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Juízo é um documentário produzido por Maria Augusta Ramos em 2007, e retrata o que acontece durante as audiências da II Vara Regional da Infância, da Juventude e do Idoso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no julgamento de menores infratores. Como é proibida a exposição constrangedora de menores, a cineasta mistura ficção e realidade trocando os menores infratores por menores não infratores que, entretanto, vivem uma realidade similar a dos que substituem. Todas as cenas do filme são reais, e somente nos momentos em que os rostos dos menores aparecem é que são substituídos por não infratores, que repetem falas e expressões dos substituídos.

O filme mostra o grande abismo que há no diálogo entre os menores infratores (evadidos da escola em sua maioria e provindos de classe baixa), e os juízes (provindos de classe média). É possível perceber uma completa incompreensão tanto daqueles que julgam para com os que são julgados, quanto o contrário.

Acredito que o documentário é muito interessante para trabalhar, em sala de aula, o sistema judiciário, já que, como foi apontado acima, fica nítida a distância entre réus e juízes, e também o sistema carcerário, pois em muitas cenas é possível perceber a grande precariedade das prisões para menores, que são, ironicamente, chamadas de instituições socioeducativas.  Além disso julgo o filme um excelente instrumento de desnaturalização da punição como meio de resolução da questão da violência, fazendo um contraponto ao que a mídia veicula.

O filme está disponível no You Tube:

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=EDtN2Xs_eMU&feature=related

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=UzXyViWG_uc&feature=related

Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=OWuWRPdh2E4&feature=related

Parte 4: http://www.youtube.com/watch?v=uXR4y_JUebw&feature=related

Parte 5: http://www.youtube.com/watch?v=_F0MLfrmfK0&feature=related

Parte 6: http://www.youtube.com/watch?v=p-DuNbYWDf8&feature=related

O documentário brasileiro “Notícias de uma Guerra Particular” foi produzido em 1999, pelo cineasta João Moreira Salles e pela produtora Kátia Lund. A expressão que deu título ao filme é o retrato da vida nas favelas do Rio de Janeiro a partir de três eixos: polícia, tráfico e moradores.

Sem vitimizar ou criminalizar nenhum desses atores, o documentário dá voz à traficantes, crianças exploradas pelo tráfico, moradores das favelas, policiais, capitão do BOPE, delegados, com o intuito de mostrar uma guerra civil na visão daqueles que dela participam cotidianamente, direta ou indiretamente.

Acredito que o filme possa ser trabalhado nas aulas de sociologia tendo como pano de fundo a discussão sobre as violências direta e simbólica, já que somente a presença constante da polícia e do tráfico, ainda que os moradores não envolvidos com nenhuma das partes, não seja vítimas de violências que gera danos físicos, são coagidas e sentem medo o tempo todo.

Além disso, em uma favela os direitos sociais são fragilizados, mais uma das violências que o professor pode tratar em sala mediante o documentário, ou seja, na falta de saúde, educação, moradia e lazer, resultado e causa de uma profunda desigualdade social, o crime, como aponta o documentário passa a ser visto pelos jovens pauperizados, como uma forma de inserção social, sendo que, com o dinheiro que ganham podem comprar roupas e tênis “de marca”. A discussão em sala pode tocar, ainda que de forma periférica, essa noção tão enraizada na sociedade capitalista de que o consumo é capaz de inserir um indivíduo na sociedade e de torná-lo cidadão.

Diante do cenário levantado pelo documentário, podemos ainda refletir com os alunos, sobre o papel da polícia que atua nas ruas e das instituições de medidas sócio-educativas, que dão foco ao controle da criminalidade pela privação de liberdade proclamada pela justiça penal, sem que haja uma política de redução das desigualdades e garantia de direitos à população mais pauperizada. Esse debate é possível a partir da fala do, na época, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Hélio Luz que afirma que a polícia foi construída para proteger a elite da multidão de excluídos que vive nos morros, e que é corrupta justamente porque essa elite assim deseja, ao exigir da polícia que seja dura com moradores de favela, e que ao mesmo tempo faça “vistas grossas” às infrações que comete.

