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Gostaria de compartilhar comentários sobre essa obra literária, pois acredito na possibilidade de usá-la para aproximar os alunos, da disciplina de sociologia no ensino médio, dos estudos africanos. Nos últimos anos acompanhamos uma tímida iniciativa por uma inclusão do mundo africano nos materiais didáticos e paradidáticos das escolas. O que creio ser uma tarefa difícil nos dias de hoje, em que ainda somos assolados pelo preconceito étnico e racial. Nesse contexto a leitura e discussão dessa obra que explora o fantástico e o real pode ser interessante para se pensar como abordar esse tema na disciplina de sociologia.

Em O reino deste mundo o escritor cubano, Alejo Carpentier, inaugura o que chamou “real-maravilhoso”. Ao contrario da narrativa surrealista, que forjaria um contexto mágico, o real-maravilhoso nasce de um contexto natural. Ele brota da realidade latino-americana que em seu cotidiano convive com o constante diálogo entre as dimensões naturais e sobrenaturais da vida. Isso se tornou evidente para o autor depois de pisar em solo haitiano, uma terra em que os encontros entre o mágico e o real contribuíram imensamente para uma revolução realizada por escravos e ex-escravos, o que levou o país à independência.

O intuito deste trabalho é nos lançar nesse mundo real e ao mesmo tempo fantástico do qual nos fala Carpentier. Nessa narrativa autêntica que nos mostra uma maneira diferente de ver a realidade, que não o dualismo europeu, onde há brancos e não-brancos (inferiores). Apresentarei alguns dos eventos descritos no livro tentando, na medida do possível, destacar certos personagens e acontecimentos que dialogam com elementos como religião, antepassados, condição social.

Em meio a dados reais e fictícios Carpentier nos conta a história do primeiro país a se tornar independente por meio de uma revolução realizada por negros. Como o próprio autor define no texto se narra “uma sucessão de fatos extraordinários, ocorridos na ilha de São Domingos, em determinada época que a duração de uma vida humana não alcança, deixando-se que o maravilhoso flua livremente de uma realidade estritamente seguida em todos os seus detalhes” (2009,p.11).

Logo no primeiro capítulo nos deparamos com dois mundos, dois modos de vida que coexistem em certo tempo e espaço. O mundo dos escravos e o mundo dos senhores. E é através da figura de Ti Noel, escravo negro que protagoniza o romance, que há certo contato entre senhores e escravos e a sugestão dessa oposição.

Em uma visita ao açougue da cidade com seu amo, Ti Noel, se diverte ao imaginar que ao lado das cabeças de bezerro se serviam cabeças de brancos. Um mundo não percebe o outro que convive ao seu lado diariamente. Nesta mesma visita Ti Noel é atraído por algumas gravuras, de altos personagens do cenário francês e de um rei africano, que evidenciam a oposição entre o comportamento da corte francesa e os reinos de Arada, dos nagôs e dos fulas. Para ele que ansiava por liberdade e um reino mais justo, aquele rei africano é que era rei de verdade e não aqueles “soberanos cobertos de cabelos alheios, que jogavam a bola e só sabiam fazer-se de deuses nos cenários de seus teatros da corte”(2009, p. 17).

Ti Noel havia sido alimentado pelos contos do mandinga Mackandal. A figura do negro Mackandal fascinava Ti Noel e muitos outros escravos. Ele foi visto como uma espécie de ser sobrenatural. Tinha o poder, licantrópico, de se metamorfosear em diversos animais. Ele podia aparecer em qualquer lugar a qualquer hora. Assim conseguiu uma onipresença, e uma fé tão grande dos escravos em sua entidade, que lhe garantiu poder suficiente para executar uma revolta à distância. O mandinga, assim como várias outras imagens criadas pelo autor, realiza um resgate da memória africana. Espalhando suas histórias em meio aos escravos, e encontra em Ti Noel um fiel seguidor.

