O uso de novas tecnologias no contexto escolar

O uso de novas tecnologias no contexto escolar

            O presente texto visa abordar a relação entre tecnologia e educação dentro do contexto escolar. A revolução científico-tecnológica repercute com intensidade, principalmente em se tratando de tecnologia da informação e da comunicação, na estrutura escolar e no trabalho docente. Acredita-se com isso que a relação ensino-aprendizagem angaria um potencial de desenvolvimento nunca visto antes, qualificando a educação dos alunos e facilitando a prática docente de ensino. Contudo, essa expectativa cria uma relação associativa entre qualidade de ensino e o uso de recursos tecnológicos, que nem sempre são coadunados e condizentes com a aprendizagem eficiente dos alunos e um trabalho docente eficaz.

É preciso questionar essa associação abordando quais são os pressupostos implícitos que envolvem o uso da tecnologia na educação. A pretensa atratividade oferecida pelos novos recursos tecnológicos na sala de aula por vezes mascara a necessidade de criatividade, conhecimento e capacitação para aproveitar com maior eficiência esses instrumentais. A utilização desses novos meios tecnológicos impacta na formação de professores, que precisam ser formados não somente a manusear eficientemente esses recursos, mas a observar criticamente essas tecnologias e o seu uso apropriado. Ademais, a interação entre domínio do uso de tecnologia e conhecimento prévio dos alunos precisa ser analisada para além da “navegação” de redes sociais, que corresponde ao um tipo de acesso à internet intimamente relacionado ao público jovem.

A introdução de novas tecnologias na escola pressupõe uma concepção de melhoria e qualidade de ensino. O professor, visto socialmente como principal responsável pelo ensino dos alunos, é impelido a ser adequar a esses novos instrumentos de prática educacional que supostamente permitem uma maior eficiência em seu campo de trabalho. A repercussão da revolução tecnológica na vida social demanda do docente uma exigência de flexibilidade e prontidão para atualização constante de novos conhecimentos surgidos na sua arena profissional. Essa pressão também afeta os alunos, tendo em vista que serão futuros trabalhadores que deverão estar conectados com os novos saberes demandados pelo mercado de trabalho.

Essa visão é atrelada ao padrão globalizante de trabalho que repercute na área educacional, em especial a formação docente, como Kramer & Moreira (2007) observam:

Na educação, o comportamento flexível é tanto demandado dos professores quando difundido, como habilidade a ser adquirida, aos estudantes, futuros trabalhadores. Estimula-se o professor, por diferentes meios, a adaptar-se a circunstâncias variáveis, a produzir em situações mutáveis, a substituir procedimentos costumeiros (às vezes repetitivos, às vezes bem-sucedidos) por “novas” e sempre “fecundas” formas de promover o trabalho docente. Deseja-se um professor disposto a correr riscos e a investir em sua atualização. Subjacente a todos esses princípios e comportamentos, que visam reinventar a escola, tendo por norte padrões globalmente definidos, está a preocupação com o sucesso, com a eficiência, com a eficácia, com a produtividade, com a competitividade, com a qualidade na educação (entendida segundo os parâmetros vigentes). (p. 1041)

Além dessa necessidade de atualização tecnológica gerar toda uma rede de negócios em torno de cursos de capacitação profissional pelo mercado, considerando que o Estado não oferece essa formação de maneira eficaz, esse quadro transforma a escola em um modelo de empresa cuja produtividade significa qualidade de ensino. O uso de tecnologias na escola, ao invés de facilitar o trabalho do professor em suas atividades na sala de aula, pode resultar em apreensão de um conhecimento precário e utilitário, sem ligação com uma prática didática crítica, voltado para um padrão de produtividade no qual a aprendizagem do aluno é vista como componente de um processo produtivo.

