Analisando quem é o aluno da escola pública

Por João Pedro Mendonça

A sala de aula é um espaço de desafios crônicos. Cada detalhe é passível de questionamento sobre se é um facilitador pedagógico ou não. Dentro desta trama dois sujeitos se destacam, pois sintetizam entre sim a relação do ensino: professor e aluno.

Numa escola pública todas as condições e contradições são sempre mais gritantes. São as escolas públicas que carecem de qualidade desde a estrutura até o ensino, que se chocam com um alunato mais carente que, impossibilitado de pagar por um ensino de qualidade representado geralmente pelas instituições privadas, tem como destino obrigatório as carteiras precárias das escolas públicas, caso queiram garantir o seu diploma.

Logo, dentro deste quadro, a grande parte do exercito de estudantes têm duas características: são na sua maioria negros e têm a sua jornada diária divida entre a necessidade de trabalhar e a de se formar.

Sobre esta ultima característica, o colega Diego Tosta em sua resenha postada neste blog sobre o texto de Gaudêncio Frigotto “Juventude, trabalho e educação no Brasil: perplexidades, desafios e perspectivas” justifica essa:

“característica comum desse universo de pesquisa é o fato de existir uma inserção precoce no mercado de trabalho como forma de complementar a renda familiar, não como uma opção, mas como uma imposição social e de classe, que está visivelmente sobreposta a uma questão de cor / raça.” (In: https://escsunicamp.wordpress.com/2013/11/18/resenha-de-juventude-trabalho-e-educacao-no-brasil-perplexidades-desafios-e-perspectivas/)

Negras e negros nas carteiras da sala de aula

Aqui, é interessante o corte racial que se destaca, do aluno negro em sala de aula. Na perspectiva histórica, o povo negro ingressa no Brasil vindo da África como mão de obra escrava e oprimida; em 1888, com a assinatura da “Lei Áurea” concedida pela Princesa Isabel, acaba a sujeição ao trabalho compulsório no Brasil, mas não se rompe com a trágica posição ocupada por negras e negros na sociedade brasileira já que 125 anos depois de assinada a Lei Áurea não existe igualdade racial. Isso é ilustrado por alguns dados utilizados pela pesquisadora do IPEA Tatiana Dias Silva em seu artigo “População negra e educação: um panorama da última década (1999-2009).”:

tabela

Esta dura realidade, escola precária e o árduo cotidiano do estudante, só atrapalham no seu rendimento escolar, limando as possibilidades de se doar plenamente à sua escolarização diante da corrida cotidiana por condições melhores de vida ou, no limite, de sobrevivência, sendo que dados do IPEA mostra que 63% da população que vive abaixo da linha da pobreza é negra e dos 76 milhões de pessoas que sobrevivem com menos de um dólar por dia, 71% são negras.

O gráfico abaixo vem ilustrar o terreno argiloso da educação para a juventude negra, com uma nova variável: gênero. Apesar de algumas significativas melhoras, os índices ainda são divididos por uma engessada distancia entre brancos e negros, o que mostra que não há uma igualdade de fato.

infograficos_educacao

http://www.ipea.gov.br/retrato/imagens/infograficos_educacao.jpg

Através destes dados, nos saltos aos olhos a necessidade da atenção ao povo negro por meio de políticas públicas nos diversos ramos dos serviços públicos e sobretudo na educação, para garantir que a juventude negra conclua a trajetória escolar e não se capitule aos dados trágicos da evasão escolar ou do analfabetismo da proporção de 13,42% entre negras e negros, enquanto entre a população branca essa porcentagem caí para 5,94%.

Contudo, caso esta questão permaneça em aberto, ameaça a inclusive as ações afirmativas como as cotas para negros nas universidades públicas, que são hoje realidade nas universidades federais e não nas estaduais.

As cotas, como disse Caue Pastrello em seu artigo compartilhado também neste blog, as cotas surgem então como uma política de ação afirmativa que tem o intuito de diminuir as desigualdades expostas, porém é apenas uma ação dentre as várias necessárias para que possamos reverter o quadro das desigualdades raciais no Brasil”. https://escsunicamp.wordpress.com/2013/11/25/cotas-raciais-nas-universidades/

Tal política afirmativa é de imensa justeza para a população que sempre teve negado o seu direito a acesso ao ensino pelo determinismo social causado pelas barreiras institucionalizadas do racismo, já como os dados acima nos revelam, negros e brancos partem de pontos de partida diferentes, apesar do destino em comum. Principalmente por partirem de pontos de partida diferente se faz necessário uma política séria de permanência estudantil desde o ensino básico até ao universitário.

Pensando o papel do professor de sociologia

Frente a este grande e frustrante problema, resta pensarmos o fazer o docente em sala de aula. Entrar numa sala de aula é sempre um desafio, mas é um desafio maior quando se é um guerreiro isolado num campo de batalha, onde o fazer pedagógico se choca com a ausência de predisposição do alunato, o receptáculo do trabalho em sala de aula.

Assim, acredito que exista um diferencial no conteúdo das aulas de sociologia que outras disciplinas não possibilitam de modo tão fácil.  A sociologia entra em sala como disciplina crítica da realidade com o intuito final de extrair um veredicto cientifico dela, destacando as contradições e procurando solucioná-las. Para este fim diversos caminhos podem ser tomados pelo modo da abordagem em sala de aula, mediante o preparo anterior. Resignificar o espaço da sala de aula para o aluno é torná-lo meio dela, instrumento capaz de pensar e indagar, e não um sujeito passivo dos assuntos que passam de boca do professor, pelo giz da lousa ou pelas linhas da apostila.

No pensamento de Paulo Freire [1996], este se refere ao trabalho do educador como um costurador do diálogo, não como agente detentor da saber, mas recebendo o conhecimento daquele que não sabe de tudo, construindo o saber a partir da curiosidade do aluno. Sendo que o professor tem que exercer a sua autoridade em sala de aula, conduzindo o processo de aprendizado do aluno.

A partir disto podemos pensar em práticas que envolvam o aluno ao aprendizado, com  que ele traga o conteúdo, experiência pessoais a notícias e opiniões factuais, para aula e  que baseado nisso que se trave a discussão e construção coletivo do conteúdo, fazendo o aluno se sentir parte da elaboração, reaproximando-o ao processo pedagógico e isolando o fardo do cotidiano suado do mundo do trabalho.

Por fim, aqui destacamos alguns pontos que analisam o sujeito da sala de aula de uma escola pública e alguns poucos condicionantes ao seu futuro escolar. A determinação social têm um grande peso histórico que engessa qualquer possibilidade de mudança de vida instantânea para esse alunato que compõe os setores mais negligenciados pelas políticas estatais de ontem e de hoje. Não se pode pensar em aluno, apenas aquele que se assenta numa carteira e só, pois este carrega consigo um cotidiano que extrapola os muros da escola, sendo problemáticas estruturais extra escolares determinam este aluno. Mas o espaço escolar da escola pública em pouco contribuí para a romper com a determinação social e ganhar o aluno para o aprendizado apenas.

No limite, sendo que todas estas problemáticas não portam esperanças de serem solucionadas, o papel do professor é o último recurso para capturar a atenção do aluno e conseguir, assim, construir o conhecimento para que faça sentido para o aluno o propósito do aprendizado.

Bibliografia

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

SILVA, Tatiana Dias. População negra e educação: um panorama da última década. (1999-2009) In: Situação social brasileira : monitoramento das condições de vida 2. Org: Jorge Abrahão de Castro, Herton Ellery Araújo. Brasília : Ipea, 2012

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