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Sugestão de curta ideal (por ser apenas 20min) para ser trabalhado em aulas de sociologia que costumam ser semanais (50min).

      Logo que iniciei os estágios em sala de aula acompanhando as turmas de sociologia me deparei com a seguinte dificuldade e insatisfação em alguns dos alunos: ter que invariavelmente resolver provas e fazer atividades/trabalhos de sociologia produzindo “extensos” textos. Não julgo ter que realizar produções escritas ruim, pelo contrário, acredito ser uma prática que deve ser estimulada na escola por todas as disciplinas, porém assim como muitos alunos não gostam (ou não se dão bem) fazendo contas e preferem estudar a teoria em uma aula de matemática, em uma aula de sociologia outros tantos alunos não gostam de produzir textos para mostrarem seus conhecimentos.

     Acredito que essas diferenças são normais e devem ser contempladas nas avaliações que os professores dão assim como nas estratégias de ensino que utilizam, por vezes um texto é muito claro para alguns e muito confuso para outros. Pensando nisso, nós como professores devemos buscar alternativas de estudo/ensino de forma a não saturar apenas uma das formas. Nesse post sugiro a utilização de mapas conceituais (de uma forma simples) que agradam muito os alunos especialmente nos momentos de estudo para uma prova ou fixação de conteúdo.

   Nas aulas de sociologia é muito simples utilizar os mapas conceituais, pois pode-se transformar qualquer conceito/texto em um mapa conceitual e ainda atribuir exemplos, o que normalmente ao estudar uma área da sociologia encontra-se presente. Acreditando nisso, no período em que estive estagiando em uma turma de 1º ano do Ensino Médio, onde dividia as aulas com o professor titular da turma, em uma das aulas de revisão para a prova propus a construção de um mapa conceitual que envolvesse todos os conceitos que cairiam na prova. Por se tratar da primeira vez que eles ouviam falar em mapa conceitual (esse tipo de recurso para a aprendizagem não é utilizado nem pela sociologia nem por outras disciplinas habitualmente na escola) eu forneci as palavras chaves e eles deveriam então apenas relacioná-las como lhes parecesse mais adequado.

     Seguem dois exemplos dos resultados obtidos:

    Nota-se algumas diferenças em relações aos mapas, especialmente quando se trata dos exemplos, isso inclusive foi discutido com os alunos como uma crítica a essa divisão que o livro didático utilizado pela turma fazia das relações sociais, como se elas fossem tão simples que pudessem se encaixar perfeitamente nos modelos apresentados, chegamos então à noção da complexidade das relações sociais, porém sem sair dos conceitos que cairiam na prova.

    A aceitação dos alunos foi muito positiva, assim como o resultado nas provas, eles consideraram uma maneira rápida e eficaz de estudar e revisar conceitos já aprendidos, já que com o mapa conceitual facilmente você observa as relações existentes entre os conceitos.

   É evidente que um mapa conceitual exige um conhecimento prévio do aluno, porém ele também não é capaz de “enrolar” o professor caso não tenha os conceitos muito claros. É também visto que os conceitos apresentados e relacionados no exemplo poderiam ser discutidos, porém essa não é a proposta do post, uma vez que tais conceitos e associações estavam de acordo com a forma com que o professor titular da turma ministrou a disciplina, na qual eu não pude interferir.

Sociologia para quê?!

    Exposição de ideias próprias (sem referencial teórico) a cerca da importância da sociologia no Ensino Médio. Conclusão de reflexões iniciadas em aula da disciplina Estágio Supervisionado em Ciências Sociais.

   Essa é uma questão que nós como professores, pais e simplesmente brasileiros nos colocamos quando a sociologia foi colocada como disciplina obrigatória do Ensino Médio. Muitas são as opiniões, contra e a favor da medida, porém há um senso comum que parece flutuar entre todos os argumentos. Na revista Veja dessa semana em um artigo sobre leis inúteis o colunista mostra-se claramente contra a obrigatoriedade da sociologia e filosofia no Ensino Médio, abaixo trecho do artigo em que trata dessa lei:

ENSINO DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NAS ESCOLAS
LEI FEDERAL N° 11684, DE 2008
Situação: em vigor.
O que determina: torna obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia nas três séries do ensino médio em todas as escolas do Brasil.
O absurdo: os brasileiros figuram nas piores colocações em disciplinas como ciência, matemática e leitura, no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Em vez de empreender um esforço para melhorar o quadro lastimável da educação brasileira, o governo se empenha em tornar obrigatórias disciplinas que, na prática, só vão servir de vetor para aumentar a pregação ideológica de esquerda, que já beira a calamidade nas escolas. Uma das metas do currículo de sociologia no Acre é ensinar os alunos a produzir regimentos internos para sindicatos.

(Tirado daqui em 26 de setembro de 2011)

   Não quero aqui tratar do absurdo dessa reportagem veiculada de forma impressa e pela internet em uma das revistas mais lidas e “conceituadas” do país, mas sim ressaltar uma ideia que está nela presente, referente à disciplina de sociologia como vetor ideológico (no caso de esquerda). No caso acima mostrado é evidente que tal argumento é colocado de forma negativa, porém está de certa forma presente nos discursos dos defensores da sociologia no Ensino Médio ideia semelhante que trata a sociologia como disciplina privilegiada e necessária (veja exemplo aqui), já que o professor de sociologia teria oportunidade de politizar, democratizar e conscientizar seus alunos, construindo neles uma visão crítica. Nesse sentido devo concordar que há certa carga “ideológica” inerente então à sociologia (não julgando isso necessariamente como negativo), e é desse ponto que partem questões centrais: esse é o objetivo da sociologia? Esse é um privilégio da sociologia?

