(Re)produções de gênero e sexualidade no espaço escolar

"ser um homem feminino não fere o meu lado masculino"A partir da discussão da aula de 08/11/2013 e questões do concurso para professores de Educação Básica II do estado de São Paulo (17/11), foi possível perceber como os temas gênero e sexualidade são sempre muito pertinentes no espaço escolar e trazem à tona assuntos como homossexualidade, violência contra a mulher, aborto, machismo. Sendo um dos três marcadores de diferença que “modelam” as experiências individuais – classe e raça também o são, por exemplo –, o gênero é importante na formação dos sujeitos enquanto indivíduos sociais. Assim, a escola assume papel fundamental na orientação dos alunos em relação a questões de gênero como corporalidades, sexualidades e diferenças. Contudo, muitas vezes a escola inverte esse papel e vincula as discussões referentes a sexo e corpos num discurso medicalizado e normativo, não questionando construções acerca do tema, que pode ter uma gama bastante variada de perspectivas. No presente texto, pretendo refletir sobre construções e relações de gênero e sexualidade no espaço escolar, buscando compreender o papel do educador nesse processo.

Quando se aborda sexualidade e gênero entre jovens, as primeiras colocações são sobre prevenção de gravidez indesejadas e DST/AIDS.O debate sobre esse tema assume um direcionamento biológico/ medicalizado que aloca o sexo juvenil na doença, no perigo[1]. Ana Talita da Silva Rocha buscou compreender, através de trabalho em campo em escola pública paulistana[2], as relações e construções de gênero dentro de um ambiente cujos protagonistas são alunos do ensino médio, mas onde o poder é preconizado de forma hierárquica nas mãos dos diretores e professores. Partindo do princípio de que a escola se define não só como uma instituição técnico-educativa, mas como uma instituição política, a autora entende que se faz necessária a abordagem do tema da sexualidade dentro do ambiente escolar. Rocha defende que rupturas com padrões hegemônicos tornam-se perigosas quando pensamos no prazer sexual enquanto uma relação de poder.

Em suas observações a pesquisadora pode notar comportamentos plurais, diferentes da concepção homogênea presente nos discursos da mídia e, no caso, dos professores. A escola é o principal meio de convivência desses jovens, então é nesse espaço que estabelecem suas relações com os demais, é no ambiente escolar que os adolescentes conversam, se divertem e paqueram. Muitos casais se relacionam dentro do espaço escolar, pois afirmam não possuir um relacionamento sério, o que impossibilita visitas amorosas nas casas dos parceiros (que moram, na maioria das vezes, com os pais).

As experiências dos jovens com seu corpo são de suma importância em seus discursos. São frequentes os discursos entre os alunos que apontam relação de nojo com o próprio corpo, principalmente entre as meninas quando o assunto é masturbação. Além disso, a importância dos corpos fica evidente durante os intervalos onde a autora pôde perceber que as meninas, sempre com visuais elaborados, caminhavam com o intuito de serem vistas, diferente dos rapazes que se mantinham parados observando a movimentação, em uma cena de paquera.

Muitas meninas se relacionam afetivo/sexualmente com outras meninas, apesar de não se considerarem bissexuais. Com os meninos essa relação é diferente, existe uma fronteira bastante marcada entre o “ser hetero” e o “ser gay”, baseada em modelo binário no qual a masculinidade aparece em oposição à feminilidade.

Durante o período de análise da escola a autora pôde presenciar o flagra, pela direção, de um casal de namorados tendo uma relação sexual em uma das salas de aulas do colégio. O que mais chamou a atenção foi a forma como a escola tratou o caso. Os pais da menina foram chamados à escola pela direção, enquanto os pais do rapaz foram avisados pelo telefone. No outro dia o menino já estava na escola e ao ser questionado pela pesquisadora sobre que medidas seus pais tomaram ele respondeu que seu pai contou sobre a ligação da diretora, deu um sorriso e o assunto se encerrou. A garota ficou vários dias sem ir à escola por vergonha dos colegas e professores que poderiam identificá-la com adjetivos como “puta” ou “vagabunda”, comumente atribuídos à mulheres que fogem de alguns padrões de feminilidade.

A diretora confirmou que fora mais dura com a menina, pois acredita que ela tem total responsabilidade pelo seu corpo e não deveria ter transado com o garoto, pois correu o risco de engravidar ou adquirir uma DST. Depois do ocorrido, a escola organizou uma semana da saúde com ênfase na sexualidade dos alunos. Quando questionada sobre os objetivos dessa semana temática a diretora respondeu:

“O objetivo é orientar as meninas sobre suas responsabilidades, pois basta tocar nos meninos que eles já ficam daquele jeito, nesse caso a menina é que deve ser responsável, somente elas. Além disso, vamos aproveitar para falar sobre “homossexualismo”, pois este é um problema que muitas escolas estão enfrentando. Muitos meninos se sentem acuados pelas meninas e acabam virando gays, sem contar com essa moda emos… No fundo é uma situação muito triste.”

