Author Archive for: Flavio

Uma proposta de método a partir da Fenomenologia e conceito de mundo da vida de Schutz, e as teorias de alcance médio de Merton.

Schutz foi um sociólogo muito influente no desenvolvimento da disciplina nos Estados Unidos, seguidor da corrente fenomenológica, que estuda a forma experiencial (ou sensorial) dos eventos.

Muito de seus escritos se dirigem à consolidação da corrente fenomenológica e teorização da percepção dos fenômenos pelas pessoas, ou seja, como as pessoas percebem os fenômenos e como a sua experiência em relação a eles da base a toda a sua construção de mundo e percepção. Schutz deixava claro que era necessário tomar consciência do centralismo do eu para poder iniciar uma tentativa de compreensão mais ampla do cenário social, e essa consciência, assim como as experiências, era obtida dentro de um espaço a que Schutz chamou “Mundo da vida”.

O Mundo da vida é o espaço onde vivem os indivíduos. Diferente do espaço cientifico ou o mundo das idéias, este mundo da vida é habitual e sensível (perceptível), e carrega um conhecimento que lhe é próprio, o conhecimento de sentido comum.

O conhecimento de sentido comum é prático (aplicável, permite que aqueles que o possuem o operem e tomem decisões apoiados nele), significativo (possui determinações e lógica própria, carrega significado) e intersubjetivo (é construído por sobre as consciências individuais, uma biblioteca onde os livros só são escritos se entendidos de maneira semelhantes por vários indivíduos.)

Para se perceber um problema ou fenômeno social, é preciso primeiro tomar a consciência do centralismo do eu nas experiências de vida diária, e perceber que inclusive as experiências que os outros vivem absorvemos com base na absorção prévia que realizamos dessa experiência ou de experiências parecidas. É preciso colocar-se no lugar do ator e romper com a atitude natural. Isso significa questionar a naturalidade dos eventos e ações que experimentos em nosso dia a dia.

A proposta é fazer os alunos romperem com a atitude natural, tentar entender o que não é explícito, mas mesmo assim gera efeito. É provocá-los, no sentido de perceber o que está acontecendo no mundo ao redor que só se percebe quando se olha com atenção.

Desta maneira, tenta-se trazer à sala de aula os problemas e tensões que os alunos encontram em suas próprias vidas e relações diárias, para que eles entendam que existe a possibilidade de se apreender esses fenômenos e identificá-los.

Esse é um bom caminho para identificar um problema, ou um contraste, uma tensão. Mas, fora evidenciá-lo, não nos entrega muitas ferramentas para operá-lo. Nesse momento, entra Merton e as teorias de alcance médio.

Merton é um escritor também importante no cenário norte-americano da Sociologia, um dos maiores representantes do funcionalismo, corrente que tenta identificar os itens, eventos e ações dentro do mundo social que cumprem determinadas funções que permitem que o mundo social siga existindo.

Também é reconhecido pela importância que dava ao que chamou de “teorias de alcance médio”. Trata-se de teorias dentro da Sociologia que não necessariamente explicam todos ou qualquer fenômeno universal nas constituições sociais, tampouco resolvem problemas para além daqueles a que se propõe desde início (o que em outras ciências pode ser chamado unicamente de teoria), mas que podem ser observadas e testar paradigmas de teorias universalistas, justificando-as ou refutando-as.

Assim, depois de identificar um problema a partir do modelo de Schutz, poderíamos teorizar sobre suas consequências, funções e determinações a partir de uma teoria de alcance médio a ser construída com os alunos e, a partir dela, apresentar paradigmas maiores e teorias mais generalizantes como as de Weber e Marx. Por exemplo, depois de encontrar um problema no mundo do trabalho e teorizar sobre as origens e consequências de determinado efeito, pode-se encaminhar a discussão para a nomeação dos efeitos e eventos encontrados (como a alienação do trabalho, a mais valia, ou até mesmo a ética do trabalho ou status), levando os alunos a reflexionar e se apropriar melhor de conceitos abstratos das grandes teorias a partir da experiência (fenomênica) de sua pesquisa ou identificação dos problemas.

Esse método de ensino de Sociologia pode se adequar aos mais distintos projetos de disciplina, assim como as diversas obrigações curriculares. Ele permite o ensinamento de conceitos importantes junto com o desenvolvimento de um tipo de pensar próprio da Sociologia, além de familiarizar os alunos com metodologias utilizadas para a construção do saber sociológico.