Mackandal trabalhava arduamente na lavoura quando perdeu o braço que ficou atarracado em um moinho. Passou então a cuidar do gado, o que lhe deu mais tempo e possibilidade de conhecer melhor os diversos tipos de plantas e recursos de que a natureza ao seu redor dispunha. Comparando-os com os que já conhecia em solo africano, descobriu ervas venenosas que poderiam ser, e foram, usadas contra a opressão dos brancos. Esse personagem originário da Guiné, tirado da real história haitiana, em 1757 assume a liderança de um bando de fugitivos organizando uma grande rebelião escrava. O vodu desempenhou importante papel no levante, assim como em toda a história haitiana. Como podemos encontrar no relato histórico do livro “O Deus da resistência negra: O vodu haitiano”, Makandal “utiliza as crenças do vodu em sentido profético e incita os negros a matar os brancos através de veneno. Capturado durante uma cerimônia do vodu, foi queimado vivo. Mas os negros continuaram a venerar Makandal como profeta e, desde então, todos os venenos, sortilégios e malefícios usados por eles passaram a ser chamados de makandals. O caráter político do vodu tornou-se tão evidente que tudo se fez para impedir qualquer manifestação religiosa dos negros”(1987,p. 67). E isso se torna ainda mais interessante e elucidativo quando, na leitura de O reino deste mundo, o autor coloca um mistério em torno da fonte do veneno. Não se sabia como ele avançava, o que aterrorizava os brancos que agora bêbados e amedrontados torturavam mais ainda seus criados em busca de uma resposta.

Os colonos não acreditavam na capacidade de agência dos negros. Eles os exploravam em altíssimo grau e os subestimavam demais para acreditar na possibilidade de uma reação em larga escala, uma vingança, uma libertação. E como qualquer povo oprimido, eles queriam o extermínio de seus opressores. E no livro podemos enxergar bem a indiferença do branco e o desejo de vingança e libertação do escravo, a passagem das cabeças dos bezerros e dos brancos lado a lado, ilustra bem essa situação. Já na primeira revolta ocorre um envenenamento em massa de colonos e animais. Podemos também aqui sentir que a presença do vodu foi uma premissa importante para que uma organização maior fosse possível. “ O vodu era o meio da conspiração. Apesar de todas as proibições, os escravos viajavam quilômetros para cantar, dançar, praticar os seus ritos e conversar; e então, desde a Revolução, escutar as novidades políticas e traçar os seus planos” (2000p.91).

Estou tentando sublinhar o vodu, pois acredito na tese exposta na obra de Laennec Hurbon, citada anteriormente. Segundo a qual o universo do vodu é o lugar por excelência onde se manifesta a originalidade haitiana. Diante de uma história tão manchada de sangue e sofrimento o espectro da mudança havia de começar a rondar. E “ já nos navios negreiros e, depois, nas plantações de cana-de-açúcar, o suicídio, a greve de fome, a recusa em receber remédios eram sinais de que o vento da revolta começava a soprar. Ao longo do processo, a resistência dos negros encontra nova expressão dessa revolta na antiga religião dos antepassados: o vodu. E nas clareiras das florestas, como no interior das senzalas, ou ainda abafadas nas plantações, por toda parte vozes se elevam para entoar cânticos e loas, os espíritos africanos que, só eles, podiam restituir aos negros a sua coesão social” (1987,p. 8). E assim o vodu como uma visão de mundo autêntica representa, dentre outros aspectos, a resistência de um povo frente às péssimas condições históricas pelas quais atravessaram, de escravos à dominados pelo estrangeiro, passaram ao subdesenvolvimento e sucessivas ditaduras políticas. Enfim, como Hurbon cita brilhantemente, o vodu é uma “linguagem que permite situar-se no mundo”. (1987,p.11).

Retomando o enredo do livro, depois de duramente abafada a revolta encabeçada por Mackandal “os escravos retornaram a suas fazendas rindo por todo o caminho. Mackandal cumprira sua promessa, permanecendo no reino deste mundo. Uma vez mais os brancos eram ludibriados pelos altos poderes da outra margem”(2009,p. 45). Apesar da morte de Mackandal, a fé fez com que ele continuasse inspirando os escravos a não se contentarem com aquela situação, que como descreve com detalhes o autor era horrenda, as extrema-unções chegavam atrasadas. Ti Noel conta repassa as histórias contadas pelo mandinga. E no final dessa primeira parte do livro vemos que a oposição de imagens e mundos não diminui, ao contrario ela é aprofundada.

