Uma contribuição crítica a reflexão pedagógica e aos cursos de licenciatura

por Gabriel F. N. Carreira

O atual estado calamitoso da educação pública é um tema tratado cotidianamente pela mídia, associado a adjetivos como “caos”, “tragédia”, “precariedade”, etc. Está presente nas promessas de campanha dos governos, nas capas dos jornais, nas revistas acadêmicas, nos panfletos dos movimentos sociais, nas reivindicações dos professores da rede publica, de seus alunos e, finalmente, nas palavras de ordem entoadas pelas centenas de milhares de pessoas que saíram nas mobilizações das Jornadas de Junho de 2013.

De fato trata-se de um tema complexo que envolve desde situações cotidianas, inclusive de caráter psicológico, que geram conflitos nas salas de aula, até o problema nacional do analfabetismo e o mundo do trabalho.

Para tratar seriamente deste tema é sempre necessário partir da situação concreta em relação a atual politica e diretrizes para educação do Estado brasileiro. Partir de que nas ultimas décadas foi implementado em nosso país as diretrizes neoliberais do Banco Mundial, que orienta o projeto educacional de conjunto, desde os currículos até seu financiamento. Trata-se de um plano que não foi aplicado apenas no Brasil mas em considerável parte de todo o mundo, principalmente nos países chamados “subdesenvolvidos”. As diretrizes deste plano carregam algumas ideias fundamentais, sendo as mais importantes: 1) Educação voltada para o mercado de trabalho. 2) Incluir a educação como um bem de consumo que deve ser equilibrada pela dinâmica da concorrência, sem intervenção do Estado. 3) Massificação da educação sob as condições das premissas anteriores. Na síntese da prática trata-se de um plano que massificou o ensino médio, reduzindo o investimento nos setores públicos e facilitando o desenvolvimento do ensino privado.

O resultado deste plano é a catástrofe dos dias de hoje. Não foi necessário ver os resultados para que os alertas fossem dados. Durante toda a implementação deste projeto não faltou focos de resistência e denuncias contra seus efeitos, embora hoje sejam poucos aqueles que opinam sobre as perspectivas da educação pública que faça um balanço serio a respeito deste plano. Pelo contrário, poucas, ou nenhuma proposta oficial de reversão e abolição deste plano estão na ordem do dia. Ao contrário, o problema foi deslocado das questões estruturais do projeto de educação, para se tornarem problemas relacionados ao cotidiano das escolas, ou seja, problemas de “capacitação dos professores”, “problemas pedagógicos”, “problemas da educação dos jovens por parte de seus familiares”, etc. Não é raro na mídia o foco do problema ser apontado contra aqueles que são justamente as vítimas no olho do furacão, os professores e alunos. Estas ideias acabam por tornarem-se algum tipo de senso comum, que disputa a consciência de todos em nossa sociedade. Não atoa, em todo nosso aprendizado no curso de licenciatura, seja no âmbito teórico, seja no âmbito prático, o foco da reflexão é sempre: “como os futuros professores, jovens estudantes, formados no curso de licenciatura, podem se preparar para enfrentar, isoladamente, em suas escolas, em suas aulas de aula, os problemas do ensino brasileiro”.  Ou seja, desenvolver técnicas acrobáticas supostamente capazes de driblar as contradições em sala da aula. Podemos traduzir essa orientação geral do curso em duas ideais chaves: 1) Cada professor pode fazer a diferença na sala de aula. 2) E a educação por sua vez muda a realidade a nossa volta.  Ao final estas ideias têm os seguintes resultados práticos na condução do aprendizado na licenciatura: 1) Os problemas da educação são na verdade os problemas da sala de aula. 2) O problema da sala de aula na realidade é um problema pedagógico/didático entre professor e aluno. Posto isto o curso de licenciatura teria a obrigação de preparar os professores para isto.

