Author Archive for: Roni dos Santos

Ao que me parece, existe um veredito de que ao pensarmos a educação e suas ferramentas temos que necessariamente pensar “o por que não temos tido sucesso?” e “qual o melhor meio para alcançar este sucesso?”. Este é um debate que toma por princípio ideias básicas (apesar de serem extremante complexas) como por exemplo o logos cartesiano como princípio de pensamento e racionalidade para o conhecimento. Um outro exemplo (este mais perceptível e próximo da prática cotidiana) estaria em pedagogia estruturalista e cognitivista, esta, por sua vez, tem sido elaborada no âmbito curricular a partir de um saber retroalimentar. As perguntas referidas acima não tem sentido se não explicarmos ou pelo menos questionarmos os modelos de transformação e devir implícitos na história, isto é, se não recorrermos a uma história que nos mostre as pequenas rupturas, as pequenas fissuras, seus questionamentos internos, a imagem móvel do evento, tenderíamos a correr atrás do próprio rabo, o que já é um movimento, apesar de muito limitado. Entretanto, um ponto a ser considerado é se posicionar diante destes pontos de micromudança na história, então tem outra interrogação, de que lado da história ficamos.

Digo isto, por que recentemente saiu uma reportagem na folhaonline sob o seguinte titulo: Testes não medem eficiência da escola, diz especialista”. A reportagem feita com o economista e professor da Universidade da Pensilvânia Flávio Cunha, brasileiro que trabalho com o “prêmio Nobel de Economia James Heckman” traz em termos geral uma perspectiva feita sobre o trabalho dos dois que, a grosso modo, podemos dizer que questiona a principal base cognitivista da atuação pedagógica contemporânea nos E.A.U. e em larga medida no Brasil. Percebe-se pela entrevista que os cientistas debatem dentro do campo científico qual é o rumo que a perspectiva educacional infantil deve tomar, esta contido no programa, denominados de programas de alta qualidade, o fato de que no currículo de uma criança deve-se anotar que: a) elas devem interagir com professores; b) aprender por meio de perguntas indiretas (que evitem o sim ou não), e por fim; c) não é importante completar ou não uma tarefa, mas é o professor fazê-la explicar. Eles exemplificam programas que foram “comprovadamente” certos como programas de creches que não duram o dia inteiro e de caso de famílias que, segundo o economista, tende a ter mais diálogos com seus filhos, tende a exercitá-los para uma maior eficiência na aprendizagem. Um outro ponto diz respeito sobre mensuração das habilidades não cognitivas, isto é, a) impactos mais importantes não estão mensuradas por testes de matemática ou linguagem; b) eles observam que todos os resultados estão exclusivamente voltados a estes testes, e finalmente; c) não verificam se as pessoas foram bem-sucedidas, entraram no mercado de trabalho ou tem menor dependência de programas sociais. Esta é uma analise complexa se aceitarmos que há uma ruptura com programas cognitivos tradicionais, embora, e esse me parece o ponto mais importante, toda a lógica de questionamento ainda é cientifica, isto é, para onde esta nova lógica pode nos levar considerando que ela parte do mesmo ethos de razão que a lógica anterior. Isto é, o que esta em jogo aqui ainda é o sucesso individual do sujeito liberal, mas sobretudo, uma gestão populacional que diz como devemos nos educar e educar o futuro imediato desta sociedade.

Há uma enfase de investimento não na relação repetitiva da qual nos faz decorar certos lexos gramaticais ou fórmulas matemáticas, a questão não é dizer ou questionar o fato de um mais um é igual a dois, mas na medida em que o conhecimento avança e chegamos a uma fase em que o capital humano é indispensável na criação, o que, talvez indique, é que se deve direcionar essa criação. A imagem que passam é de que eles estão descobrindo aquilo que as ciências sociais já vem debatendo há algum tempo. As ciências sociais, em particular a antropologia, avançou no campo dos significados simbólicos, ela simplesmente mostrou como é impossível achar determinantes nas ações humanas ou nos processos coletivos, isto nos importa na medida em que todo o princípio de conhecimento produzido pela ciências sociais nas últimas décadas tem servido de referência e uso para um determinado tipo de política, então nos cabe perguntar para onde caminha este tipo de política? Quais estratégias tem inventadas a partir deste conhecimento? O que há de novo neste desdobramento? Não podemos sem um estudo mais cuidadoso, ou sem antes experimentar dela, seria necessário entender seu conjunto de mecanismo em ação, contudo, muito indica que ela é um dispositivo pronto para agir.

Rap e educação.

 

 

Dentro da aulas de “Escola e Cultura”, disciplina oferecida pela Faculdade de Educação pela UNICAMP tivemos a oportunidade de desenvolver diversos projetos ligados à problematização da escola pública hoje. A princípio tinhamos que formular uma problematização e irmos ao campo dar cabo das nossas indagações. Na apresentação da problematização do projeto um, em especial, me chamou a atenção. Em suma, o coléga que a apresentará tinha o seguinte questionamento: “Qual o lugar do prazer na educação?”

