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E o professor?

Como havia dito em post publicado sobre a evasão escolar, penso que a escola deve ouvir o aluno. Contudo, como indiquei anteriormente a escola costuma ouvir os alunos através do ouvido dos professores, isto é algo significativo em tempos de racionalização do processo de produção. Em meados dos anos 90, o Ensino Básico sofreu reformas de ordem organizacional e administrativa, para o professor isto representou uma intensificação do trabalho.

Dalila Andrade de Oliveira em A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização expõe que o professor hoje trabalha em meio a articulações com áreas que fogem da sua formação inicial. Assim:

“Muitas vezes esses profissionais são obrigados a desempenhar funções de agente público, assistente social, enfermeiro, psicólogo, entre outras. Tais exigências contribuem para um sentimento de desprofissionalização, de perda de identidade profissional, da constatação de que ensinar às vezes não é o mais importante” (OLIVEIRA, 2004, p. 1132).

Diante da questão da evasão escolar, por exemplo, o professor enfrenta problemas que não são necessariamente de sua competência. Contudo, sua atividade é reordenada pela ausência dos alunos e eventos como o da atuação da PM no ‘resgate’ dos faltantes alteram o ambiente escolar. O professor muda as estratégias das aulas porque falar do planejado naquele momento não é pertinente, as interações ensino e aprendizagem já são outras, os alunos já não interessados em ouvir, mas em falar.

Em parte os Cadernos do Professor e Aluno distribuídos pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, auxiliam no planejamento das aulas, as propostas já estão colocadas no Caderno. A dificuldade reside em cumprir bem e inteiramente o conteúdo Caderno devido a outras questões. Uma vez que um aluno desinteressado ou mesmo com dificuldade de compreensão dos conteúdos escolares se encontra em sala de aula sem querer, do ponto de vista do professor ele será o tal do aluno ‘problemático’. E quem irá conversar com este aluno e ajudá-lo? Os próprios professores numa intermediação com a direção da escola, alertando família ou qualquer responsável do adolescente.

A sobrecarga ao trabalho docente é grande porque ele é responsabilizado pelo êxito ou insucesso dos alunos em provas como o SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) que avaliam o aprendizado dos alunos dos conteúdos referentes aos Cadernos. Neste sentido, Oliveira (2004) aponta a proletarização do trabalho do professor que deixa de ter um controle e autonomia já que é cobrado a respeito do ensino e aprendizagem das competências e conteúdos tidos como indispensáveis ao mundo contemporâneo. A escola incorpora um discurso empresarial, a elaboração do currículo escolar torna-se praticamente um ‘plano de metas’, o qual cabe ao professor cumprir.

Os bônus recebidos pelas escolas que alcançam as metas estipuladas pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo são em forma de um ganho no salário do professor. Porém, pensando no trabalho docente que é obviamente um trabalho remunerado, o bônus não significa necessariamente que os professores das escolas premiadas trabalharam mais ou melhor do que os das escolas não premiadas. O ambiente escolar é diferente de escola para escola e as dificuldades do ensino-aprendizagem também, o professor pode sentir-se desmotivado diante de um trabalho o qual não gera resultados tão visíveis como na prova do SARESP.

É notável uma desprofissionalização do trabalho docente (Oliveira, 2004). No sentido de que ao mesmo tempo em que o trabalho ganha uma abrangência revestida em uma idéia de Educação “como principal meio de distribuição de renda e garantia de mobilidade social” (OLIVEIRA, 2004, p. 1130). Não se sabe mais qual é a função exatamente do professor, decorrência em parte de uma nova reestruturação produtiva fundamentada em um uma ideologia Neoliberal de Estado mínimo através da qual se implanta uma precarização geral do trabalho mesmo entre os ‘estáveis’ (funcionários públicos como os professores).

Referências

OLIVEIRA, Dalila Andrade. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. In: Educação e Sociedade. Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1127-1144, Set./Dez. 2004.

Evasão escolar

Sábado (dia 26) saiu uma reportagem na Folha de São Paulo a respeito de uma força-tarefa que tomou dois parques do Itaim Paulista em busca de alunos que matavam aulas ou consumiam drogas. Nesta ação havia funcionários da Prefeitura de São Paulo, policiais militares, guardas-civis e conselheiros tutelares, todos os adolescentes presentes nos parques foram abordados, de forma que tiveram seus dados anotados e foram revistados. A medida é uma maneira de conter a evasão escolar de acordo com o Conselho Tutelar.