Existem inúmeros problemas de nível prático envoltos nesse pensamento. Para citar os principais: 1) Faz com que o professor que está sendo formado carregue em si um nível de responsabilidade individual desproporcional. 2) Constrói uma visão ingênua sobre sua própria atividade social e profissional, e os problemas no qual esta inserido. 3) Resultante das duas últimas, leva a desmoralização, ao ceticismo e a frustração. Não bastasse já o compressor psicológico que é estar numa sala de aula em meio a uma tempestade de contradições, a preparação do professor, que teoricamente estaria completamente focada em prepara-lo para esta situação, na verdade o desarma e o despreparar para enfrenta-la.

Os efeitos práticos no psicológico do professor podem ser vistos sem muito esforço pelos índices de afastamentos e abandonos da profissão por motivos de saúde, com quadros depressivos e problemas psicológicos. Ou então, acompanhar a mídia narrando os casos de comportamentos inapropriados em sala de aula, desmotivação no ensino, alto índices de falta, atitudes violentas, agressivas, ou então os frequentes casos de suicídio.

Obviamente os problemas citados acima que contribuem para o drama cotidiano dos professores, embora sejam de importância fundamental para o assunto deste artigo, estão imbricados com inúmeros outros de relevâncias tão importantes quanto, ou maiores.  Para fazer uma análise equilibrada, citemos alguns: 1) Baixa remuneração profissional dos professores e extensa jornada de trabalho. 2) Formação de nível político e humano no que tange a problemas de opressão como racismo, machismo e homofobia praticamente inexistentes. 3) Formação política e teórica sobre movimentos sociais, em especial estudantil e sindical, inexistentes. 4) Formação teórica e política do papel da educação no Estado capitalista inexistentes.

Uma vez já debatido os problemas práticos gerados por este “senso comum” que afetam a formação e a vida pessoal e profissional dos professores, façamos agora uma crítica teórica sobre isto.

A ideia de que “o problema da educação é o problema da sala de aula”, está fundamentada, mais ou menos implicitamente, sobre um arcabouço ideológico e teórico que localiza os indivíduos enquanto protagonistas da sociedade. Ou seja, que um indivíduo é capaz de superar as forças sociais que o cercam com sua própria iniciativa, capacidades e força de vontade. Numa sala de aula significa dizer que o professor é capaz de superar não só as forças sociais que atuam sobre ele, o que seria um pensamento plausível, mas também as forças sociais que atuam sobre a escola de conjunto, sobre os outros professores, sobre as centenas de alunos que o cercam, sobre a direção escolar e a própria estrutura física da escola.

Além de ser uma ideologia que desestimula a participação de espaços coletivos de decisão, sejam políticos ou pedagógicos, como conselhos e sindicatos, se fundamenta em teorias que já foram há muito questionadas e refutadas, não só em espaços acadêmicos, como pela própria historia.

Entretanto esta ideia ainda aparece sutilmente disfarçada no senso comum. A ideia mais cristalizada, e mais difícil de ser superada, que baseia esta e outras visões de superação dos problemas da educação pública, é a ideia de que o problema da educação brasileira é um problema conjuntural, ou seja, que o problema da educação é um problema de ordem administrativa do governo, e que neste sentido, uma redistribuição financeira poderia modifica-la.

Existem várias vias para questionar os fundamentos deste pensamento. A forma mais adotada pelos críticos de esquerda ao projeto de educação pública brasileiro é a crítica aos projetos neoliberais. Nesta visão a educação neoliberal está a serviço de formar mão de obra barata e por isto segue os planos neoliberais para precarizar a educação e assim o trabalho como um todo. Ou seja, pensando na ideia de valor, quanto mais valor é agregado a educação, seja no investimento de formação do corpo docente e seu salário, seja na estrutura física das escolas, este valor é transferido aos alunos futuros trabalhadores. Desta forma diminuindo os investimentos aplicados em estrutura e salários, acabaria por desvalorizar também o trabalhador que está sendo formado. Entretanto esta lógica, embora questione de forma mais profunda o projeto de educação neoliberal, ainda busca conciliar a educação com a lógica da mercadoria, pois sua proposta seria “revalorizar a educação” com investimento do Estado. Embora esta seja uma reivindicação justa, esta análise ainda não da conta da gravidade do problema.