Tornei o questionamento meu, assim como acho que todos deveriam fazer. Uma das minhas respostas talvez se encontre neste video, justamente por que ele oferece não somente entetrenimento, mas uma possibilidade dos alunos se verem naquele que por muito tempo pode ter sido seu camarada e vigia* um alguém de referências próximas. Os instrumentos que são de facil domínio por estudantes deveria ser objeto de conhecimento e compartilhamento de professores. Dividir experiências e descer do pedestal do conhecimento é fundamental para que se possa construir novas relações de poder e conhecimento.

* Alusão ao texto “O olho do poder in; Microfísica do poder”

Introdução

Os Cursinhos Populares atualmente fazem parte de um contexto social amplo que envolve lutas sociais, históricas, raciais e demandas por políticas públicas, onde talvez o único norte que atravesse todas elas sem ser um determinante fixo seria as contingências da prática educacional, isto é, uma reparação do que foi a educação oficial no Brasil até o presente momento. E em relação a esta afirmativa, cabe perguntar o que é este movimento de cursinhos populares no seu interior? Sem pressupor obviamente uma dicotomia entre incluídos e excluídos, ou uma grade fixa de análise. A ideia básica é mostrar as fissuras entre uma educação popular, a partir de um estudo de caso e sua anatomopolítica, e suas contribuições para a educação em geral. Esta apresentação refere-se a uma prática discursiva (Foucault, 1999) e às possíveis representações do espaço físico em um cursinho pré-vestibular.
Durante dois anos e meio apreciei, senti, vivi e incorporei (BOURDIEU, 2003) o espaço o espaço físico do Projeto Herbert de Souza, na Vila União, cidade de Campinas na condição de professor. Portanto, ao passo que uma contribuição de uma análise de alguém dentro do grupo para alguém do lado de fora como sujeito distinto e completamente separado é falsa. Em verdade, temos uma mudança de perspectiva, uma inclinação para um outro olhar, um olhar distinto, mas não um olhar falso, nem verdadeiro. Na medida em que detalharei a organização espacial, escreve a vocês o professor e estudante de ciências sociais que estranha, tanto o professor quanto o estudante.