O documentário, apesar de ser relativamente antigo, ainda traz questões muito atuais com relação ao trato da polícia e da sociedade com o crime, que sempre clama por medidas mais radicais para com os indivíduos que os cometem.

Documentário:

Parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=sq6fHw3rlsQ&feature=related

Parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=Tvtj8TOS0_0&feature=related

Parte 3

http://www.youtube.com/watch?v=apDVTW4v–M&feature=related

Parte 4

http://www.youtube.com/watch?v=5wOHJGRqaH8&feature=related

Parte 5

http://www.youtube.com/watch?v=sXuzV1CHlEw&feature=related

Parte 6

http://www.youtube.com/watch?v=YKQHrprALcA&feature=related

O caderno do professor de sociologia do Estado de São Paulo, propõe ao professor que desenvolva com seus alunos a construção do olhar sociológico desde a primeira aula do primeiro ano do Ensino Médio, tendo em vista que essa construção é processual e deve ser desenvolvida ao longo dos três anos.
Estranhamento e desnaturalização são tidos, no caderno, como a base do olhar sociológico, já que por estranhamento compreende-se a postura metodológica de distanciar-se do objeto e de tratá-lo como estranho.

O estranhamento implica na desnaturalização que é não tomar como natural aquilo que acontece na vida em sociedade, compreendendo que tudo parte de uma construção social.
Essa metodologia do ensino de sociologia, estranhar e desnaturalizar o olhar, possibilita o desenvolvimento da disciplina com mais êxito, já que os alunos passariam a questionar aquilo que é aparentemente natural, e assim compreender melhor os temas que serão trabalhados durante os três anos do Ensino Médio.

Acredito que o desenvolvimento do olhar sociológico deve ser a primeira e principal preocupação do professor de sociologia do Ensino Médio, seja a partir dos grandes nomes da sociologia, de filmes, de textos, músicas, e qualquer outra ferramenta cuja aplicabilidade varia de acordo com as turmas e suas realidades.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo iniciou nessa semana o debate com professores, diretores, coordenadores e demais profissionais da educação, acerca da nova matriz curricular a ser implementada na rede em 2012.

O documento intitulado “Ensino Médio – Matriz Curricular”, elaborado pela Cenp (Coordenadoria de estudos e normas pedagógicas), apresenta uma proposta de reformulação da matriz curricular, tal como temos hoje, com vistas a atender às demandas dessa fase do ensino, quais sejam: “consolidação e aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental,possibilitando o prosseguimento de estudos; preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posterior; o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.” (p. 3)

A reformulação, que tem o intuito de tornar o currículo “mais atrativo, significativo e dinâmico”, contará com duas aulas semanais das disciplinas de Sociologia, Filosofia e Língua Espanhola, e uma referente à Orientação de estudos, o que acarretará na redução da carga horária das disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa. Além disso, o aluno optará no último ano qual a ênfase que pretende dar a seu currículo, sendo que pode ser em três áreas, quais sejam: Linguagens, Códigos e suas tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias; e Ciências Humanas e suas tecnologias.

De acordo com o documento, “para o 3° ano, com aprofundamento por área, recomenda-se o desenvolvimento de projeto de interesse do aluno, prevendo um trabalho diferenciado que possibilite o exercício de sua autonomia intelectual e social. O projeto pode ter como foco a integração entre as disciplinas da área ou ser desenvolvido no âmbito de uma disciplina específica”. (p. 15)

O professor da Faculdade de Educação da USP, Ocimar Alavarse, alerta que essa medida, de ênfase em determinada área, pode ser demasiadamente precoce a um aluno do Ensino Médio, e que pode ter como pano de fundo a atenuação da falta de professores que presencia o ensino público atualmente.

Além disso, fica claro no documento, em várias passagens, que há uma grande preocupação com a formação para o mercado de trabalho, o que é completamente questionável quanto ao caráter educacional e de formação de sujeitos autônomos, que tanto afirma o documento como intenção do projeto.