Para essa semana os alunos fizeram cartazes acerca do tema sexualidade, a maioria das produções contavam com preservativos colados e desenhos e imagens de atos sexuais. Em todas as imagens apresentadas pelos estudantes a imagem da mulher foi expressada de maneira passiva, ou seja, sob o controle do homem. A temática homossexual ficou fora dos cartazes realizados pelos jovens. Em entrevista com a pesquisadora o coordenador da escola apresentou sua opinião sobre as imagens:

“Olha a imaginação: a mulher de quatro, 69…Sempre sem nenhum envolvimento, como se a mulher fosse uma cadela…Não é machismo meu, mas a culpa dessa mudança de comportamento é da mulher. O homem não mudou seu jeito e a mulher mudou. Esse é o problema. Elas conseguiram muitas coisas boas, mas outras nem tanto… O homem já tem o seu instinto, ai vem uma menina e se ele não quer que ela chame ele de bicha…quem vai se arriscar?”

Para os dois educadores as meninas aparecem como “culpadas” pela homossexualidade dos garotos. Defendem que o homem possui um “instinto” sexual inerente que não o permite resistir a uma mulher, cabendo a ela dizer não. É importante problematizar essas questões, pois a opinião de ambos possui um caráter negativo, que culpabiliza as mulheres e aborda o gênero de uma perspectiva medicalizada, singular e normativa, que considero errônea.

Surge, então, a necessidade de se problematizar essa questão do poder diante da sexualidade, principalmente entre os adolescentes. Mesmo em um meio onde aparentemente as pessoas são classificadas como “esclarecidas”, como é o caso de educadores, a disparidade negativa de gênero e construções singulares e estigmatizantes ainda são presentes nos discursos.

Os exemplos citados por Talita Rocha evidenciam uma conceituação de gênero que “cola” o comportamento na materialidade corporal e singulariza as subjetividades dos indivíduos em formação no espaço escolar. Ser mulher implica ser feminina e ter um comportamento baseado na doçura,meiguice, passividade (Beleli:2004) e ser homem consiste em ser masculino, sinônimo de forte, viril. Transpor essas fronteiras pode significar um sério problema para os educadores e para os próprios alunos, muitas vezes vítimas de preconceitos e violências.

Na década de 1960, Gayle Rubin introduziu o sistema “sexo/gênero” nos estudos sobre sexualidade. Tal sistema consiste na percepção de que sexo e gênero são conceitos distintos. O gênero, de acordo com Rubin, é um produto das relações sociais de sexualidade. Sexo seria o material inato, o natural e o gênero o culturalmente construído. Daí a ideia sobre gênero que perdurou até os anos 1980 quando a naturalidade do sexo também começou a ser questionada por autores como Thomas Laqueur e Joan Scott, diretamente influenciados pelo pós-estruturalismo cujo principal expoente é Michel Foucault.

Para Foucault, o gênero é um saber sobre a organização social da diferença sexual que, por sua vez, gera percepções não naturais sobre o sexo. Em síntese, para Foucault o sexo não é o material, o corporal e sim um entendimento sobre esse corpo e suas marcas. Para Laqueur (2001) o sexo é situacional: é explicável apenas dentro do contexto da luta sobre gênero e poder. Nas palavras de Scott: “Gênero é o saber que estabelece significados para as diferenças corporais. Esses significados variam de acordo com as culturas, os grupos sociais e no tempo, já que nada no corpo, incluídos aí os órgãos reprodutivos femininos, determina univocamente como a divisão social será definida” (1994: 13).

Se o gênero, assim como sexo, são construtos situacionais que dependem diretamente de influências e significados sociais e a escola assume papel fundamental enquanto instituição responsável pela formação cultural do aluno, torna-se necessária uma discussão que adeque os discursos, construções e representações de gênero no espaço escolar.

A historiadora e educadora Guacira Lopes Louro é uma das principais autoras que discutem o tema escola e gênero. Louro defende que a sexualidade é construída através de processos plurais (como rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções) responsáveis pelas atribuições de significados ao corpo e executados, muitas vezes, no espaço escolar. É importante ressaltar que embora plurais e distintos, todos esses processos são moldados por relações de poder presentes na sociedade em questão: poder[3] que define a forma como se processa a representação. Esses construtos sociais, os quais a escola é reprodutora, vão afirmar o que é possível ou não fazer com os corpos, dentro do que é padrão. As identidades passam, então, por processos normativos[4] que fixam significados aos corpos. E como a identidade é fluida, o corpo torna-se o lugar da fixidez. O corpo e suas marcas passam a ser o lugar que dita como deverá ser construído o gênero.