O espaço físico e suas possíveis representações


Este espaço a qual me refiro, a princípio, é basicamente um pré-vestibular comum, como qualquer outro, tende a seguir a linha dos cursinhos tradicionais voltados para população de alta renda, obviamente sem todo o conforto e disponibilidade tecnológica que estes cursinhos mais tradicionais exigem. Contudo, ele pode contar com o básico e suas disposições estratégicas, isto é, salas fechadas, disposição das carteiras, carteiras menores para um maior número de pessoas, relação de confronto direto entre professor/aluno, aluno/lousa, um aluno atrás do outro em fileira, um projetor móvel direcionado à parede branca, uma biblioteca e videoteca que divide seu espaço com a secretaria, dois banheiros (um masculino e outro feminino), um quadro de informações, secretários disponíveis no período em que o cursinho se encontra em funcionamento, apostila de apoio e etc. As disposições que o cursinho não pode contar por seus limites financeiros seriam salas com tablado, carteiras mais confortáveis, projetores com tela especifica, ventilação adequada ou ar condicionado, conjunto de lousa verde para giz e lousa branca para caneta piloto entre outros.
Assim como há um limite financeiro para o cursinho, pressuponhamos que há um limite tecnológico de acomodação, e mesmo assim o cursinho se mantém. Então podemos nos perguntar se o cursinho se mantém somente por que seu acesso é possível financeiramente para as classes baixas da sociedade? A resposta que consideramos é que sim, no entanto, ela não seria suficiente para explicar uma relação maior existente para a preservação e reprodução de determinados quadros no cursinho. Isto é, é importante salientar que o Projeto Herbert de Souza existe há doze anos e nestes doze anos, mesmo sob inúmeros percalços, o cursinho se manteve e mantém seus quadros de organização renovados por um certo período de tempo. Digo isto, por que antes de explicar a (in)suficiência tecnológica do cursinho temos que olhar para uma pergunta e uma constatação. a) Será que os organizadores do Herbert de Souza não sabem desta limitação financeira e tecnológica? Sim, sabem. b) Ciente desta condição, a constatação é que se deve fazer o melhor com o que se tem, desde a estrutura de pessoas – que atravessa inevitavelmente uma estrutura ideológica e burocrática – até a estrutura do material disponível. A estrutura de pessoas e formação de quadros estão completamente ligadas, pois é a formação de novos quadros feita por ex-alunos que passaram pelo Projeto e acessaram a universidade que preenchem os novos quadros. Segundo o estatuto, são feitas eleições são a cada três anos e 75% do quadro de coordenadores devem ser ocupados por ex-alunos do projeto. Temos, sobretudo, uma burocracia que arregimenta e assegura a reprodução de uma ideologia de classe, lembrando que o cursinho tem como objetivo fundamental alunos de camadas financeiras mais baixas, A questão anterior não se exerce somente pelas baixas taxas que alcança no máximo 10% de cursinhos com tendências elitizadas até a isenção total da taxa, mas também pela ausência/improvisação de disposição tecnológica. Obviamente se o cursinho pudesse ter a presença destes materiais mais sofisticados eles seriam bem-vindos, sem sombra de dúvida, no entanto, a ausência destes materiais não é a presença do lamento, mas estratégia para outros fins como assegurar a luta por outra forma educacional ou a mesma educação, entretanto, com mais qualidade.
As estratégias de manutenção de um espaço como o Herbert de Souza faz-se por meios quase invisíveis aos olhos do púbico em geral, visível somente a quem o organiza. Digamos que a reorganização constante do espaço e daquilo que é móvel no espaço, na medida do que é possível, acompanha a exigência de um modelo de cursinho que aparentemente tem objetivo imediato os cursinhos com mais disponibilidade financeira. Reformas e construções foram feitas ao longo dos anos, necessidades básicas como banheiros bem higienizados, uma secretária para atendimento do aluno, rampa de acesso para deficientes, ventiladores de teto, ou seja, todo um aparato de serviços foram questões que entraram em pauta em um determinado momento e se cumpriram. Isto ainda quer dizer que o fim último do cursinho é deixar de ser popular para se tornar um cursinho elitizado? Ao passo em que estas demandas – melhoria da infraestrutura – estão inseridas dentro dos nossos modelos de organização social (modo de produção), é impossível não dar uma resposta positiva a elas – tendo em mente que se paga pela educação oferecida naquele espaço, mesmo que um baixo valor. No entanto, existe um nível de organização mais baixo e microfísico que nos mostra uma diferenciação no modo de se organizar e que não recorre a altos recursos financeiros.
Como sabemos, cursinhos em geral perdem sua clientela ao longo do ano e isso não é exceção em cursinhos populares, no decorrer do ano um cursinho chega a perder 80% dos alunos. Conforme diminui o número de alunos, o espaço vai ficando cada vez mais vago e percebeu-se que conforme a sala de aula vai ficando cada vez mais vazia, outros alunos tendem a desistir das aulas, esta é uma tendência geral e motivo de certos investimentos de reformulação do espaço. Uma das estratégias que se lançam mão é o de acomodar os alunos e espaços menores, pois em salas menores a impressão que se tem é de que a sala continua cheia, embora a quantidade de alunos seja menor. Este é um modelo de luta local? Não. É um uma fórmula utilizada em diversos cursinhos e possivelmente nem seja estratégia originada em cursinho, mas neste caso tem suas significações próprias, pensada para uma sala de aula e para um objetivo especifico. Em suma, mesclaram-se conhecimentos arquitetônicos e psicológicos voltados para uma política de acomodação do corpo dentro do espaço, foi pensado as disposições gerais do sujeito em uma determinada situação e para esta, as ferramentas adequadas para um fim último: uma educação que obedece aos ditames da estabilidade.
Por outro lado, há formas de mobilização e organização que passam pelo significado do que são estes espaços. Por exemplo, no dia 20 e 21 de agosto houve o Fórum dos Cursinhos Populares 2011 na região de Campinas. Uma organização que promoveu o encontro de cursinhos populares de todas as regiões do Estado de São Paulo e alguns Estados próximos. O debate versou sobre o acesso e a permanência de estudantes oriundo das escolas públicas e periferias na universidade pública. O evento contou com a presença do coordenador da Comissão Permanente para o Vestibular da Unicamp (Comvest), Mauricio Kleinke no segundo dia de debate. O Fórum, organizado por uma rede de cursinhos presentes em Campinas, mas que teve suas edições anteriores feitas em outros municípios do interior paulista. Nesta edição de 2011 foi debatido justamente as estratégias pedagógicas e tecnologias para se (re)pensar a educação sobre as seguintes propostas: “Vantagens e desvantagens da Institucionalização dos Cursinhos Populares; Ferramentas Pedagógicas e Recursos Educacionais Abertos; Estratégias Pedagógicas Diferenciadas e Projeto Político Pedagógico”. Mais uma vez vimos que a carência financeira e tecnológica não é tomado como um lugar de lamento, mas um ponto de estratégia e luta, e então revertida em criatividade. Certamente são nesses locais que nascem estratégias locais para (re)pensar o que esta dado devido as amarras do poder. Podemos dizer que o pensamento sobre as aspirações humanas neste caso foi performatizada no ordinário de forma silenciosa sob as vestes da prescrição, e que em um dado momento pode-se prescrever sua própria performance.

Bibliografia:

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
FUNARI P. P.; ZARANKIN Cultura material escolar: o papel da arquitetura. Pro-Posições. v. 16. n. 1(46) – jan./abr. 2005.
RAMANELLI, O. de O. A história da educação no Brasil. Petrópolis: Ed. Vozes, 1986.
ZAGO, N. Do acesso à permanência no ensino superior: percursos de estudantes universitários de camadas populares. Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 32 pag. 226-237, 2006.
______. Pré-vestibular popular e trabalho docente: caracterização social e mobilização. Revista Contemporânea. UFRJ. Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, agosto/dezembro de 2009.

Sites: retirados 26 de set de 2011

http://www.forumdospopulares2011.blogspot.com/

http://cursinhopopularherbertdesouza.blogspot.com/