A idade dos adolescentes variava entre 11 a 28 anos, apesar de que houve um menino de 9 anos encontrado no parque Santa Amélia que segundo a reportagem tremia e não conseguia falar de medo. No parque Chico Mendes, dois garotos portavam maconha e foram encaminhados a delegacia, um era maior e o outro menor de idade. Havia ainda 23 meninas e 25 meninos no parque Chico Mendes, devido a falta de espaço no carro só as meninas foram levadas de volta a escola, os meninos foram liberados. No Santa Amélia, o grupo era menor, cerca de 20 meninos e meninas, quatro estavam cabulando e foram levados para onde estudavam, a Escola Estadual República da Guatemala.

Para Diego Vale de Medeiros, coordenador do núcleo da infância e juventude da Defensoria de SP, a ação é ilegal: “pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, medidas coercitivas só podem ser empregadas quando o adolescente comete ato infracional”. A ação fere o direito de ir e vir, contudo o Conselho Tutelar disse que consultou a Vara da Infância e da Juventude. A questão problemática: é o que fazer para manter os alunos dentro da escola?

Eu acredito particularmente que a ação da polícia na força-tarefa foi positiva, a evasão escolar é algo que os Conselhos Tutelares juntamente com os pais dos alunos não estão conseguindo solucionar. Os alunos sabem das regras da escola, sabem que não devem faltar que existe um limite de faltas, os professores alertam-os sobre isto. A reprovação não me parece ser uma punição da qual os alunos temam, sei que um aluno dentro da sala de aula sem querer é problemático, ele se torna um problema para o professor na sua tarefa de ensinar. Contudo, é preciso salientar que a escola não é uma escolha para ninguém, o Estado brasileiro obriga à todos em idade escolar a frequentar o ensino regular (Fundamental I e II). Então, como deixar que o aluno escolha se ele vai para a aula ou para o parque? Os alunos de Ensino Médio fazem uma escolha de cursar o Ensino Médio ou não, aceitar cursar significa ir na escola, frequentar as aulas e ser avaliado. Caso, ele não esteja disposto a fazer isto, ele pode simplesmente deixar de cursar o Ensino Médio.

A professora da PUC-SP da área de Educação entrevistada pela Folha, Regina Denigres, reiterou que o uso da polícia na escola é um absurdo: “a polícia é para casos de assassinatos na escola. É um absurdo chamá-la para recolher aluno que está fora da sala. Ações como essa são a falência da escola”. Ela aponta que a escola “precisa ter espaços para ouvir o aluno, ela precisa ser atraente. Se o modelo tradicional de ensino não dá mais conta, é preciso pensar em outros”. Eu acredito que a TV, os shopping centers e a internet são atrativos a adolescentes, tornar a ‘escola atrativa’ é algo ainda para mim não é muito paupável, ora parecer que trazer recursos tecnólogicos é uma maneira de tornar a escola atrativa, talvez seja.

A via dos espaços para ouvir o aluno é algo importante, o professor é aquele quem geralmente ouve o aluno, contudo o professor lida com vários alunos. O modelo tradicional, eu compreendo como falido, os alunos apontam isto ao não frequentar, reordenar o espaço da sala de aula, ora juntado carteiras ora separando, fazendo ‘panelinhas’ na sala. Contudo, os novos modelos e reformas escolares não me parece que é algo ‘para amanhã’, esta discussão toma tempo e põe em xeque posições arraigadas da instituição escolar. Enquanto isto, como futura professora acredito que devemos reafirmar as velhas regras do jogo escolar: presença e atenção dos alunos.

Consensualmente, o sucesso escolar tem dependido dos investimentos familiares em relação à escola e aos filhos. Nos Estados Unidos há toda uma promoção do envolvimento dos pais na Educação, salienta-se muito “a importância das características familiares (em detrimento dos recursos financeiros escolares) na explicação do aproveitamento escolar inferior das minorias étnicas” (CARVALHO, 2000, p. 145).

A família acaba por ser responsabilizada pelo sucesso ou insucesso escolar, contudo, há um modelo ideal de família subjacente a este discurso, composta por pai, mãe e filhos. Nos Estados Unidos desde a década de 60, com o famoso Relatório Coleman, promovem-se estudos sobre a parceria família-escola. Em 1982, a Associação Americana de Pesquisa Educacional (AERA) cria o grupo Famílias como Educadoras com o objetivo de compreender relações casa-escola de apoio ao desenvolvimento escolar.