A precarização profunda da educação foi um plano, como já dito, aplicado em âmbito internacional, principalmente nos países chamados subdesenvolvidos. Entretanto, o primeiro momento da desvalorização da educação no capitalismo não acontece nos baixos investimentos, mas sim, contraditoriamente, na sua massificação. Inserido no capitalismo a educação segue a lógica da mercadoria enquanto etapa de formação dos trabalhadores. Desta forma, quando esta se massifica, seu valor cai proporcionalmente. Sigamos um exemplo para tornar esta ideia palpável. Antes da educação se massificar, apenas uma restrita parte da população urbana tinha acesso ao ensino médio, e desta forma os trabalhadores que passaram por este processo de ensino tinham em si maior conhecimento, e assim, mais valor que outros que não passaram. Os professores ocupavam um posto de maior reconhecimento intelectual e eram bem remunerados. Com a massificação do ensino médio, todos os trabalhadores passam a ter esta formação, e desta forma, como toda mercadoria quando se massifica, perde seu valor, ou seja, um trabalhador que terminou o ensino médio recebe como qualquer outro trabalhador, pois todos possuem ao menos este nível de aprendizado. A profissão de professor também perde seu valor pois se generaliza junto com as escolas, proletarizando o trabalho docente. A partir dai surgem inúmeros outros níveis de formação profissional, cursos técnicos, tecnólogos, ensino superior privado, etc. O aumento exponencial destes outros ramos da educação segue a lógica de criar trabalhadores de distintos valores, para suprir os variados gostos do mercado de trabalho.

Assim até agora temos que, o ensino médio está atualmente associado às profissões mais precárias do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo se antes o máximo que um trabalhador comum poderia sonhar no seu desenvolvimento profissional era fazer um curso técnico. Hoje, é possível financiar uma universidade privada em dezenas de vezes com ajuda do governo.

Desta forma, o efeito da desvalorização do ensino não está somente intimamente ligado com a desvalorização objetiva do trabalho, mas também gera uma “desvalorização subjetiva” em relação à educação. Ou seja, podemos cogitar que esta relação íntima entre o ensino médio, precário, com trabalho precário, produz um profundo desinteresse de seus envolvidos, onde a nova referência de aprendizado, de capacitação para o mercado de trabalho, formação profissional e melhoria de vida, agora é o ensino superior. A referência de aprendizado, da onde é possível aprender, obter informações confiáveis não é mais as escolas.

Para precisar, a massificação da escola por dentro da lógica da mercadoria acompanha a precarização trabalho e a precarização da vida. A realidade concreta da juventude da periferia e de seus pais é a perspectiva que um jovem vê para si mesmo. A escola não trás mais uma perspectiva de futuro para juventude trabalhadora.

Entretanto, se até então a universidade, e em outra medida os cursos técnicos, passaram a ocupar o posto de nível de ensino capaz de oferecer um futuro, e a suposta democratização do ensino superior gerou expectativas e esperança de ascensão social, hoje esta ideia pode passar também a ser questionada pelas novas gerações. A lógica de mercado também ataca o ensino superior e a formação técnica, de forma a diminuir seu valor no mercado de trabalho. A realidade de emprego daqueles que pagaram sua universidade não cumpre com as expectativas geradas pela ideia da ascensão social. Nem sequer a possibilidade de emprego está colocada. A realidade está mais uma vez para se chocar com as idealizações criadas pelo sistema de ensino. Uma geração de jovens formados no ensino superior e técnico não conseguirão empregos nas áreas de sua formação e, se conseguirem, será com salários muito mais baixos, ou até tão baixo quanto os empregos precários que tinham antes.

E se até hoje a lógica de transformação do ensino, da vida e da realidade, estava associada a ações individuais que pudessem garantir gradual ascensão social, talvez após as Jornadas de Junho de 2013, uma nova lógica de transformação da realidade pode ter sido aprendida por grandes setores de massas da juventude e dos trabalhadores. A ideia de atuação social pautada na mobilização e enfrentamento com o governo volta a se tornar algo natural no mundo de hoje. Não só por conquistar sua legitimidade, mas também por provar que é capaz de obter conquistas. Talvez um dos grandes desafios dos dias de hoje para a melhoria da educação seja, justamente, pensar o que podemos aprender das Jornadas de Junho para aplicar e atuar nas escolas.

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