Na segunda parte do livro o autor se concentra mais em descrever melhor os personagens, mostra os conflitos sendo atenuados e ao mesmo tempo algumas assimilações. Os universos se misturam em certa medida. Os brancos se divertem no caos estabelecido, nas hierarquias da colônia que estavam ruindo e os negros tem que assimilar certos aspectos da religião dos brancos. Ele descreve uma relação que se estabelece entre uma branca, Paulina, e um criado, o negro Solimán que mais adiante aparece como criado do rei Henri Christophe. Ti Noel que em uma igreja espanhola encontra um calor de Vodu.

É também nessa parte que surge Bouckman, liderando uma rebelião. Bouckman convoca os negros à matarem os senhores, estuprarem as mulheres e queimarem as fazendas, nas seguintes palavras “ O deus dos brancos ordena o crime. Nossos deuses nos pedem vingança. Eles conduzirão nossos braços e nos darão assistência. Quebrem a imagem do deus dos brancos, que tem sede de nossas lágrimas; escutemos em nós mesmos o chamado da liberdade!”(2009,p.54). E quando chegou a hora como o coro de milhares de caracóis, imagem construída pelo autor, os negros pegaram nas ferramentas e saíram sugando as mãos no sangue da vingança. A rebelião acabou e a cabeça de Bouckman cortada. A colônia ruía.

Na terceira parte da obra Ti Noel anda livre na terra onde a escravidão havia sido abolida. Entretanto agora sob o domínio dos signos europeus da corte de Henri Christophe. E dessa forma Ti Noel cai na contradição representada pelo reinado de Henri, rei negro que escraviza negros, e acaba sendo obrigado a trabalhar na construção da cidadela de La Ferriére, monumento símbolo deste governo. E todas as tentativas de resistência foram caladas com morte. E segundo o autor o que era pior ainda, era que “ havia uma infinita miséria em ver-se espancado por um negro, tão negro como os demais, tão beiçudo e acarapinhado, tão nariz largo como os demais” (2009,p.93).

No reinado de Henri Christophe, assim como em diversos depois da independência, o culto ao vodu era tratado com grande intolerância. Havia um desejo de trazer o Haiti a luz da “civilização”, além do que poderia ser perigoso para manutenção do sistema político. A terceira parte termina com a queda e morte de Henri Christophe. Tudo descrito de forma bem emblemática. As fortalezas do Castelo de Henri Christophe continha sangue de touro o que o protegia dos brancos, mas não contra a força dos negros . E o rei acaba engolido pelo cimento de seu próprio Castelo.

Em meio a outros desdobramentos, como o delírio de Solimán, a última parte do livro mostra que a liberdade dos haitianos era ameaçada novamente. Agora nas mãos dos mulatos republicanos, com a figura dos agrimensores, eram obrigados a cumprir tarefas agrícolas. O que Bouckman e Mackandal não puderam imaginar em suas vidas. O autor descreve tamanho desapontamento e desespero de Ti Noel que já em idade avançada via seus iguais sob o açoite de alguém novamente. Diante disso, lembrando de Mackandal, ele pensa que a roupagem de homem traz muita desgraça, melhor seria transformar-se em animal, e começa a se metamorfosear. E vemos aqui também a imagem de Ti Noel rei, um rei com seu poder adquirido pelo que sofreu nesse mundo. Um rei que conclui que a vida lá seria um “infindável reviver de cadeias, esse renascer de grilhões, essa proliferação de misérias”. E por fim, deixando somente seu corpo como herança, Ti Noel diz que nunca se sabe por quem se padece e se espera, “padece e espera e trabalha por pessoas que nunca conhecerá, e que por sua vez padecerão e esperarão e trabalharão para outros que tampouco serão felizes, pois o homem anseia sempre por uma felicidade situada mais além da porção que lhe é outorgada. Mas a grandeza do homem está precisamente em querer melhorar o que ele é. Em impor-se tarefas. No Reino dos Céus, não há grandeza a se conquistar pois la tudo é hierarquia estabelecida, incógnita relevada, existir sem fim, impossibilidade de sacrifício, repouso e deleite. Por isso, esgotado pelas penas e pelas tarefas, belo dentro de sua miséria, capaz de amar em meio as pragas, o homem só pode encontrar sua grandeza, sua máxima medida, no Reino deste Mundo”(2009,p. 131). Depois de todos essas reviravoltas que acabam voltando na calamidade, me parece que a ultima mensagem é de certa tolerância, para que melhoremos no Reino deste Mundo.