A pesquisa científica fomentou uma série de políticas públicas de envolvimento familiar para com a Educação. Mas Maria Eulina Pessoa de Carvalho aponta que o discurso dito científico, também é ideológico.

“O envolvimento dos pais não pode ser facilmente isolado e medido como uma variável (Lazar, Darlington, 1978) ou conclusivamente apontado como benéfico para o aproveitamento escolar (White, Taylor, Moss, 1992), o argumento (pretensamente científico) a seu favor afigura-se claramente ideológico” (CARVALHO, 2000, p. 145).

A reprodução do discurso da importância da família para um bom desempenho escolar é freqüente e vem ampliando seu limite focado anteriormente na educação infantil perpassa agora a educação de adolescentes. Recorre-se a família principalmente como uma estratégia de controle da indisciplina e delinqüência juvenil.

O dever de casa nos Estados Unidos é um exemplo de proposta de redefinição do lar como uma extensão da sala de aula. Este corresponde a uma boa porcentagem da nota do aluno, com uma perspectiva de interação entre pais e filhos, aquilo que a criança não entendeu em vez de recorrer ao professor recorre aos pais, há questões que exigem que o aluno pergunte a alguém a respeito de História, outras questões envolvem aplicação de Matemática e Ciências na preparação do jantar.

No Brasil existe uma tradição do dever de casa em parte devido à jornada letiva escolar ser curta, contudo, não é em todas as escolas que o dever de casa é eficaz, no sentido, de que em certas escolas os alunos não aderem a isto, simplesmente não fazem o dever. Apesar disso, o Banco Mundial por meio dos financiamentos a Educação que vem promovendo, assinala “a necessidade do apoio dos pais e da comunidade, bem como da maior freqüência dos deveres de casa, como fatores determinantes da eficácia escolar” (CARVALHO, 2000, p. 147).

Maria Eulina Pessoa de Carvalho problematiza uma questão gênero latente nestas políticas educacionais. O modelo de família esperado pela escola é basicamente patriarcal, e incide sobre a mãe dever de estar presente na escola e acompanhar o desenvolvimento escolar dos filhos (principalmente, de crianças da educação infantil).

“Para os pais (sobretudo para as mães) e para a vida familiar, essa política impõe tensões. Em primeiro lugar, ela adota um modelo único de família: afluente, com uma esposa e mãe em tempo integral (Thome, Yalom, 1992), do qual se distancia um grande número de famílias nestes tempos de crescentes índices de pobreza econômica, emprego materno, estresse familiar, divórcio e mulheres chefes de família. Ao impor aos pais a concepção de que o lar deve ser um local para o desenvolvimento explícito e intencional do currículo escolar, obriga-os a converterem as atividades familiares em extensões das atividades de sala de aula, em detrimento de suas opções educacionais e de suas necessidades de lazer e descanso” (CARVALHO, 2000, p. 149).

Isto vem de encontro com o que o sociólogo François Dubet relatou em entrevista porque ele propõe rever a oferta escolar tendo em vista os programas das disciplinas e os alunos egressos das camadas populares que “não são mais os antigos bons alunos oriundos das boas famílias para quem a escola é uma coisa normal” (PERALVA e SPOSITO, 1997, p. 227). Assim, o dever de casa não soa como algo natural para as famílias e alunos, Dubet propõe ainda “que eles devem aprender menos coisas, mas é preciso que eles as aprendam (idem)” ao invés de ser passado muito conteúdo que é pouco assimilado.

O discurso da família na escola vem junto com um discurso da democratização da escola e do ensino com a participação da comunidade, a construção do saber na relação professor-aluno. Porém, a prática em sala de aula em algumas escolas indica que a proposta de democratização não é tão viável, em primeiro lugar porque os alunos demonstram desinteresse pelos conteúdos escolares e má vontade (resistência) com relação às propostas de ensino. Isto é algo recorrente na fala dos professores, mas até o próprio Dubet estudioso da juventude marginalizada na França reconheceu que considerava as descrições dos professores sobre a relação pedagógica uma “encenação um pouco dramática do seu trabalho” (PERALVA e SPOSITO, 1997, p. 222).

Diante de uma situação como esta a construção do conhecimento fica no mínimo fragilizada, Dubet conta que teve de instaurar um “golpe de estado” na sala para poder dar aula, de impor as regras do jogo e continuadamente de lembrar os alunos dela.

