Reflexões Acerca da Sociabilidade Virtual e Educação

A partir de uma observação em sala de aula que pude fazer numa aula de sociologia na E.E. Reverendo Prof. José Carlos Nogueira, pretendo refletir um pouco sobre a importância de se considerarem questões ligadas às tecnologias e as novas formas de sociabilidade que se engendram a partir delas e, por conseguinte, porque devem ser levadas em conta pelos interessados e envolvidos com a educação.

Em uma das aulas de sociologia que assistimos, o professor Beto levou os alunos para o laboratório de informática, pois segundo ele, era uma infraestrutura muito boa que a escola oferecia, mas que, no entanto, era subutilizada e que ele considerava bastante importante para o aprendizado dos alunos, tanto o aprendizado formal quanto para a familiarização da linguagem digital e virtual e que por isso utilizava bastante. Nessa aula, os alunos leram um texto de Althusser falando sobre Montesquieu e a concepção dos três poderes, organizado e problematizado pelo professor em seu blog. Durante a atividade os alunos se comportaram relativamente bem enquanto liam o texto, muito pela dificuldade que encontraram. Apenas algumas vezes o professor tinha que se colocar pedindo mais atenção e fomentando a participação mais intensa dos alunos. Eles permaneciam na página do blog (não sei se por algum mecanismo que os impedia de sair ou se por respeito à atividade ou outro motivo) e não frequentavam outras páginas da web, o que nos chamou bastante atenção. No fim da aula, no entanto, quando os alunos já estavam mais cansados da atividade comecei a perceber um burburinho de uma parte razoável dos estudantes dando risadas e bastante agitados, comprometendo o encerramento da atividade. Percebi que se tratava de comentários jocosos e provocativos no espaço reservado para comentar no blog… Consegui rapidamente ler alguns –“ Fabiano viadinho!”, dentre outros. A atividade se encerrou assim, com uma agitação geral e os alunos indo embora dando risadas e “zuando” uns aos outros. Um deles pareceu se incomodar um pouco mais e saiu com uma feição chateada da sala.

Essa observação veio bastante ao encontro de entrevistas que realizei com alunos e com professores e com a inspetora da escola. Quando perguntamos a um dos alunos: “Para você, quais são as piores situações de conflitos entre os alunos?”, um deles respondeu: “Ah… Quando, deixa eu ver… Quando já, tipo, faz tempo que tá ‘zuando’ uma pessoa e aí ela fica brava. Aquela briga que acontece quando já tá no limite, sabe? É a pior situação.” O aluno continuou (na resposta à pergunta: “Você considera que o(s) principal(s) motivo(s) ou causa(s) dos conflitos entre os alunos hoje em dia é (são)?”): “É a ‘zuação’. A ‘zueira’. Eu acho que também tem uns que conseguem lidar e outros que não… Não é só na escola que vão ‘zuar’. Se um é fraco aqui, imagina no mundo.” Continuamos: – Mas a ‘zueira’ acontece na escola? E eles responderam: “Também, mas acontece lá fora também, na rua e principalmente no ‘face’, na internet.”.

Essa observação ganhou ainda mais força durante a entrevista com a inspetora, em que ela expõe o problema dos conflitos mais recentes como sendo, boa parte, causados por rusgas e provocações de fora da escola. A resposta da inspetora para a pergunta Você considera que o(s) principal(s) motivo(s) ou causa(s) dos conflitos entre os alunos ou da indisciplina hoje em dia é (são)? A resposta foi:

“Ultimamente é mais o ‘face’ né? É assim que eles falam, esse negócio aí no computador… Eles ficam mandando recadinho um pro outro, e aí eles acabam falando mal de um coleguinha pro outro… Tipo fofoquinha no computador. E o que acontece? Eles chegam na escola e ‘ah, você falou aquilo de mim’, papo furado deles mesmo, aí eles se resolvem aqui na escola… Coisa que não vem daqui né? Mas a gente dá uma equilibrada.”