Bibliografia

HURBON, Laennec. O Deus da resistência negra: o vodu haitiano. São Paulo: Edições Paulinas, 1987.

CARPENTIER, Alejo. O reino deste mundo. São Paulo: Martins Martins Fontes, 2009.

JAMES, C. L. R. Os jacobinos negros: Toussaint L’ Ouverture e a revolução de São Domingos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

Com esse texto pretendo introduzir na discussão desse blog algumas ideias sobre educação na obra de Émile Durkheim. Apesar das críticas feitas ao autor ao longo da história da sociologia, creio ser valido considerar essa perspectiva, em um momento em que há um esforço em pensar a recente introdução do ensino de sociologia no Ensino Médio e sua eficácia.

Inicialmente, Durkheim define educação como uma influência especial que o adulto exerce sobre as crianças e adolescentes. Ao desenvolver esse tema, investiga mais diretamente duas visões de educação. Uma seria a de Kant, “o fim da educação é desenvolver, em cada indivíduo toda a perfeição de que ele seja capaz”, “perfeição (…) é o desenvolvimento harmônico de todas as faculdades humanas”, e a outra seria uma perspectiva mais utilitária, “fazer do individuo um instrumento de felicidade para si mesmo e para seus semelhantes”. Faz a crítica à ambas visões sob variadas formas, mas, no geral, critica o que serviu de base para a conclusão dessas.

Estas perspectivas pautaram-se em questões teóricas, buscando uma educação ideal, não se guiaram pela história, pois se assim fizessem, não encontrariam nada que servisse a elas de respaldo no que definiram. Ao contrário do que defendem essas visões, Durkheim afirma que o ideal não seria aplicável, pois em cada sociedade a educação seria de um jeito, de acordo com o que ela fosse definida. Pois cada sociedade possui sua individualidade, se comporta de maneiras muito diversificadas. Nas cidades gregas e latinas, por exemplo, “a educação conduzia o indivíduo a subordinar-se cegamente à coletividade, a tornar-se uma coisa da sociedade. Hoje, esforça-se em fazer dele personalidade autônoma”.

Durkheim acredita que a cada momento a educação se adapta ao período que a sociedade se encontra, portanto a educação de que dispõe uma pessoa não deve ser igual a dada ao seu filho, visto que a cada momento objetiva-se algo diferente. E se educa-se o filho como seu pai foi educado, as crianças estarão excluídas dos hábitos adotados naquele período, como fossem deslocadas de sua época. Portanto, os pais devem deixar seus filhos se habituarem à contemporaneidade, serem educados de acordo com seu período histórico. “Há, pois, a cada momento, um tipo regular de educação, do qual não nos podemos separar sem vivas resistências, e que restringem as veleidades dos dissidentes”.

A educação estaria atrelada a várias questões sociais, como observa-se ao levar em conta a história, tais como “religião”, “organização política”, “grau de desenvolvimento das ciências”, “estados das indústrias”, dentre outros fatores. Portanto, em sociedade, a constituição da educação depende de inúmeros elementos. O mundo coletivo cria a educação, e não o mundo individual. Assim o autor não toma a história como base para reaplicar a educação de outrora, mas sim para estudar a constituição, a necessidade de sua existência.

Para criar um conceito de educação, Durkheim investiga o que há de comum em vários sistemas educativos. Entende que a necessidade de adultos e a necessidade de crianças e adolescentes, onde os primeiros exercem influência sobre os segundos, compõem a educação. Como cada sociedade é múltipla, possui diversas regiões e classes sociais, cada local esboça uma educação diferenciada, onde cada criança, quando adulta, ocupa um lugar social. E essas diferenças existiriam mesmo que não houvesse disparidade econômica, pois elas não dependem somente disso. Ainda que essa diversidade exista, há algo em comum entre esses locais de aprendizado, algo que paira na educação de todas as crianças e adolescentes. E esse elemento comum pode ser desde um objetivo até a própria matéria abordada como um fato semelhante. “Esse ideal, ao mesmo tempo uno e diverso, é que constitui a parte básica da educação”, e ele possui como objetivo desenvolver na criança aspectos, não só físicos como mentais, que tal sociedade almeja para seu povo. Os próprios grupos também exigem características que acreditam ser indispensáveis para quem dele participe. “A educação não é, pois, para a sociedade, senão o meio pelo qual ela prepara, no íntimo das crianças, as condições essenciais da própria existência” e ela abarca, de uma só vez, questões regionais e outras mais globais, ou seja, questões múltiplas e iguais ao mesmo tempo. Nota-se aí, a importância que Émile Durkheim dá à educação.