O “golpe de estado” é um fracasso pedagógico e moral, mas permitiu fixar uma ordem bastante estúpida a partir da qual a gente pode tentar controlar uma relação pouco regulada. De fato, no colégio, é preciso trabalhar na transformação dos adolescentes em alunos quando eles não têm vontade de se tornar alunos (PERALVA e SPOSITO, 1997, p. 225).

A transformação dos adolescentes em alunos remete a uma ação pedagógica pautada na relação de que o professor ensina (é o detentor do conhecimento) e o aluno aprende. Enfim, colocando em perspectiva que a escola não é uma instituição ‘normal’ para todos os alunos, no sentido de que os conhecimentos inculcados pela escola são diferentes daqueles que o adolescente tem por contato em casa, na comunidade. A resistência faz parte do estranhamento do aluno e as dificuldades na aprendizagem também, de forma que é preciso esclarecer/impor aos alunos as regras do jogo, até porque a escola é uma instituição normativa.

Referências

CARVALHO, M. E. Pessoa. Relações entre família e escola e suas implicações de gênero. Cadernos de Pesquisa UFPB, n. 110, Julho/2000.

PERALVA, M. Pontes e SPOSITO, A. Teixeira. Entrevista com François Dubet: “Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor”. Revista Brasileira de Educação, n.º 5 e n.º 6, 1997.

No dia 28 de Setembro, acompanhei uma professora da escola E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso em suas três aulas de Sociologia com turmas do Ensino Médio. A escola é relativamente pequena, possui turmas de ensino Fundamental, Médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos) fica localizada no bairro Village Campinas. Um bairro distante do centro de Barão Geraldo, para chegar lá tivemos de seguir pela Estrada da Rodhia e pegar outra estrada, segundo a professora, construída no governo de Oreste Quércia que passa por um terreno/chácara pertencente a ele, mas que possivelmente já foi vendido.

No final da estrada, inicia-se o bairro Village Campinas, falta asfaltamento no bairro. Contudo, pelo que soube, houve uma pesquisa promovida pela Unicamp constatando a impossibilidade de asfaltar a região devido aos cursos de água ali presentes, o ideal seria uma pavimentação com pedras. O Village é uma espécie de periferia rural, cercado por grandes extensões de terras e condomínios, existe a mais ou menos 30 anos.

Na E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso, as paredes das salas de aula eram azuis e verdes, em todas encontrei um cartaz com Regras de Sala de Aula com as seguintes instruções: respeitar todos, usar linguagem adequada, cuidar do ambiente escolar, comer somente no intervalo. Havia um ventilador em cada sala e alguns armários azul-claros com fechadura, na primeira sala que entrei junto a outros quatro estagiários da PUC, os alunos dispuseram-se nas extremidades da sala, junto às paredes.

Esta turma era de Terceiro Ano, havia treze alunos na sala e só quatro eram meninas, pelo que pude saber através da professora mais dois alunos freqüentam regularmente a turma. Na reordenação do espaço efetuada pelos alunos, duas meninas encostaram a carteira uma do lado da outra junto a parede com janela, elas estavam rodeadas de meninos a sua volta, dois na frente, um atrás e outro do lado.

Outros quatro garotos sentaram no outro extremo da sala, na parede da porta de entrada e um grupo de duas meninas e um menino juntaram suas carteiras no meio da sala, bem próximo a mesa da professora. A aula foi sobre sistema de governo (monarquismo, presidencialismo e parlamentarismo), uma das perguntas da professora foi: quais são os países que possuem monarquia hoje?

Os alunos manifestaram-se de forma eufórica, ora respondendo com afirmativas corretas como Inglaterra, ora com algumas absurdas como Minas Gerais. A professora procurou dar algumas dicas, como no caso da Holanda, pensando na cor da camiseta da seleção holandesa (laranja), representante da cor da família real. No fim, ela passou as respostas corretas, de forma, a conter os alunos, interessante que as meninas pouco se movimentaram para responder, somente as do canto cercadas de garotos e, ainda assim, de maneira tímida.

Houve um momento no qual as meninas do canto trocaram de lugar entre si e o menino que estava do lado se dirigiu a professora e perguntou:

– Professora, a senhora acha normal uma pessoa vestir duas cuecas? Ao que ela respondeu: – Não! E você acha normal alguém fazer este tipo de pergunta? Pouco interessa o que a pessoa está a vestir.