Notamos, pois, que boa parte dos conflitos tinha início ou eram até agravados na internet. Na internet os alunos se desentendem ou se provocam e a partir daí nutre-se certa antipatia entre alguns alunos que vem para escola e “estoura” em brigas, que segundo os próprios alunos eram as mais violentas e sérias. Notamos alguma diferença em relação ao que perceberam as autoras do texto “Construindo a Autonomia Moral na Escola: os conflitos interpessoais e a aprendizagem dos valores” na passagem:

“Um exemplo seria o fato tão frequente de alguns alunos não agredirem dentro da escola, mas resolverem seus conflitos de forma violenta fora desta instituição; ou, ainda, utilizarem os meios de comunicação eletrônica como a internet para insultar, vigar-se ou intimidar. Essas situações também denotam a dificuldade de alguns jovens resolverem seus conflitos de forma não violenta, de chegarem a soluções que beneficiem pelo menos em parte os envolvidos e de expressarem seus sentimentos sem causar dano aos outros.” (VINHA, T. P.; TOGNETTA, L. R. P, pág. 532)

Se encararmos conflito segundo o que diz Piaget:

“Piaget concebe o conflito, tanto o que ocorre no interior do sujeito como entre os indivíduos, como necessários ao desenvolvimento. Quando ocorre um conflito na interação com o outro, o indivíduo é motivado por este desequilíbrio a refletir sobre maneiras distintas de restabelecer a reciprocidade”

Percebi a urgência de se encarar a internet como meio de sociabilidade onde conflitos acontecem e se alastram para dentro da escola ou se alastram da escola para fora, ou seja, percebemos a urgência da escola dar importância a estes conflitos “virtuais” para encará-los de forma real e para tratá-los como uma ferramenta de desequilíbrio cognitivo, como diz também Piaget, para favorecer a construção da autonomia e para um processo de aprendizagem rico.

Novas formas de sociabilidade se engendram com a emergência desses espaços virtuais e é imprescindível que sejam levadas em contas para resoluções pedagógicas que possam vir a favorecer a educação.

Cabe uma apresentação sobre a questão de virtualidade e espaços virtuais de sociabilidade. A questão da virtualidade e as novas formas de sociabilidade são tratadas de forma complementar pelos textos de Mike Featherstone – O Flâneur, a Cidade e a Vida Pública Virtual – e de Daniel Miller e Don Slater – Etnografia on e off-line: Cibercafés em Trinidad. Considero interessante uma análise detida dos dois textos para entender a importância de se considerar a esses espaces virtuais como reais, bem como para problematizar formas de encará-los. Com isso pretendo favorecer um debate importante que pretende colocar em questão formas de se encarar essa virtualidade.

Em seu texto, Mike Featherstone apresenta as especificidades e idiossincrasias tanto da cidade na qual o flaneur do século XIX vagava de modo investigativo, quanto da internet, onde o flaneur Virtual, vaga de forma análoga.

O Flaneur, segundo o autor, vaga pelas ruas e espaços das cidades, contemplativo, absorvendo as emoções e sensações que as ruas e as paisagens urbanas transmitem. Absorve, sem ser amplamente notado o que de mais essencial se pode obter dessas cidades, cidade no sentido mais amplo do termo (estruturas físicas, sociais, pessoas, arquitetura, sentimentos, enfim, não apenas as partes estruturais). Essa cidade, diz Featherstone,

“não deveria, então, ser vista apenas como um objeto de investigação, como um lugar essencial para entender a natureza das formas contemporâneas de sociabilidade e experiência: ela é também um dispositivo metafórico que marcou profundamente o desenvolvimento conceitual no Ocidente.” (Mike Featherstone, 2000).

A cidade é, portanto, uma “fonte de alegorias” que diz muito sobre suas dinâmicas sociais e estruturais. A ideia de fluxos e de movimentação é importantíssima para se entender essa cidade e todas essas suas dinâmicas sociais e estruturais, diz o autor baseando-se em Walter Benjamin.

O flaneur é o sujeito que melhor pode absorver e apreender toda essa complexa “malha” de relações sociais, espaços físicos, sensações e sentimentos. De modo que um dos métodos consolidados para se estudar a cidade é o flanar, ou seja, agir como o flaneur. Esse “método” chamou-se de flanerie ou em alguns casos flanar.