O autor chega a conclusão de que a educação se estrutura numa “socialização metódica das novas gerações”. Ela entalha o indivíduo no coletivo, prepara-o para uma vida em coletividade. Faz no ser uma certa pressão para anexar tais hábitos em seu dia a dia, e isso não é espontâneo, posto que espontaneamente o homem não respeitaria a disciplina moral. “Foi a própria sociedade, na medida de sua formação e consolidação, que tirou de seu próprio seio essas grandes forças morais, diante das quais o homem sente a sua fraqueza e inferioridade”. Lapida-se o indivíduo, que nasce “egoísta” e “associal”, para viver em sociedade. No meio animal a hereditariedade se destaca, visto que o animal não tem muito que aprender de diferente, o que não acontece com o homem. Este recebe sim influências familiares, tais como a capacidade de atenção, certa dose de perseverança, o juízo são e a capacidade imaginativa, mas a influência coletiva acaba se expressando com maior facilidade, o que torna a formação do indivíduo mais rápida.

Podemos enxergar diferença de aprendizado entre uma pessoa que foi socializada e outra que não, como no caso do “menino selvagem”. “O homem não é humano senão porque vive em sociedade”, Durkheim prova isso quando demonstra como a sociedade está na formação de nossos valores, nossos hábitos, nossas regras, etc. Acredita que mesmo aquilo que o homem almeja ser, vai de encontro com o que a sociedade reflete, de acordo com o que é necessário para ela. O indivíduo pode possuir pensamento autônomo ou não, isso depende mais do que a sociedade pede naquele período, pois a educação satisfaz necessidades sociais.

A sociedade está sempre em evolução. “A sabedoria humana vai sendo acumulada e revista, dia a dia, e essa acumulação indefinida que eleva o homem acima do animal e de si mesmo”. Para que o legado de cada geração possa ser conservado e acrescido, será preciso que exista uma entidade moral duradoura. Como exemplo tem-se a linguagem. Rousseau, ao falar da formação da linguagem, defende a importância da sociedade para a concretização dessa e mesmo sua conservação e desenvolvimento a cada geração. Nesse contexto, o Estado deve prover condições adequadas para que crianças e adolescentes tenham oportunidade de se socializarem dessa forma, mas quem de fato escolheria, seria o pai. E devido a importância da educação para a sociedade, seria praticamente impossível o Estado não se preocupar com ela, visto que apresenta uma função coletiva de adaptar as crianças ao meio social. Pelo que vemos é mais uma preocupação com a socialização do que uma questão de controle da educação. “Se a sociedade não estiver sempre presente e vigilante, para obrigar a ação pedagógica a exercer-se em sentido social, essa se porá ao serviço de interesses particulares e a grande alma da pátria se dividirá”. Com tal fiscalização do Estado, Durkheim não vê problemas em se desenvolver uma educação que não advenha do próprio Estado, entretanto essas escolas devem assegurar a comunhão de ideias e sentimentos espontâneos criados pela própria sociedade. E também os mestres devem ser neutros, de modo que não influenciem os alunos com seus interesses individuais.

Para Durkheim a educação não é o primeiro fator a caracterizar o ser humano, pois quando se educa o indivíduo, o educador não vai encontrá-lo despossuído de conceitos, “Ela se aplica a condições que se encontram na criança”. Pois isso advém das próprias questões orgânicas da criança. E quanto mais se molda a mente da criança, colocando objetivos definidos, mais difícil se torna a tarefa de educá-la.

