Author Archive for: Raiça Fernandez

Em termos de ensino da disciplina de Sociologia acabamos nos deparando com assuntos que podem ser considerados polêmicos, onde há muito para se debater, especialmente com opiniões e casos diferentes sendo acrescentados a todo momento. Um desses é a violência, sendo aqui abordada especificamente como violência contra a mulher.

A violência contra a mulher, de qualquer que seja o tipo, é um assunto, hoje em dia, muito comentado e estudado, mas para alguns, especialmente para aquelas que sofrem com a violência, ainda é um tabu, por inúmeros motivos, como a vergonha, a necessidade de ocultação ou por talvez por simplesmente não saberem o que fazer. E que fique claro que não pretendo fazer nenhum tipo de julgamento ou pontuar causas e consequências de quaisquer que sejam as atitudes. A intenção é apenas abordar e questionar o assunto sob um ponto de vista diferente, porém longe de ser singular, usando como exemplo as questões postas no livro No Escuro, de Elizabeth Haynes. Este traz a história de Catherine Bailey em duas épocas distintas de sua vida, mescladas através de uma narrativa que se alterna entre o antes e o depois de um parceiro.

Embora pareça um pouco confuso inicialmente, é como se estivéssemos acompanhando duas personagens distintas: Catherine, dona de si, baladeira, que nunca parava em casa, sempre saindo com aquele que fosse o melhor da noite, até conhecer Lee, o homem dos sonhos de qualquer mulher; e anos depois temos Cathy, uma mulher nervosa, isolada e insegura socialmente, sofrendo de estresse pós-traumático e transtorno obsessivo compulsivo. Uma não se parece nem um pouco com a outra, nem mesmo na aparência, pois Cathy não lembra nem de longe a mulher exuberante que era Catherine.

A grande questão é o que realmente aconteceu para que aquela garota extrovertida se transformasse em seu completo oposto? O que sabemos é que a personagem foi atacada por Lee, seu parceiro, mas não sabemos de que forma. Além disso, somos confundidos pela transcrição do julgamento ao início do livro, onde é dito que Catherine tinha ataques de pânico, ciúmes extremo e se autoflagelava, sendo que suas próprias amigas não acreditavam em sua palavra. A confusão do leitor é aumentada conforme é descrita a rotina de Cathy, com suas inúmeras verificações de segurança, que são metódicas e chegam a durar horas e horas, com ela checando a maçaneta uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes, depois a janela que não abre, a gaveta de talheres, as persianas que devem ficar com exatos oito quadradinhos de cada lado… e tudo novamente, pois algo saiu errado, ou ela fez rápido demais, ou um barulho a interrompeu ou qualquer outra coisa. Ela levantava às quatro da manhã, mas muitas vezes só conseguia sair às nove para o trabalho, voltando todos os dias por caminhos diferentes e indo dormir tarde da noite, mas nunca antes de fazer e refazer todas as verificações.

Que tipo de vida era aquela? Ela sabia que todas as manias, os horários, as verificações, que tudo aquilo não era normal, mas como parar? Como não deixar o pânico aumentar? Como não deixar ele voltar à sua mente? Ela enxergava Lee em todos os lugares, mesmo sabendo que ele estava preso. E a única luz que começou a surgir, muito fraca, era Stuart. O vizinho do andar de cima, que não deixava a porta do prédio aberta e que com toda calma e paciência, afinal ele era um psicólogo e tentava entende-la e ajuda-la, consegue fazer com que Cathy tenha a esperança de um dia voltar a ter uma vida normal, fazendo até mesmo com que ela tente procurar ajuda. E tudo parece ir bem, até que Lee é solto da prisão. E ela sabia que ele a acharia, que voltaria pra matá-la.