O autor chama atenção para a obra de Walter Benjamin, que é, por vezes, escrita de uma forma análoga a esse flanerie nas cidades. É uma escrita dinâmica como as cidades, como se as palavras representassem as estruturas sociais urbanas. Dessa forma, para se ler seu texto deve-se agir como o flaneur, passeando pelo texto com olhar que não deixa de ser investigativo, flanerie, em outras palavras.

“O flaneur, portanto, não é apenas aquele que perambula pela cidade, algo a ser estudado. A flanerie é um método de leitura de textos, para ler os sinais e pistas da cidade. É também um método de escrita, de produzir textos.” (Mike Featherstone, 2000).

A linguagem na internet é, em larga medida, análoga a essa linguagem utilizada por Benjamin e para apreendê-la e aproveitá-la ao máximo, é imprescindível que se instrumentalize com o “espírito” do flaneur, que se seja imbuído desse impulso curioso que faz vagar contemplativamente e de forma investigativa, apreendendo sensações e experiências com olhar investigador.

Nesse sentido, o autor coloca que se Benjamin estivesse vivo, provavelmente lhe agradaria a escrita em hipertexto aliado à multimídia, pois poderia dessa forma, empregar com boas ferramentas o seu “método”. Ao colocar isso, o autor enuncia uma importante metáfora, a de que a forma de escrita possibilitada hoje, com as novas tecnologias, segue a forma de escrever da flanerie, no qual se pode saltar de um tema para o outro, como se fossem galerias, valendo-se de variadas mídias para expressar melhor e de uma forma mais dinâmica, tanto quanto a cidade, ou mais, o que pretende colocar. Na verdade a tecnologia central que possibilita isso é a internet, com suas características de dinamismo, aqui comparadas à cidade. O hipertexto, com os hiperlinks é uma ferramenta que integra um texto a esse dinamismo fulminante da internet, possibilitando uma forma de leitura e uso “à la flanerie”.

Ao usar o hiperlink abrem-se diversas possibilidades de “folhear”, ou “surfar”, com extrema velocidade, pulando de uma coisa para outra e explorando como quiser as diversas possibilidades que essa nova forma de texto apresenta. Tem-se daí a ideia de como essa nova forma de texto, multimídia, pode apresentar novas experiências sobre o texto escrito. O trabalho se conecta com infinitos outros trabalhos, complementando e modificando seu sentido, bem como as experiências que possa vir a proporcionar. O leitor assume um papel bastante ativo e pode se aprofundar onde queira e pular de onde quiser para onde quiser. Ele escolhe as opções que lhe são apresentadas ativamente e pode se aprofundar mais em um aspecto e bem menos em outro, de acordo com o seu maior ou menor interesse. A questão é que a velocidade e o dinamismo que a internet, aliada às variadas formas de mídia que se tem acesso através dela, torna o texto bem mais abrangente e possivelmente mais explicativo. Mesmo em textos que não possuem o hiperlink, textos clássicos inclusive, podem ser complementados, instrumentalizados por esse dinamismo de dados que a internet fornece. Ao ler um texto qualquer, podemos pesquisar na internet, adicionais para aumentar nossa compreensão cognitiva e nossa experiência sensorial a partir do texto. Não só podemos como de fato fazemos. Pessoas que possuem certa familiaridade com a internet já lêem textos dessa forma, valendo-se da internet como acessório maximizador das experiências. Quanto mais a pessoa é imbuída dessa curiosidade e dessa habilidade de flanar pela internet, maior será sua capacidade de observação, absorção e investigação sobre os temas mais variados possíveis.

Uma vez expostas essas características das cidades e dos métodos de análise das mesmas (flanarie), podem ser ressaltadas as semelhanças e diferenças entre essas cidades percorridas pelo flaneur no século XIX e a internet nos dias de hoje. A internet, assim como a cidade é bastante dinâmica e oferece diversos espaços de distintas formas de sociabilidade, num processo análogo ao da cidade. O método de investigação, que o autor sugere, para maior apreensão de todos os sentidos e experiências que a internet pode oferecer assemelha-se bastante ao flanerie, é, na realidade a própria flanerie. No entanto, é importante atentar para as diferenças.