Isto gerou uma risada generalizada por toda a sala.

A aula acabou, não houve nenhum sinal a tocar. Dirigimo-nos, então, a outra sala, a turma agora era de Primeiro Ano, havia quarenta e quatro alunos na sala, estavam todos dispostos de forma bem simétrica, cinco fileiras de carteiras na vertical e seis na horizontal. Dois alunos estavam um pouco deslocados, não pertenciam à fila alguma, a divisão entre meninos e meninas nesta turma era mais equitativa. A sensação era de aperto, senti dificuldade de encontrar um lugar para sentar, felizmente na primeira fileira junto à parede com janela havia duas carteiras espremidas, retirei uma e a coloquei no corredor e me sentei na outra.

A aula foi sobre desigualdade de classe, a professora utilizou o típico exemplo do operário e do dono da fábrica para pensar na exploração do trabalho do primeiro pelo segundo e em suas características enquanto classe. Uns como detentores dos meios de produção e pertencentes à classe A e outros como detentores somente de sua força de trabalho, de forma, a pertencerem a uma classe C ou D. Questionamentos sobre a diferença entre o operário e o dono da fábrica de sapatos foram feitos pela professora, apesar do burburinho na sala, um aluno se manifestou sugerindo que a diferença entre os dois era de estudo.

Ao que ela colocou não ser esta a diferença, tomando a si mesmo como exemplo, possui graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais só que não é proprietária dos meios de produção. Procurar não falar mais que vinte minutos faz parte do plano de atividades das aulas, segundo a professora falar durante muito tempo não adianta porque os alunos não absorvem muito, deixo-os, então, escrever o que estava na lousa. Passados uns dez minutos, os alunos começaram a retirar-se da sala, a professora perguntou se o sinal havia tocado, ao que alguns responderam que sim. Poucos minutos depois houve realmente o toque de um sinal, iniciava-se o intervalo.

Outro sinal denunciou o fim do intervalo, agora a terceira e última turma era de Segundo Ano. Havia vinte alunos presentes sendo sete meninas e treze meninos, apesar de o número de matriculados ser de trinta e três. Entre o Primeiro e Segundo Ano é possível perceber uma evasão dos alunos da escola pela diminuição no número de matriculados de uma série para outra, no Terceiro Ano isto fica bem visível.

Série Número de Matriculados

Primeiro Ano

44

Segundo Ano

33

Terceiro Ano

13

Para esta aula os alunos chegaram pouco depois do sinal, eles foram se situando na sala de forma diluída, mas em pequenos grupos de seis ou cinco pessoas. Um aluno saiu da sala para fazer uma prova de Geografia, houve chamada e professora começou a introduzir o conteúdo, só que dali dez minutos, o garoto voltou, a professora se dirigiu para ele: – Mas você já terminou a prova? Ao que ele levantou os braços em sinal de vitória.

Isto provocou uma agitação e riso de todos, alguns exclamaram é um gênio, ih… não sabia nada. Apesar disso, a professora procurou retomar o conteúdo, a proposta dela era ler um texto da apostila do Estado, alguns alunos, aliás, estavam sem o caderno da apostila. Após ler uns quatro parágrafos do texto sem concluí-lo, a moça vigilante da escola bateu na porta avisando o término da aula, a professora pediu para ela falar para o outro professor aguardar um minutinho enquanto ela terminava a leitura. Nisto, a moça avisou que a próxima aula seria aula vaga, gerando uma euforia de contentamento nos alunos de ir mais cedo para casa. Eles levantaram-se, alguns gritaram por silêncio (deixa ela falar! Xiuu!) e de pé aguardaram a leitura dos últimos parágrafos.

É incrível como os alunos estão constantemente a reordenar as lógicas escolares, seja na ordenação do espaço, nos comentários ‘fora de hora’, aproveitamento do tempo e certos avais garantidos a alguns professores de deixar falar mesmo quando o tempo delimitado da aula tiver acabado, é necessário para o professor dar uma boa aula ganhar o carisma deles. Os inscritos no ambiente escolar reescrevem suas normas, mas muitos abandonam a escola, o Ensino Médio não é obrigatório como o Ensino Fundamental nem atrativo como o mercado de trabalho no qual muitos se inserem em funções junto a comércios locais como a Frutaria Rio das Pedras. Contudo, muitos do que permanecem estudando concomitantemente trabalham, encontrei dois trabalhando na UNICAMP no programa Patrulheiros.