Bauman, 2001).

A invenção e a modernização dos meios de comunicação, principalmente no pós-guerra,  contribuiu para o fenômenos da globalização, facilitando o contato de indivíduos de diferentes culturas e países, diminuindo significativamente as distancias e quebrando o monopólio das fronteiras geográficas na questão da separação e comunicação das culturas e povos. Todo esse processo é chamado de globalização.

Nessa nova realidade as preocupações com a economia e o Estado se afrouxam deixando espaço para o aumento da preocupação com o corpo e as próprias sensações. O sujeito na contemporaneidade é individualizado por possuir poucas certezas de seu próprio futuro. (Bauman, 1999).

Portanto para o autor, vivemos em um momento de individualização e de mudanças rápidas em situações pouco duradouras.

A juventude não escapa dessa análise, está inserida em um determinado tempo e uma determinada cultura.

Juventude a Escola e a Contemporaneidade:

 Passamos pelo menos 12 anos de nossa vida dentro de alguma escola, geralmente dentro do  período caracterizado como “juventude” ,que segundo a ONU vai dos 14 aos 29anos. Esse período é o tempo viável para que o ser humano consiga aprender regras da vida do adulto, é todo um momento de preparação para a mesma(Erikson, 1976).

Dentro da escola é o local que o jovem têm mais contato com pessoas de sua idade. Portanto existem relações sociais e uma cultura exclusiva dos mesmos. Um dos grandes problemas da escola relacionada ao jovem de hoje em dia, se configura como um atraso da instituição em relação ao pensamento do sujeitos que ela abrange. Tais sujeitos que Bauman descreve como “individualizados”, uma juventude liquida.

Como remediar tal situação? Como diminuir um pouco o atraso em uma escola sólida com membros líquidos? Ou amenizar a tensão existente entre juventude e escola?

Algumas questões podem ser levantadas para esclarecer um pouco melhor essas indagações. A inserção das  tecnologias como celulares e tablets as quais os alunos carregam para dentro da escola, dão a eles a oportunidade de comunicação externa. Não é raro encontrar alunos logados em redes-sociais ou escutando músicas com os famosos fones de ouvido. A escola sofre com um grande problema em agregar novas tecnologias ao seu método de ensino. Muitos dos professores não se interessam ou acreditam não estar aptos a aprender a usar tecnologias dentro da sala de aula. O que causa ainda mais o impacto entre a velha escola e a nova juventude. Além dessas questões. A instituição foi perdendo com o tempo a monopolização parcial das fontes de informações. Hoje com o google em 2 segundos se tem mais informações do que toda a biblioteca e professores da escola reunidos. De certo, que informação não se configura como conhecimento. São processos distintos, porém os próprios alunos não possuem essa diferenciação clara.

A juventude e a escola atravessam um conflito entre gerações, entre estruturas. Uma é construída sobre a égide de tempos antigos, a outra se adapta muito rápido as mudanças de seu tempo. A contemporaneidade cada vez mais liquida, transforma a escola em algo fora de seu tempo. Apesar das diferentes políticas de reestruturação, as tentativas de debate e resolução dos problemas que a instituição têm com a juventude.

É plausível afirmar que as condições dessa relação “escola-juventude” exige um dialogo e algumas reestruturações para que possa existir a compreensão mútua entre os mesmos.

Conversando com alunos, a escola parece ser apenas um lugar para se fazer amigos e conviver com pessoas da mesma idade. Sendo que estar matriculado em alguma instituição é fator obrigatório na LDB. Muitos deles se sentem presos, em um local que diferente do mundo liquido em que vivem, sofre poucas alterações. Quando se pensa em escola, é a mesma imagem que se projeta sempre na cabeça das pessoas. A relação entre a juventude e a escola é causada por essa tensão entre velho e novo que se amplia diariamente conforme as mudanças vão acontecendo e a instituição vai se mantendo em mudanças mais lentas.

Conclusão:

A relação entre Escola, Juventude e Contemporaneidade segue portanto um caminho de tensão constante, entre a instituição, que por vezes possui a estrutura e a tradição de um tempo anacrônico ao que vive, os jovens alunos que perambulam por suas dependências.

Dentro de um período de mudanças rápidas e pouco duradouras. Enquanto os alunos realizam 5 atividades ao mesmo tempo na frente do computador, a escola ainda trabalha com lousa e giz. Enquanto o sujeito está cada dia mais individualizado, mergulhado em suas próprias emoções e percepções. A escola ainda leciona o conhecimento para salas de 30 alunos. A tensão não é marcada apenas pelo liquido e sólido. Ela sempre existiu, nem sempre a escola obteve total controle sobre a juventude. Porém, na contemporaneidade essa situação se agrava cada vez mais.
A escola é extremamente necessária para exercer a função de educar os indivíduos. Cabe aos governos e ao núcleo pensante das instituições educacionais, traçar estratégias e projetos para ao menos conter a continuidade e o aumento desse conflito entre juventude e escola.

Referências:

ALVES, Rubem. Gaiola ou Asas: A arte do voo ou a busca da alegria de aprender. Porto: Edições Asa, 2004

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Trad. De Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2001

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação? Educações: aprender com o índio, in  O que é Educação? SP: Ed. Brasiliense, 1988.

DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sócio-cultural. In: DAYRELL, Juarez (org.) Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1996.

ERIKSON, E. H. Identidade, Juventude e Crise. Rio de Janeiro: Zahar editores,1976.

FUNARI, Pedro Paulo e ZARANKIN, Andrés. Cultura Material Escolar: o papel da arquitetura. Pro-Posições – Revista Quadrimestral da  Faculdade de Educação – Unicamp – Campinas, SP. v.16, n.1 (46).jan./abr.2005

 

 

Joel Paviotti 093926 – Nonturno