Para Butler,a linguagem é um dos principais meios de consolidação das diferenças de gênero e categorias de sexo. De acordo com a autora, gênero deve ser pensado como uma configuração de poder que constrói não só o sujeito mas também o outro, em sua subjetividade e corporalidade. Butler sugere uma crítica radical das categorias de identidade, um questionamento da matriz heterossexual e do que ela chama de heterossexualidade compulsória. A escola, com seu papel político, deveria uma das protagonistas neste “descolamento” das marcas corporais de rígidos padrões comportamentais.

Entendo que a forma como o espaço escolar organiza relações de gênero é essencial para o entendimento do indivíduo não só sobre seu corpo, mas também sobre as diferenças. A percepção sobre os corpos que a escola ensina deve ser objeto de cuidadosa análise, a fim de evitar fixação de modelos que corroborem visões preconceituosas, baseadas em conceitos singulares (derivados da biologia) do que é masculino ou feminino.

O professor, enquanto mediador de cenas que trazem à luz problemas latentes de diferença sexual e de gênero, deve estar preparado para lidar com essas situações de forma adequada, respeitando as singularidades e direitos de cada aluno. A persistência de uma abordagem medicalizada das marcas sexuais dos alunos reduz um escopo de discussão que, se mais abrangente, poderia ser responsável pela formação de sujeitos críticos, capazes de questionar sobre os significados atribuídos a seus corpos e comportamentos. Acredito que essa abordagem não essencializante que aqui sugiro seja enriquecedora no sentido de propiciar um exercício e entendimento da sexualidade mais consciente e saudável.

Butler defende que devem ser pensadas possibilidades políticas que sejam consequência de uma crítica radical de categorias de identidade. Sendo assim, a escola enquanto protagonista de formação política e social de sujeitos, deve preocupar-se com essas possibilidades, fazendo emergir pluralidades no interior de rígidas dicotomias.

A escola corrobora modelos de feminilidade e masculinidade que mantém os marcadores biológicos: meninas devem ser meigas, doces e passivas e meninos devem ser viris, fortes, corajosos. A mulher continua sendo associada ao espaço doméstico e o menino ao público.O educador deve ser responsável por distanciar os sujeitos de concepções essencializantes de gênero, mostrando aos alunos a pluralidade que as identidades podem assumir, quando descoladas da materialidade corporal.


[1]Helena Altmann retrata como a escola assume protagonismo na regulação dos corpos juvenis sexuados: “Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo lê-se: “o melhor método anticoncepcional para as adolescentes é a escola: quanto maior a escolaridade, menor a fecundidade e maior a proteção contra doenças sexualmente transmissíveis”. A escola é apontada como um importante instrumento para veicular informações sobre formas de evitar a gravidez e de se proteger de doenças sexualmente transmissíveis, chegando-se a ponto de afirmar que quanto mais baixa a escolaridade, maior o índice de gravidez entre adolescentes.” (2001: 01).

[2]A pesquisadora busca compreender em seu trabalho como as experiências sexuais estão presentes nos discursos de adolescentes e dos pedagogos de uma escola pública de ensino médio, na cidade de São Paulo no ano de 2009, a partir de uma perspectiva do estudo de gênero. A escola possuía algumas características particulares que se deve levar em conta, como o fato de mesmo sendo uma escola pública conta com a maioria dos alunos pertencentes a classe média alta, isso ocorre devido a sua localidade dentro da cidade de São Paulo, é um colégio considerado modelo, devido a inúmeros projetos socioeducativos.A análise foi realizada a partir de observações e entrevistas, contando com uma abordagem antropológica tanto quantitativa como também qualitativa. A pesquisa durou oito meses e esse tempo foi fundamental, segundo a autora, para a aproximação dela com os sujeitos do campo. Grupos focais também fizeram parte da metodologia da pesquisadora, dois realizados com meninas e outros dois com meninos levando em conta o assunto prazer sexual, apoiada em trechos de um programa da MTV sobre sexualidade.Conversas informais tiveram grande importância já que nessas situações os estudantes se sentiram mais confiantes para falar sobre o tema. Assuntos como raça, hierarquia de gênero, classe e estilo foram abordados de uma forma direta, num clima amistoso.

[3] O poder aqui é entendido como discurso, num sentido foucaultiano que entende o poder como algo difuso na sociedade, como uma rede (e não uma hierarquia).

[4] De acordo com Foucault, vivemos a era da “scientiasexualis” na qual a confissão de práticas sexuais a saberes médicos patologiza o sexo com o objetivo de normatizá-lo. Para o autor, há uma incitação ao discurso sobre o sexo que visa a adequação do mesmo a padrões comportamentais. O sexo, segundo Foucault, está relacionado a uma rede de poder própria da sociedade ocidental contemporânea. A sexualidade é, então, um dispositivo histórico de poder.

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