A flanerie nas cidades tem a ver com fluxos, com mobilidade física. Para o ciberespaço essa mobilidade é problematizada. O corpo físico está parado, com pouco ou quase nenhum fluxo, o que na verdade se move está no âmbito virtual. Acontece uma mobilidade virtual, que começou a ser explorada pelo cinema:

“O cinema combinou esse olhar virtual com o olhar móvel do flaneur, permitiu que o espectador sucumbisse à ilusão da mobilidade espacial (uma representação de estar lá) e, eventualmente, temporal (o cinema como “máquina do tempo”)”. (Mike Featherstone, 2000).

Aparentemente não há movimentação, parece algo passivo, mas isso apenas do ponto de vista físico. Pois, na verdade o que acontece é um movimento virtual, que é o ponto central do ciberespaço e que lhe permite a sua principal diferença do movimento das cidades – a velocidade. Velocidade que traz um enorme dinamismo para o vagar (nos jargões de internet, surfar), permite “saltar” de um lugar para o outro “pairando” e com absoluta velocidade, cada vez mais imediata. Velocidade essa que permite saltar entre as cidades com grande liberdade e contrapõe-se ao passear lento do flaneur em apenas uma cidade, estendendo-se para diversas outras cidades – um mundo. No flanar do ciberespaço as limitações físicas não se impõem ao flaneur virtual, como o fazem com o flaneur nas e das cidades, logo as possibilidades são infinitas, tantas quantas forem os dados codificados em bytes. O flaneur virtual nas cidades simuladas do ciberespaço é capaz de adotar as duas posturas: a de detetive e a de passeante.

A ideia de espaços sociais de “virtualidade”, “ciberespaço” é central para entender o ponto do autor a respeito de como encara esse tema da internet. Em outras palavras, para o autor a internet é um espaço social de virtualidades, um espaço social por si só.

A linguagem na internet assume várias formas, das mais clássicas às mais inovadoras, das mais rebuscadas às mais simplistas. Encontra-se desde os textos mais clássicos aos textos mais simples, curtos e diretos. Dos vídeos mais consolidados a vídeos mais caseiros. Não há um fator que limite as mídias que se apresentam na internet. O que acontece, no entanto, é que devido à velocidade que já foi mencionada aqui, a linguagem que se prefere, no geral, é uma como a qual não se precise despender muito tempo para sua total compreensão, prefere-se uma linguagem fragmentada, simples e direta que possa ser consumida aos “nachos” como diz Mike Featherstone. Muitas vezes, talvez pela falta de capacidade que ainda se tem de produzir coisas com uma linguagem direta e breve sem perder na profundidade, as informações podem acabar comprometidas. Encontramos, por exemplo, vários vídeos-resumo de filmes e outras coisas que pode ser superficiais e simplistas. No entanto, é uma linguagem que facilita a interação, como já dito, tornando a participação do espectador que a consome essencial, aumentando, por vezes, a apreensão cognitiva e sensorial do que se propõe a apreender. É, no limite, uma linguagem nova, que ainda está para ser desenvolvida e trabalhada. Ainda nessa questão da linguagem, podemos dizer que uma linguagem favorecida é a enciclopédica, de fato o poder enciclopédico da internet encantaria os iluministas, como diz Mike Featherstone, uma vez que é, em sua essência, um colossal banco de dados que arquiva coisas sobre quase tudo, devido ao alcance que tem e ao poder dinâmico que confere.

No texto de Daniel Miller e Don Slater, Etnografia on e off-line: Cibercafés em Trinidad, os autores problematizam a maneira de se estudar a internet, com o que chamam de distinção entre o on-line e o off-line. Questionam o fato de que haja uma distinção muito marcada entre o on-line e off-line, em outras palavras, o que ocorre no “mundo da internet” e o que ocorre no “mundo real”. Problematizam a ideia de virtualidade, e ciberespaço, tão presentes no texto de Mike Featherstone. Dizem que ao designar termos como os supracitados incorre-se em uma diferenciação entre o on-line (quê seria uma virtualidade) descolado do off-line (que seria, por assim dizer, “mundo real”). Dessa forma, segundo os autores, não se consegue captar uma relação que é, na verdade, onde o on-line se tange ao off-line, que segundo eles, é de suma importância para a análise de processos sociais relacionados à internet. Seria, portanto, adequado considerar o que do off-line reflete no on-line e o vice-versa, além do que não reflete, mas se distingue. De qualquer forma, colocar que é importantíssimo para se ter uma análise mais acertada, na maioria dos casos, deve-se considerar na análise a interação dessas duas “instância” – on-line e off-line.