 

Referências

 Social theory and social structure

RK Merton – 1968

Schütz… – 1980

O Educador Profissional e o Cotidiano Escolar

http://lucimaramaia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=20&Itemid=8

Alfred Schutz

http://plato.stanford.edu/entries/schutz/

Alfred schutz e o mundo social interpretado, Tomás A. da costa Batista, UFRJ, 2009

 

 

No já movimentado cenário do ensino público paulista – que já recebe críticas quanto a sua adequação a realidade dos alunos ou sua capacidade de operacionalizar conhecimentos relevantes, um novo elemento entra em cena trazendo seus próprios problemas e conflitos.

O ensino de Sociologia no Ensino Médio coloca na discussão vários problemas da Sociologia que, basicamente, podem ser divididos entre problemas da Sociologia como ciência e como disciplina escolar.

Como ciência, acrescenta à instável mistura do sistema de ensino indagações quanto a operacionalidade dos conhecimentos produzidos, sobre qual seu objeto específico e sua diferenciação com outras ciências humanas e quais são suas bases e ferramentas. Ou seja, o que é Sociologia e por que ela cabe (ou deveria caber) no currículo do Ensino Médio.

Como disciplina escolar, traz discussões acerca de disputas teóricas sobre os temas a serem tratados em sala de aula, métodos e práticas de ensino (em contraste com os métodos e práticas da Sociologia em si), vertentes teóricas e qual a abordagem adequada a ser tomada.

Grande parte das discussões do ensino de Sociologia trata dos problemas de conteúdo, método e abordagem como um problema que será sempre político e/ou ideológico. Isso significa que o direcionamento da disciplina não será obrigatoriamente pautado por uma ética científica ou necessidade do aluno, mas, sim, que vai depender da resultante das forças concorrentes no espaço público, estâncias deliberantes e subjetividade do professor além do próprio mundo da Sociologia em si.

Conteúdos e métodos devem ser pensados em suas próprias lógicas, assim como a abordagem, destacando que cada um deles constitui um problema particular, que deve ser direcionado pelo professor, caso este queira ter controle sobre as finalidades de suas aulas.

Quanto do conteúdo, as indagações variam entre cumprir as obrigatoriedades curriculares, ou a busca da construção de um conhecimento mais relevante para a realidade ímpar de cada grupo (ou grupos) de alunos, considerando suas determinações econômicas, geográficas, etc…

Quanto da abordagem, que diz respeito à forma como o conteúdo será apresentado ou escolhido, o problema vai de encontro à seleção parcial de conteúdos e métodos disponíveis para a apresentação da disciplina, o que pode ser utilizado tanto para a melhor compreensão de aspectos específicos de um determinado problema como também camuflar problemáticas outras que ficam obscurecidas dependendo do enfoque.

Sobre o método, precisamos indagar se a Sociologia possui um próprio ou um apropriado. Existe método de outra ciência que não a própria Sociologia que permita apresentar melhor as nuances do pensamento sociológico em um ambiente de ensino de Sociologia? Caso não exista, qual o método adequado para apresentar a disciplina? Se ele existe, qual é e como ele é trabalhado para que não descaracterize a Sociologia como disciplina em si e a apresente apenas a partir da aproximação de alguma outra disciplina?

Logo, dentro do ensino de Sociologia quase tudo está aberto para a discussão, não apenas as informações que vão constituir o portfólio da Sociologia, mas também as técnicas de apresentação e construção do pensamento sociológico dentro de um contexto de Ensino Médio.

A questão aqui se torna, então, tentar tornar possível definir e apresentar o objeto específico da Sociologia, e também encontrar um meio de apresentar e definir o método sociológico para os alunos de Ensino Médio. Mas essas demonstrações e apresentações devem manter o que é próprio da Sociologia, mesmo quando se utilize da linguagem e estruturas de outras disciplinas já presentes no Ensino Médio (como História e Filosofia) para se apresentar familiar aos alunos, e não causar um primeiro estranhamento, para que a Sociologia não se descaracterize e se transforme ou em uma aula de História da Sociologia ou de história da ciência do século XX.