À parte isso, a proposta parece de fato muito interessante, já que equilibra a carga de cada área do conhecimento, possibilitando um contato maior dos alunos com todas essas áreas, e uma maior interdisciplinaridade.

A discussão acerca da proposta terá início no dia 30/09, em todas as escolas estaduais. Posteriormente, a discussão realizada em cada escola será levada para um debate de âmbito municipal, e depois de âmbito regional. Nesse sentido, há uma possibilidade real de análise da proposta em toda a comunidade escolar, e não uma implementação vertical da nova matriz.

Documento “Ensino Médio – Matriz Curricular” disponível em: http://pt.scribd.com/doc/66658043/Matriz-Curricular-do-Ensino-Medio-2012

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) instituiu, em 1996, que a escola deve ser um espaço de educação que, dentre outras coisas, vise o exercício da cidadania. A escola é um lugar muito importante para que os jovens possam conhecer formas diversas de se colocar no mundo e desenvolver sua cidadania.

Nesse sentido a organização dos estudantes em grêmios estudantis tem sido incentivada por leis de âmbito federal, estadual e municipal desde o início do processo de redemocratização do Brasil, por ser compreendida a atuação dos estudantes nas decisões e ações da escola, de extrema importância na constituição da consciência cidadã por parte destes. O Grêmio Estudantil é a organização que representa os interesses dos alunos na escola, possibilitando que discutam e criem formas de ação tanto na escola como na própria comunidade em que vivem.

É ele a representação da problematização coletiva e a produção de práticas que questionem as hierarquias e a burocracia no interior da escola, e além disso é uma maneira de fazer presente o sentimento de pertencimento à comunidade escolar por parte dos estudantes, com estes participando dos espaços de decisão.

De acordo com Francisco André Silva Martins “o convívio com opiniões diferentes, a discussão em público nas reuniões, a resolução de problemas e proposição de soluções e até mesmo o exercício do pensar e discutir questões concernentes à escola e aos estudantes, podem aparecer como um terreno potencialmente fértil.” (p.11)

Além disso, há quem defenda que a formação de grêmios estudantis apontam para uma melhora na relação entre os alunos e deles com a escola como um todo, reduzindo práticas como a violência, já que introduz uma outra maneira de resolver conflitos. Pensando nisso, o Instituto Sou da Paz criou a Projeto Grêmio em Forma, que visa a formação de grêmios estudantis no interior das escolas com o intuito de reduzir a violência neste espaço, bem como a consolidação da consciência cidadã por parte dos alunos.

O projeto encontra-se disponível em: http://www.soudapaz.org/Portals/0/Downloads/GUIA.PDF

É possível que retiremos muitas contribuições do projeto, principalmente na formação dos alunos para a construção do grêmio, conscientizando-os de que é direito garantido dos estudantes organizarem-se livremente, o que possibilita que deixem de ficar “a mercê” das decisões da diretoria e do corpo docente acerca das regras da escola, e das atividades que realiza.

De acordo com os cadernos de Sociologia do Ensino Médio do Estado de São Paulo, a disciplina de sociologia deve estimular o estranhamento e a desnaturalização por parte dos alunos, e facilitar a criação da consciência crítica e cidadã. O grêmio, acredito, pode ajudar nesse processo com uma participação mais ativa dos alunos na construção democrática no interior da escola, e portanto no contato com a prática cidadã.

Referência bibliográfica:

MARTINS, Francisco André Silva. Juventude, Grêmio Estudantil e Ação Coletiva: considerações em torno dos movimentos sociais na contemporaneidade. Trabalho apresentado no I Encontro dos Pesquisadores em Educação dos Programas de Pós Graduação em Belo Horizonte – UFMG – PUC-MG – CEFET – UEMG – MESA: Educação e Movimentos Sociais. Disponível em: http://www.fae.ufmg.br/objuventude/upload/acervo/6d6dc46f168d5070792be1cafec96a45.Juventude,%20gremio%20estudantil%20e%20acao%20coletiva%20-%20consideracoes%20em%20torno%20dos%20movimentos%20sociais%20na%20contemporaneid.pdf