Para exemplificar o porquê de se fazer esse tipo de análise e o que pode ser desvendado, ele cita um exemplo etnográfico das donas-de-casa norte-americanas. Segundo eles, essas donas-de-casa se relacionavam na instância on-line em sites de trocas de materiais sexualmente explícitos (sexpics) o que poderia sugerir que elas fizessem parte de uma “vanguarda libertária”, só que, no entanto, ao analisar suas relações off-line, em especial com seus parceiros, elas se mostravam bastante conservadoras e até retrógradas.

“Em síntese, este não é um estudo em que há simplesmente um fenômeno – a troca on-line de sexpics, do qual o off-line é o contexto que o explica. Ao invés disso, há um reconhecimento do relacionamento complexo e nuançado entre os mundos on-line e off-line que produz as estruturas normativas desses dois mundos.” (Daniel Miller e Don Slater, 2004)

Essa inter relação que ocorre de forma dinâmica, em via de mão dupla, entre on e off-line, como sugerem os autores, são melhor, ou bem estudadas e investigadas com o “método” etnográfico. Para os autores a etnografia é igualmente dinâmica e consegue cobrir de forma mais holística essa inter relação entre on e off-line. A inter relação entre “fenômenos”, “contextos” são dinâmicas na etnografia e, portanto, possibilita uma melhor compreensão e discernimento do assunto a ser investigado, do campo e do contexto que será tratado, em cujo tema é essencialmente a internet.

“A etnografia oferece um conhecimento não só mais vasto como mais ‘holístico’: nós podemos situar melhor dentro do contexto mais amplo possível, de forma que cada um é usado metodologicamente para fazer sentido ao outro. Uma pesquisa sobre negócios, por exemplo, se aprofunda quando há suficiente conhecimento de fundo sobre etnicidade, gênero e classe, de forma que fique claro como tais ‘contextos’ influenciaram e se relacionaram com os negócios em operação. É claro que a distinção entre ‘fenômeno’ e ‘contexto’ não corresponde diretamente àquela entre on-line e off-line, posto que depende do nível de análise que se tem e de como se define o ‘campo’.” (Daniel Miller e Don Slater, 2004)

Dessa forma defendem a presença da palavra etnografia no título do texto, e não só, defendem a etnografia como instrumento fundamental para se investigar temas ligados à internet, tendo sempre em vista o dinamismo desse instrumento, bem como o dinamismo entre a relação entre on e off-line. Ainda nesse texto eles embasam sua teoria com um trabalho etnográfico de investigação e estudo de cibercafés em Trinidad, mostrando esse dinamismo e como entendê-lo valendo-se de artifícios etnográficos.

Essa nova contribuição para se estudar e investigar assuntos ligados ao tema internet colocada por esses dois autores, não exclui a importância e a riqueza da análise de Mike Featherstone, antes apresentada, na verdade o segundo texto, até por ter sido escrito depois, complementa problematizando o primeiro, de modo que para diversas análises acerca do tema da internet é bastante pertinente atentar para esses dois “métodos” de análise, que podem oferecer um “fundo” riquíssimo para análises, investigações e estudos igualmente ricos sobre esses temas, suscitando belos resultados e uma compreensão ampliada das relações sociais por detrás dessa tecnologia que é tão imbricada nos homens dos dias de hoje e consequentemente em suas relações sociais.

Diante desta apresentação, frente ao relato da minha observação em aula, considero importantíssima essa reflexão sobre a internet, para que a partir dela possam ser tomadas medidas pedagógicas para encarar esses espaços virtuais de sociabilidade como imprescindíveis para a educação dos indivíduos contemporâneos.