A partir disso, não é possível deixar de pensar em quantas mulheres hoje em dia não entram em relacionamentos esperando a felicidade e encontrando apenas uma vida controlada por parceiros obsessivos? Em uma passagem do livro Catherine se questiona sobre o que acreditava antes, pensando que ao ver-se em uma relação abusiva seria apenas a questão de dizer chega e ir embora, mas que ao viver essa realidade não consegue agir como pensou. Lee é um homem tão encantador e manipulador que ninguém acredita nela. Como escapar dessa situação se não há suporte ou ajuda? A questão se torna ainda mais complicada se ainda existe amor por alguma parte do parceiro. E na realidade, quantas pessoas não se veem nessa mesma situação? Falar é fácil, tentar ajudar também, mas a atitude de dar um basta deve partir da própria pessoa.

Maria da Penha, que deu nome à lei de proteção às mulheres, diz em uma entrevista à Revista TPM que apenas tomou uma atitude após o marido tentar matá-la, mesmo havendo episódios de agressão anteriores. No livro, Catherine somente conseguiu sair do relacionamento após Lee ser acusado de tentativa de homicídio. Mas temos que enxergar aí uma nova questão: como será a vida depois do rompimento? Pesquisando em diversas campanhas, vemos mulheres que dizem ter nascido de novo, que tomaram as rédeas de suas vidas, que mudaram. Mas e quanto às sequelas psicológicas?Cathy escapou, mas se tornou uma pessoa totalmente diferente, presa a um momento do qual não consegue escapar e, consequentemente, sem dar seguimento à sua vida, vivendo presa ao medo. O quanto o medo não domina a vida de mulheres que saíram de uma relação? Vemos todos os dias casos de mulheres que foram vítimas de violência mesmo após a separação, por vingança, por sentimento de posse do parceiro. O quanto o grito de independência é real? A sugestão geral é que essas mulheres passem por acompanhamento psicológico, mas quem paga por isso? Independente de classe social, muitas ainda não conseguem sequer falar sobre o fato.

O livro é complicado, especialmente para um leitor casual, mas a autora consegue, de uma forma diferente, transformar em algo coeso dois períodos da vida de uma personagem, enfatizando a questão da mudança de personalidade ocorrida após um fato tão traumático. Além disso, é uma forma de se questionar acerca de como se encararia uma situação, enfatizando a questão de que nunca sabemos como será a reação para com algum evento até que ele aconteça.

Dessa forma, ao tentarmos abordar o assunto em sala de aula, muitas vezes acabamos presos aos chavões já existentes, sem pensar em algo diferente. Entretanto, é grande a chance de que todos os alunos conheçam casos de violência, mesmo que não se sintam à vontade para falar sobre isso. O livro é apenas mais um recurso possível para discutir a questão, especialmente levando em conta que ele apresenta uma situação que muitas vezes deixamos de levar em conta, o depois.

Livro: NO ESCURO
Autor: HAYNES, ELIZABETH
Idioma: PORTUGUÊS
Editora: INTRÍNSECA
Ano de Lançamento: 2013
Número de páginas: 336

* Texto revisto e adaptado da resenha original, publicada em 06/04/2013 no blog Reações Adversas (http://reacoesadversas.wordpress.com/2013/04/06/resenha-no-escuro-elizabeth-hynes/)

Raiça Fernandez – 092752

Uma grande dúvida que muitos de nós, formados e formandos em licenciatura, temos é a necessidade de transformar a disciplina que deve ser ensinada em algo que efetivamente seja compreendido pelos alunos e, de preferência, não seja tomado como algo irrelevante em sua formação. Porém, como transformar algo muitas vezes altamente teórico e abstrato em algo palatável e até mesmo prazeroso de se estudar e compreender?

Simples? Nem um pouco. Especialmente se pensarmos em todos os problemas enfrentados pelos cursos de graduação, que muitas vezes são mal estruturados e que não contemplam elementos didáticos, além da péssima estrutura educacional proporcionada pelo Estado e tantas outras. Se pensarmos em alunos de escolas públicas, muitos dos alunos de ensino médio chegaram até esse ponto sem saber ler e escrever adequadamente, sem conseguir compreender e conectar ideias. Como então fazer esse percurso entre a disciplina e o aluno de forma que o estranhamento entre eles deixe de ser algo permanente?

