Sociologia e ensino médio: Reflexões sobre a metodologia de ensino.

Texto de Daniel de Paula Janzon – 090821

Durante a realização do estágio supervisionado no segundo semestre de 2013, questionamentos a respeito da metodologia de ensino de sociologia para o ensino médio vieram a minha cabeça.

Na escola em que realizei o estágio o professor optava por um curso essencialmente marxista. Dando os conceitos introdutórios como produção material, mais-valia, condições materiais, lucro, investimento e formação do Estado. Trabalha as revoluções do século XX com o segundo ano e termina no terceiro ano com enfoque nos movimentos sociais, neoliberalismo e imperialismo. Como o estágio dura apenas um curto período é difícil traçar a forma de trabalho integral desenvolvida pelo professor, podendo apenas me reter aos seis dias que estive acompanhando as aulas.

Além da temática estritamente marxista, a forma de trabalho era através da realização de leituras em sala e em casa, combinadas com a atividade do glossário. O glossário consiste em um conjunto de palavras pré-definidas do texto que os alunos tem de pesquisar o significado e outras que eles próprios adicionam. Uma parte da nota depende do glossário desenvolvido pelo aluno ao longo do bimestre. Para realizar essa atividade os alunos contam com acesso aos dicionários e também um dicionário de sociologia e ambos estão disponíveis na biblioteca da escola. Importante notar que os textos trabalhados são de autores renomados das ciências sociais como o próprio Marx, Engels, Lenin, Gramsci, Duménil. Claro que as cargas são reduzidas e as leituras em sala são fundamentais para o bom entendimento dos textos.

A primeira vista, talvez o método levante dúvidas a respeito da imparcialidade da visão sobre a sociologia. Entretanto o professor deixa claro para os alunos que esta é uma opção metodológica de ensino, pois considera que o tempo das aulas é demasiadamente curto para trabalhar com uma visão mais estendida sobre os assuntos em questão. Introduzindo, por exemplo, outra visão de sociologia sobre a formação dos Estados modernos. Pelo que pude perceber em sala, os alunos conseguem lidar bem com a metodologia, incorporando uma dimensão crítica em relação ao conteúdo e conseguem apreender bem os conceitos marxistas, que são parte fundamental do pensamento sociológico em geral.

Afastando-nos um pouco do estágio, penso em geral como deva ser a metodologia para o ensino de sociologia. Pensar num pluralismo de visões nos remete justamente ao modo de como as ciências sociais são ensinadas na universidade e fico hesitante para afirmar que este é o melhor modo de trabalho para o ensino médio. Afinal, as outras matérias também se limitam a recortes nas teorias e muitas simplificações que acabam esvaziando o conteúdo real da ciência.

Penso que um método de ensino que tenha como base um livro didático, dividido em X tópicos, procurando em cada tópico elucidar a questão para cada corrente de pensamento fugiria de todo do ensino. A única forma viável de se fazer isso seria mediante um esvaziamento e simplificações generalizantes das teorias, reduzindo-as as meras semelhanças e diferenças de umas entre as outras. Além disso, levando em consideração a atual carga horária de sociologia (45 minutos semanais), acredito que seria impossível conciliar tal exposição com a leitura dos textos dos autores. A leitura dos textos de autores renomados, juntamente com a realização do glossário, em minha opinião, é a maior ferramenta de ensino na sociologia. Ao familiarizar o aluno com textos de grande dificuldade e a apreensão de um novo vocabulário o professor prepara o aluno para a leitura de muitos outros textos. A leitura realmente é um dos aspectos mais fundamentais da nossa matéria. Como o cálculo o é na matemática, a análise gramatical no português, a leitura de mapas na geografia, a leitura tem que ser componente ativo no processo de aprendizagem dos alunos.

Para lidar com a baixa carga horária, acredito que a melhor forma de ensinar sociologia no ensino médio é lidar com uma corrente teórica e trabalhar a leitura de textos fundamentais para a compreensão do pensamento daquela corrente teórica e depois aplica-la a realidade, procedendo com trabalhos a serem desenvolvidos pelos alunos em diversos temas sob o viés da teoria. Claro que não devemos esperar trabalhos densos de pesquisa, mas sim que o aluno consiga minimamente a aplicação de um pensamento sociológico, de uma interpretação que consiga enxergar a complexidade e o caráter contraditório de fenômenos culturais, da estrutura social e consiga ir além de uma visão de senso comum sobre  o tema.

Devemos tentar fugir das discussões e polêmicas entre as teorias, que pertencem naturalmente ao ambiente universitário. Afinal, não podemos cair no erro de achar que estamos a formar “novos sociólogos” e sim estamos a introduzir uma forma de pensar sociologicamente, uma forma dos alunos conseguirem penetrar, quanto o possível, em um assunto além das aparências iniciais, além do senso comum.

Certamente a pluralidade das escolas em geral e mais ainda a disparidade entre as escolas públicas no Brasil, torna quase impossível à aplicação de somente uma metodologia de ensino de sociologia. Deve o professor proceder de acordo com as possibilidades do ambiente real. Em muitas escolas a ausência de uma biblioteca pode por em cheque o trabalho com o glossário, ou até mesmo a diferença entre o nível de alfabetização dos alunos impossibilite uma leitura coletiva com grau satisfatório de compreensão. Talvez quando dá impossibilidade se trabalhar com leituras em sala, de se desenvolver um glossário com os alunos o professor deva optar por mídias de maior assimilação como filmes e músicas. Entretanto a leitura pode reaparecer com textos mais simples e de menor carga teórica (ou talvez sem carga teórica), enfatizando o pensar sociológico. Dito de outra forma, quando a estrutura escolar e as condições presentes não permitirem o ensino de sociologia de modo mais estrito, mais teórico, o professor deve buscar superar essa limitação tentando trabalhar com recursos que permitam um pensamento crítico em relação à sociedade, em relação à própria cultura, trabalhando com temas que interessem os alunos mais diretamente. Talvez nesse caso o professor deva atuar mais como um mediador, buscando compreender temas que geram interesse nos alunos e ao mesmo tempo trabalhar com um olhar sociológico, um pensamento sociológico, mesmo que sem embasamento teórico, sem compreensão teórica dos alunos. Buscando com isso mobilizar conhecimentos que o aluno já possui e levando ele a novas visões sobre esse conhecimento, introduzindo uma visão crítica ao senso comum, provocando a reflexão e participação dos alunos.

Nas palavras de Otávio Ianni:

“É preciso fazer a crítica do senso comum, das noções estereotipadas e dos esquematismos que acabam naturalizando os fatos, dando-lhes aparência de prontos, acabados e certos.” (IANNI, 1985, p. 332)

Deixo como sugestão de leitura uma palestra de Otávio Ianni sobre a problemática do ensino de sociologia para o ensino médio e um artigo da revista Habitus de Júlio César Lourenço, a respeito da mesma problemática.

LOURENÇO, Júlio César. Finalidades, Metodologias e Perspectivas do Ensino de Sociologia no Ensino Médio. Revista Habitus: revista eletrônica dos alunos de graduação em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 67-84, dez. 2008. Semestral. Disponível em: <www.habitus.ifcs.ufrj.br>. Acesso em: 18 de novembro de 2013.

IANNI, O. O Ensino das Ciências Sociais no 1º e 2º Graus. [S.l.: s.n.], 1985. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v31n85/02v31n85.pdf. Acesso em: 18 de novembro de 2013.

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