Há que se questionar de igual forma essa concepção de qualidade subjacente ao modelo do uso de recursos tecnológicos na escola. Noção de qualidade quando implícita no modelo de aprendizagem dos alunos em ritmo de produtividade empresarial está vinculada a pressupostos técnicos. As premissas técnicas se constatam no momento de avaliar resultados de exames nacionais, o emprego de tecnologias avançadas e o domínio sobre conhecimentos, habilidades e competências relacionados a atividades funcionais do mundo do trabalho de empresas corporativas. Quando esses resultados são positivos, confirma-se a tese de que a aplicação técnica foi satisfatória e com isso alcançou-se um determinado padrão de qualidade.

Embora o conceito de qualidade seja polissêmico e contextualizado historicamente, uma noção que escapa a concepção produtivista e utilitária refere-se ao desenvolvimento dos indivíduos em uma significação abrangente. Tendo em vista essa perspectiva, o uso de tecnologias pelo professor no contexto escolar deve promover o desenvolvimento intelectual, cultural e humano dos alunos. Intelectual em um sentido de domínio de saberes relacionado a práticas comunicativas e informacionais, criando visões e critérios críticos sobre o uso desses recursos tecnológicos e seu aproveitamento na articulação com as disciplinas de conhecimento científico. Cultural quando trata de observar novas linguagens de inter-relação e práticas sociais diversas, inseridas e presentes no mundo virtual da internet, atualmente um dos principais meios de relacionamento e comunicação entre os jovens. E, por fim, desenvolvimento humano na perspectiva de criar experiências de significados de compreensão múltiplos com outros indivíduos, partilhando uma rede de relações internacionais, nacionais, locais e comunitárias que permite observar diversos modos de vida.

Essa concepção de qualidade ligada à prática docente somente poderá ter um efeito concreto se estiver vinculada a uma melhor estrutura escolar e a uma ordem social menos desigual:

Uma concepção renovada de qualidade inclui a crença tanto em uma escola reformulada e ampliada, quanto em uma ordem social menos desigual e excludente. O grande desafio para escolas e universidades é oferecer aos professores a oportunidade de explorar o conhecimento tal como eles explorariam uma montanha, uma floresta ou um mar. Somente assim desenvolverão o poder de criar conhecimentos e idéias relevantes para enfrentar as necessidades e os problemas dos indivíduos de nosso tempo ( Kramer & Moreira 2007 apud Avalos, 1992, p. 1046).

Não se tratou dentro desse texto de fazer uma crítica generalizada ao uso dos novos recursos tecnológicos na escola. A utilização capacitada, criteriosa e crítica das novas tecnologias de informação e comunicação, explorando o seu potencial de ensino pelo professor na sala de aula, pode ser satisfatória e adequada com vistas a melhores resultados da relação ensino-aprendizagem. Se a utilização de instrumentais tecnológicos não for estritamente vinculada a uma concepção produtivista de ensino, o docente no exercício de sua prática profissional pode desenvolver novos métodos eficientes de ensino, aproveitando-se também do conhecimento prévio dos alunos sobre esses novos aparatos tecnológicos.

Para além da preparação do individuo para o mercado de trabalho, propôs-se uma concepção de qualidade que aborda o desenvolvimento humano, cultural e intelectual dos estudantes. Esse desenvolvimento precisa estar acompanhado de uma reforma da estrutura escolar e a diminuição drástica das desigualdades sociais presentes na sociedade contemporânea. Aproveitar os recursos tecnológicos disponíveis hoje significa dotar a escola de uma melhor estrutura tecnológica, de oferecer maiores oportunidades de ensino informacional e capacitar adequadamente os professores para o uso crítico desses recursos. Além disso, os produtos do avanço tecnológico têm que ser visto como bens pertencentes ao conjunto da sociedade, e não restrito a mercadorias do sistema capitalista, beneficiando os seus cidadãos em suas práticas e necessidades cotidianas.

 

Autor: Eduardo de Souza de Oliveira

R.A: 102051

 

Bibliografia

MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa; KRAMER, Sonia. Contemporaneidade, educação e tecnologia. Educ. Soc.,  Campinas ,  v. 28, n. 100, out.  2007 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302007000300019&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  03  dez.  2013.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302007000300019.

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