Sob a condição de ultrapassar a natureza individual é que se embasa a natureza do homem, e a educação deve auxiliar em tal labor. E para isso “a autoridade moral é qualidade essencial do educador”. Para exercer tal autoridade o mestre deve ter vontade, “Porque a autoridade implica a confiança, e a criança não pode manifestar confiança em quem vê hesitar, tergiversar, voltar sobre suas decisões”. E isso não se confunde ao temor do castigo “o temor do castigo é coisa diversa do respeito à autoridade”. E ele deve também sentir que há autoridade, e isso vem dele, o que poderia ajudá-lo seria pensar na “missão que lhe cabe e na grandeza de sua missão”. Não deve levar a autoridade com orgulho, vaidade nem pedantismo, mas sim com respeito à função como também aos próprios alunos, pois esse pensamento acaba sendo transmitido à criança. E a autoridade não é o oposto da liberdade, pois “é justamente com o objetivo de adotar a criança desse domínio de si mesma que a autoridade do mestre deve ser empregada”.

Bibliografia:

DURKHEIM, E. “Capítulo I – A Educação, a sua Natureza e o seu Papel” in Educação e Sociologia.

RODRIGUES, J. A. (org) Durkheim: Sociologia. Ed. Ática (Coleção Grandes Cientistas Sociais).DURKHEIM, E. “As Regras do Método Sociológico” in Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. Vol. XXXIII.

 

O filme Adeus, meninos (1987) nos expõe o que aconteceu na França – mais precisamente dentro de uma escola católica destinada a meninos representantes da classe burguesa perto de Fontainebleau, França – no período da invasão alemã em busca de judeus (1943). Faziam isso com o intuito de eliminar o foco cultural de submissão e fraqueza encontrada nos judeus. O produtor do filme (Louis Malle), em verdade, é o futuro do personagem Julien Quentin, que no filme tem doze anos de idade. Era considerado um dos alunos mais inteligentes da sala e possuía grande influência dentro do mundo das crianças1. Após seu período de férias, mantém contato com um garoto judeu, Jean Bonét, que está refugiado nessa escola. Este garoto era estudioso e se destacava em matemática, música e redação. No desenvolver do filme, os nazistas descobrem três judeus nessa escola católica através de informantes e, tanto o padre diretor como os judeus encontrados, são levados e mortos. Após aproximadamente quarenta anos desse acontecimento, o produtor faz um filme contando essa parte traumática do seu passado.

A proposta deste texto é a partir do filme Adeus, meninos dialogar com Hannah Arendt no que concerne à sua visão de educação. E esse diálogo pode nos ajudar a pensar a questão sob uma perspectiva sociológica. Eu arriscaria pensar na sociologia com um papel de ensinar o mundo tal qual ele é, pois para Arendt o educador é um representante do mundo, assim a mudança vem do elemento novo, da nova geração. O professor não deve ensinar como mudar o mundo, o elemento novo deve trazer essa possibilidade de transformação. Dessa forma a educação se realiza para a política, o que é diferente de assumir uma educação política.

Segundo Niedson Rodrigues (Rodrigues, 2003), haveria no filme uma situação negativa com um discurso positivo. Pois o ambiente era hostil, representava o horror, mas a mensagem para não nos esquecermos do passado e saber utilizá-lo com a finalidade de suprimir momentos – como aquele – do nosso meio, era positiva. Só gostaria de fazer um breve comentário antes de entrar no que foi minha proposta no parágrafo anterior, o que é visto como positivo aqui também pode ser pensado na chave do livro Educação e Emancipação de Adorno. Nessa obra ele coloca um aprendizado pela experiência por uma conscientização e esclarecimento. Assim a educação tem um papel político de combater a barbárie. Para que Auschwitz não se repita é o princípio primeiro de toda educação.

Hannah Arendt, em A Crise na Educação, escreve sobre uma crise global em que cada espaço poderia ter expressado essa crise de diferentes formas. Na América, essa expressão seria pela educação, a qual as autoridades educacionais estariam se esforçando para eliminar. Pauta sua análise na educação dos Estados Unidos, mas, como veremos, sua concepção se aplica no filme de maneira cabal. Hannah Arendt argumenta que o problema de um país poderia ser o de outro, principalmente quando falamos sobre educação. Afim de uma compreensão do filme a partir de uma perspectiva hannarendtiana, ilustraremos de maneira resumida o seu pensamento objetivado, por assim dizer, no mesmo.