O primeiro desafio é trazer à compreensão dos alunos quais objetos são próprios da Sociologia e como se pode distinguir entre eles e os que pertencem a outras Ciências Sociais e campos de estudo. É preciso dizer do que trata a Sociologia ou apontar o que a Sociologia já tratou em seu percurso científico.

Mesmo com essas direções apontadas, muitos outros problemas se mantêm também muito importantes para a definição das configurações da disciplina de Sociologia. Por exemplo, quais são as necessidades que levam a inclusão da disciplina nos currículos do Ensino Médio? Indagar-se sobre isso é indagar-se sobre qual é o verdadeiro papel de um professor de Sociologia.

Seriam elas necessidades mercadológicas? A preparação para o trabalho com as Ciências Sociais aplicadas (como Administração, Gestão de Recursos Humanos, Engenharia de Produção, etc.), e familiarização com temas e abordagens do mundo social permitiriam uma maior conformidade com documentos divulgados e pesquisas realizadas, transformaria o aluno em um futuro funcionário mais bem preparado para um mercado de trabalho cada vez mais diversificado e múltiplo.

Seria uma necessidade acadêmica de preparar melhor os alunos para tratarem da Sociologia como ciência, além de permitir um primeiro contato com os conhecimentos construídos e alavancar a base e preparação de futuros profissionais e acadêmicos?

Ou a necessidade de valorização simbólica da escola pública aumentando e diversificando o currículo, alegando uma modernização ao somar uma disciplina oriunda de uma ciência jovem nascida no século XX?

Ou até mesmo uma necessidade humanística emancipadora de compreensão de realidade social e da própria vida experimentada por cada um, tendo em vista a melhora da qualidade de vida dos alunos, ou uma melhor percepção das condições objetivas desta?

Apesar de ser importante perceber que as motivações podem ser múltiplas, é muito mais vital que o professor de Sociologia encontre a sua motivação e a tenha clara, para que desse modo a discussão das direções da disciplina e as escolhas feitas para ela sejam mais francas e constituam um orientador da conduta do professor.

Uma vez claros os objetos e entendida a motivação definimos, então, os conteúdos e abordagens do ensino de Sociologia, o que vai definir também a origem dos conteúdos (se esses vão sair das vidas dos alunos ou das grandes teorias), mas continuamos fracos em relação ao método a ser aplicado.

O método será então a resultante dos conteúdos escolhidos casados com as motivações (lembrando que essas últimas exercem mais influência que determinação, podendo inclusive caracterizar-se por mais de uma direção), e poderá ser retirado de qualquer vertente reconhecidamente sociológica, ou de ciências similares que se prezem ao estudo e compreensão de aspectos da vida humana em sociedade. Aqui, o cuidado só é necessário para escolher um método que seja coerente com as outras escolhas que faz o professor.

Apesar de todo caminho que percorremos até aqui, é importante lembrar que o professor de Sociologia não está assim tão livre de amarras e pode escolher todas as definições de seu trabalho. Ele está, e sempre estará, preso a determinações curriculares, ou planos pedagógicos, ou outros instrumentos de controle e padronização do ensino. Um professor de Sociologia e um sociólogo se diferenciam, e devem se diferenciar, pelo que priorizam: o primeiro o ensino e aprendizagem condizentes com uma determinada escolha pedagógico-científica; o outro, pela produção de conhecimento apoiado nas escolhas teóricas e verificações empíricas que ache pertinente.

O ponto aqui é, então, além de abrir caminho para uma sugestão de método que apresentarei a seguir, levantar os pontos aos quais um professor de Sociologia deve estar atento, permitir a tomada de consciência de quais as escolhas que estão sendo tomadas e permitir uma reflexão a cerca das consequências que ela pode ter. É preciso entender que, ao se direcionar ao mundo escolar, os profissionais envolvidos com a Sociologia precisam repensar a sua postura profissional, precisam transformar-se antes de qualquer coisa em professores e, a partir daí, sim, fazer as escolhas necessárias para o desenvolvimento e aplicação da disciplina.

 

Referências:

[PDF] de ufsc.brRP Castro – Perspectiva, 2009 – journal.ufsc.br

Handfas, A. e De Oliveira, L.F. (ORG) A sociologia vai à escola: Historia, Ensino e Docência, Rio de janeiro 2009,

Bridi, M.A.; Araújo, S.M.; Motim, B.L; Ensinar e aprender Sociologia no ensino médio, Rio de janeiro, 2oo9. Parte I, II e III