Em primeiro lugar, a aproximação do professor com a realidade do aluno é algo imprescindível. É claro que há várias exceções e situações diferente, mas de maneira geral é preciso que o professor conheça os aspectos mais característicos da escola e da turma para a qual leciona, levando em conta tudo aquilo que for possível. Muitos irão questionar a forma como o professor se aproximará dessa realidade, citando a sobrecarga de trabalho e a péssima estrutura que o docente possui para dar uma aula, colocando em pauta a motivação do professor. Sim, a desmotivação e o descontentamento com as condições de trabalho existem e se fazem presentes, mas seria um motivo válido para que o professor deixasse de dar uma boa aula, uma aula significativa para os alunos?

A discussão seria ampla e demorada, com muitos defendendo diferentes pontos de vista, inclusive o conhecimento que o professor tem acerca dos mesmo assuntos que interessem aos alunos. Ora, precisamos traduzir isso e pensar se não há um filme, um livro, uma música, algo qualquer que possa se relacionar com a disciplina e até mesmo simplificá-la? E se tivermos em mente que o brasileiro é estatisticamente um povo que não lê, que não gosta de filmes “cult”, que prefere novelas e filmes atuais, temos que nos adaptar a realidade! Qual o impedimento ao professor de questionar aos alunos se eles leram algum livro que gostaram recentemente? Ou de perguntar de quais filmes gostam? O que tem ouvido, assistido, sentido?

Pessoalmente, não consigo ver como isso seria difícil. Não tomaria tanto tempo, mas seria também uma questão de interesse? Tomemos por exemplo uma questão um pouco mais atual, que são as revoltas e guerras na região do Oriente Médio e que inevitavelmente temos que abordar. Como podemos deixá-las mais inteligíveis ao transmiti-las para os alunos, associando-as com o que eles conhecem? Que tal se pegarmos o filme Iron Man (Homem de Ferro)? Nele, um playboy, milionário, gênio e filantropo, é herdeiro de uma indústria armamentista que, buscando a venda, não tem um controle de para que e onde essas armas irão, fazendo com que “guerrilheiros” de um país do Oriente Médio o sequestrem para que construa uma bomba para eles. Claro que essa é uma sinopse absurdamente simplista e qualquer fã da HQ/Filme, como eu, ficaria indignado, mas não é esse o caso. Com um único filme, que definitivamente foi assistido pela quase totalidade dos alunos, conseguimos relacionar com a supremacia e influência americanas, os conflitos no Oriente Médio, pensar a questão das guerras, visualizar diferentes situações sociais e tantas outras coisas.

Ou se quisermos discutir a questão da violência, da violência policial e influencias políticas, para citar por cima, podemos pegar o filme Tropa de Elite 1 e 2, que consegue ser ainda mais próximo da realidade dos alunos por retratar uma realidade na qual muitos alunos podem se encontrar.

Também podemos utilizar charges e quadrinhos, como os de Bill Waterson, Calvin e Haroldo, para exemplificar Marx, como na tira que se segue:

Ou qualquer outra coisa que possa tornar a aula algo muito mais atraente. Essa é a questão. Será que é preciso focar naquela explicação plastificada, sabendo que ela pode não ser absorvida pelos alunos ou ser algo muitas vezes tido como inútil, dado sua abstração e “falta” de aplicação prática?

A intenção com esse texto não foi, em nenhum momento, definir o que seria a forma correta de se dar uma aula, pelo contrário. A intenção é justamente colocar que não há formas certas, mas sim formas mais atrativas, que podem ser utilizadas por professores de quaisquer disciplinas, sendo preciso apenas um pouco de vontade para fazer acontecer. Suscitar lembranças de um filme não requer infraestrutura maior do que uma frase, assim como uma imagem pode ser um papel que passa de mão em mão pela classe. O objetivo do texto é justamente propor algo, sendo que esse algo pode e deve ser debatido sobre suas razões, possibilidades e efeitos, trazendo uma perspectiva muitas vezes pessoal, mas também derivada de observações e vivências.

Raiça Fernandez – 092752