A educação, para ela, deve ser voltada para a criança, que é o próprio objeto da educação: ser humano em processo de formação. A criança não pode ser tratada como madura, assim como o adulto não mais deve ser educado. Dessa forma, a educação não se aplica aos adultos, pois esses já passaram pelo momento de formação, o que pertence ao adulto é a política: quem faz política é aquele já educado. Uma pessoa pode aprender sem ser educada, mas uma criança que é educada necessita de um aprendizado, caso contrário a educação mostra-se vazia. A educação é diferente da especialização, pois a pessoa que está se especializando nada mais faz do que se adequar a uma determinada ação, dentro já do mundo dos homens. Sendo assim, a especialização não é uma educação. A educação faz com que a criança se adeque ao mundo dos homens, saia do seu mundo (mundo das crianças) para adentrar num ambiente que até então era desconhecido em essência por ela, visto que fora protegida, teoricamente, pela família. Essa proteção é necessária porque a criança ainda está no seu momento de formação. A escola tem como função “ensinar às crianças como o mundo é” (Arendt, 2005, p.246). Ela é uma intermediária entre o mundo da criança e o mundo do adulto. A transição feita pela escola é mais branda do que a criança ser colocada de frente com a outra realidade. O professor é visto como aquele que apresenta às crianças o mundo dos homens2. “Tudo que vive (…) emerge das trevas, e, por mais forte que seja sua tendência natural a orientar-se para a luz, mesmo assim precisa de segurança da escuridão para poder crescer” (Arendt, 2005, p.236).

Conseguimos, pois, enxergar esses pontos no filme. Há o afastamento de Julien da sua mãe no início do filme – afastamento esse que representa o distanciamento da família. Ele vai para a escola: local de transição entre o ambiente familiar (proteção) para o mundo dos homens. Na escola encontra professores que não apenas revelam o conhecimento do passado, do que já fora desenvolvido pelo homem até então, como também falam da situação presente do mundo – invasão da Alemanha na França e o movimento feito pelo exército no território francês. Os professores tratam as crianças com seriedade, o que auxilia na transição da criança para o mundo dos homens. Percebamos que não há a especialização das crianças nessa escola, mas sim que estão desenvolvendo a mente delas, com um prisma bem amplo, como é o caso de ter música na grade escolar. Na escola há uma educação com ensino e não apenas um ensino, pois mostram também como o mundo é. Há, porém, dentro do ambiente escolar, o contato das crianças com o mundo dos homens, pois a tropa nazista entra na escola em busca de judeus. Nesse momento, encontramos a união entre os alunos, pois não delataram seus amigos judeus, mesmo com medo da situação. Por mais que não estivessem prontas para se defender do inimigo souberam agir perante ele. Esse encontro direto com o mundo dos homens ficou marcado na vida daquelas pessoas.

Para Hannah Arendt, há uma separação entre o mundo da criança e o mundo dos adultos. O mundo da criança é um ambiente no qual existem leis e os adultos interferem – mas de modo relativamente impotente –, composta por uma autoridade mais forte e tirânica do que a sociedade do homem. Essa tirania se dá através da ditadura da maioria e a criança não tem muito para onde correr. No filme isso fica claro quando as crianças maltratam Bonét. Este não tem muito que fazer em relação à coerção exercida pelos seus companheiros de quarto. Julien possui bastante influência nesse ambiente, entre as crianças da sua idade.

O mundo do homem está relacionado com o a política, um ambiente no qual os debates se instalam, local que é também, por assim dizer, externo ao meio familiar. Arendt defende que a separação entre esses dois mundos apresentados não seja muito tangível, feito por um fino liame. Isso acontece no filme e é diferente do que ocorre nos EUA, no momento em que Arendt escreveu A Crise na Educação. Essa barreira entre os dois mundos é artificial, visto que o ser humano está em desenvolvimento; nos EUA não percebiam isso, no texto de Arendt, enquanto os professores do filme possuem essa concepção. Pois estes querem formar pessoas que entendem a concepção de liberdade, assim como também saber utilizá-la, objetivam formar os cidadãos do amanhã. E passam o conhecimento adquirido pela humanidade, até então, para os alunos.