Desta forma, considero importante a reflexão que coloca o professor da faculdade de Educação da Unicamp Carlos Eduardo Albuquerque Miranda sobre o tema:

“(…) nos perguntamos: o que os professores e demais profissionais da educação estão esperando da tecnologia, esteja ela materializada em vídeos, filmes, computadores ou redes? Talvez seja muito mais importante para a educação perceber como estas tecnologias, na forma como estão constituídas, nos educam, do que ficar pensando em como educar através delas. Não se trata de negar o seu uso na educação formal e informal, mas sim de lembrar sempre que as tecnologias de produção, reprodução de imagens, sons e palavras, em movimento ou não, constroem, a sua maneira, o real.” (MIRANDA, 2001).

Ele defende que professores e profissionais da educação atentem para a educação e observação crítica de como observamos, apreendemos e percebemos a linguagem tecnológica e a forma como nos é apresentada a tecnologia. Uma vez que entendemos a WEB como espaço de sociabilidade “real” devemos encará-lo como campo de disputa simbólica também e cabe ao professor e ao educador se deter sobre o que ele chama de “o olhar”. Para ele é papel imprescindível da educação atentar-se para a educação desse “olhar” – “A Educação do Olhar”.

“Se, em português, os dois termos aparentemente se casam, em outras línguas, a distinção se faz clara ajudando o pensamento a manter as diferenças. Em espanhol: ojo é o órgão; mas o ato de olhar é mirada. Em francês: oeil é o olho; mas o ato é regard/regarder. Em inglês: eye não está em look. Em italiano, uma coisa é o occhio e outra é osguardo. Creio que essa marcada diversidade em tantas línguas não se deva creditar ao mero acaso: trata-se de uma percepção, inscrita no corpo dos idiomas, pela qual se distingue o órgão receptor externo, a que chamamos ‘olho’, e o movimento interno do ser que se põe em busca de informações e de significações, que é propriamente o ‘olhar’.” (Bosi APUD MIRANDA, 2001)

“Por Educação do Olhar podemos entender a educação do movimento interno do ser a que se refere Bosi. Neste sentido, a literatura educacional, preocupada com o acesso dos estudantes a diferentes produtos da indústria de imagens e sons em movimento, tem abordado, constantemente, a necessidade de compreendermos estes produtos e de pensarmos uma metodologia para trabalhar com ou a partir deles.” (MIRANDA, 2001).

Apresentei aqui reflexões que me inquietaram a partir das observações em sala de aula. Suscitaram-me preocupações que considero inadiáveis para educação. Acredito que o tema da tecnologia deve ser amplamente explorado pela educação, uma vez que acredito existir uma lacuna da educação nessa área. É igualmente importante, também, que a educação desse “olhar” se detenha também na linguagem do espaço virtual (cyberespaço). Muito se fala sobre inclusão digital, mas pouco se considera o espaço virtual como um espaço de sociabilidades reais com sua liguagem e características específicas e menos ainda sobre a educação do “olhar” para educar de forma a privilegiar a autonomia e o senso crítico diante desse “mundo virtual” que é a rede mundial de computadores (WEB) e que é tão real nos dias de hoje.

Referências Bibliográficas:

– FEATHERSTONE, Mike – “Flâneur, a Cidade e a Vida Pública Virtual”, in: A.A.Arantes (org) O Espaço da Diferença. Campinas: Papirus

– MILLER, Daniel e SLATER, Don – Etnografia on e off-line: Cibercafés em Trinidad. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n.21, p. 41-65, jan./jun. 2004

– MIRANDA, Carlos Eduardo Albuquerque, Uma Educação Do Olho: As Imagens Na Sociedade Urbana, Industrial E De Mercado, Cad. CEDES vol.21 no.54 Campinas Aug. 2001.http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-32622001000200004&lang=pt

VINHA, T.P.; TOGNETTA, L.R.P.  Construindo a autonomia moral na escola: os conflitos interpessoais e a aprendizagem dos valores. Revista Diálogo Educacional. Curitiba: v. 9, n. 28, p. 525-540, set./dez. 2009.

André Carvalho Ferreira da Rosa                                                               RA 101479

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