Existe no filme outros pontos que Hannah Arendt poderia enxergar com bons olhos ao analisar aquela escola. Os professores colocam o conhecimento acima da vocação, não se prendem ao pragmatismo encontrado nos Estados Unidos por Arendt. Enquanto a preocupação dos professores no filme é com o conhecimento, na América se apegavam à técnica, estavam preocupados em passar a técnica aos alunos. E essa preocupação com a forma e não o conteúdo auxiliava na crise da educação, pois não havia aí a valorização do passado, como também não havia, graças a isso, a autoridade do professor. Dessa forma, o passado não era tão desenvolvido pelos últimos e Hannah Arendt considera a tradição – o conhecimento do passado – como elementar para a educação. Se nos Estados Unidos havia uma crise na educação por, entre outros motivos, falta de autoridade do professor, na escola do filme a autoridade do professor se dava pelo conhecimento – professor e alunos como contempladores do conhecimento – e, por valorizarem o passado, respeitavam-no. O professor era visto como um companheiro que olhava para o passado junto com seus alunos. A criança continuaria aquele mundo construído por seus antepassados, por mais que houvessem transformações, pois havia o contato entre o mundo das crianças e o dos adultos. Na América esse contato era difícil pelo fato de existir uma barreira maior entre o mundo da criança e do adulto.

Podemos constatar, pois, que muito do que Hannah Arendt considera como positivo na educação, está contemplado no filme Adeus, meninos. Mas afirma que a educação não deve voltar a ser daquela forma, não deve “regredir”, mas desenvolver uma teoria nova capaz de exercer aquilo que Hannah Arendt considera como sua função. E dado que o mundo está em constante transformação, a educação também deve estar.

O filme termina com o contato do ambiente escolar com o mundo dos homens. Fica claro, nesse momento, a representação da França através daquela microestrutura (escola). Ali havia conflitos entre classes – judeus e classe burguesa no núcleo das crianças, assim como conflito entre burguesia e classe subalterna, como no caso do garoto que trabalhava na escola e era humilhado pelas crianças. E também conflito entre o meio externo (Alemanha) e o interno (França) – pois a escola representaria a França enquanto o exército a Alemanha. Havia também a representação do Estado pela escola – embora não sendo constituinte da classe burguesa, os padres acabavam, em última instância, defendendo as crianças da classe subalterna3.

Havia delatores dentro da própria escola, mas o produtor do longa-metragem não expressa seu juízo de valor sobre quem está certo ou está errado naquela situação. Muitas vezes não conseguimos atinar se nossa ação é certa ou errada no momento da ação, mas sim após ela. Conforme salienta Neidson Rodrigues, o filme faz com que não tenhamos nosso passado como algo sem valor, mas que possamos aprender com ele e fazer com que, momentos como esse vivido pelo produtor, não voltem a se repetir. “Deve ser compreendido como um eloquente discurso contra o esquecimento que aliena os homens de sua responsabilidade no passado e os perdoa, previamente, da responsabilidade para com o futuro” (Rodrigues, 2003, p.47). A escola representava uma resistência para o posicionamento do Estado francês frente aos nazistas, mas acaba fechada após encontrarem judeus lá dentro.

Referência Audiovisual

Malle, Louis. Adeus, meninos (Au Revoir les Enfants). Alemanha: 1987.

Referências Bibliográficas

ADORNO, T. W. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

ARENDT, Hannah. A crise na Educação in: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005. 5ª ed.

RODRIGUES, Niedson. Adeus, meninos: um discurso contra o esquecimento. In: Teixeira, Inês Assunção de Castro e Lopes, José de Sousa Miguel. In: A escola vai ao cinema. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. 2ªed.

1Esse conceito, assim como o de mundo dos homens, será desenvolvido no decorrer da dissertação.

2Isso porque ele demonstra as leis dos homens através das regras postas mesmo dentro da sala de aula. Deve tratar a criança com mais seriedade do que ela é geralmente tratada no seu mundo. Ao mesmo tempo, o professor protege os alunos do contato mais direto com o mundo dos homens. Após esse período escolar a inserção da criança seria mais simplificada.

3Mas, nesse momento, devemos considerar os judeus, por serem alunos, como parte integrante dessa “elite”. Dessa forma a classe em dominante em si seria a dos alunos e o rapaz que fora mandado embora a classe dominada. O Estado defenderia, em última instância, a classedominante.