     Respondendo a primeira questão: Sim e não, acredito que politizar e tornar o aluno crítico é um objetivo da sociologia assim como de todas as disciplinas, sendo um compromisso que deve partir da escola como um todo, não apresentando sequer as matérias das chamadas ciências duras como verdades absolutas. Pode a princípio parecer mais fácil à sociologia fazer isso, pois é uma disciplina nova no currículo sem verdades cunhadas (especialmente pelo vestibular), onde os conhecimentos aprendidos na universidade pelos professores podem ser trabalhados de forma mais flexível, o que em outras disciplinas mais tradicionais, apesar dos professores saberem que não se tratam de verdades absolutas a tratam como tal, pois é uma cobrança já institucionalizada e assim mais difícil de ser rompida.

    Dessa forma, quanto à questão do privilégio, a sociologia teria como privilégio ser uma disciplina ainda não totalmente institucionalizada e presa em paradigmas escolares. Contudo, poderia-se então pensar porque ensinar/aprender sociologia, se não para suprir esses fatores já citados que as demais disciplinas não dão conta. A respostas para isso, creio estar mais uma vez em um dos privilégios da sociologia. Espera-se que os alunos tenham uma formação crítica e politizada, porém muitas vezes o que falta para essa politização, por exemplo, é conhecimento. Como poderiam as pessoas olharem criticamente as promessas de um político se ao menos sabem quais as reais funções e possibilidades desse político?! Ainda que os professores de ciências, matemática, português tenham ensinado que não há verdades absolutas e que podemos (devemos) ter um olhar crítico e questionador, sem o conhecimento conceitual das formas de governo e funções dos cargos públicos a visão crítica nesse assunto estaria prejudicada. Sendo assim, fica claro que os conceitos ensinados pela sociologia (mesmo quando “livres de ideologia”) tornam-se um privilégio na busca por cidadãos conscientes, críticos e politizados, ou seja, a sociologia é importante primeiramente por si mesma e necessária na escola pelos conceitos próprios que abrange e que não são, nem poderiam ser, contemplados por outras disciplinas.

Esse tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos” foi escolhido não por acaso, e sim por aparecer na proposta curricular do Estado de São Paulo, como indicação temática a ser trabalhada no 3 º bimestre do 1ºano do E.M.

            Apresento opções de atividades que tratam de diferentes manifestações artísticas e literárias, compreendendo também manifestações mais presentes no universo dos alunos em que sejam possível trabalhar o tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos”. Pensei inicialmente em trabalhar com filmes. Sendo assim, a primeira possibilidade de atividade está relacionada ao filme “A.I. Inteligência Artificial”. Pretende-se com este filme, explorar a característica da cultura de ser aprendida, a partir das reflexões a respeito das atitudes do “menino-meca” como dormir, comer ou, neste caso, fingir que realiza tais práticas, o que demonstra que, apesar de serem práticas biologicamente necessárias, trazem toda uma carga cultural muito relevante para a dinâmica social, tornando-as necessárias para a sociabilidade.

            Pensei também no filme “Crepúsculo”, que é mais popular entre os jovens dentro da faixa etária com a qual estou trabalhando. Podemos utilizar o confronto entre humanos e vampiros abordado no filme e, mais do que o confronto, a interação e adaptação que os “Cullen” se propõem para conviver “em harmonia” com os humanos.

            Além de filmes, que são longos e exigem alguma forma de exibição, pensei em outras opões de atividade mais rápidas. Uma delas diz respeito à música “Cultura” de Arnaldo Antunes. Apesar do que o título sugere, não trata especificamente do tema cultura, mas traz “exercícios” interessantes de relatividade, “brincando” com pontos de vista de diferentes sujeitos e com a ressignificação de palavras a partir desses diferentes pontos de vista. Nesse sentido, a música pode levantar uma discussão interessante a respeito do caráter relativo da cultura, mostrando como as interpretações mesmo de uma palavra são relativas e dependem de um ponto de vista ou de um referencial cultural.

            Outra música que sugerimos é “Pra você guardei o amor”, de Nando Reis. Como é uma música longam destaquei  a estrofe que diz:

“ Pra você guardei o amor

Que aprendi vendo os meus pais

O amor que tive e recebi

E hoje posso dar livre e feliz

Céu cheiro e o ar na cor que arco-íris

Risca ao levitar”

            A partir desses versos, pretende-se discutir a questão de o amor ser ou não ser um sentimento intrínseco ao ser humano, pensando se não seria uma prática culturalmente aprendida com concepção variável de sociedade para sociedade. Sendo assim, podemos relativizar a naturalidade de práticas culturais, como o casamento, pois nossa visão de amor e daquilo que está associado a ele, como diria Benedict  (importante antropóloga), se dá através de nossa lente. Para outra cultura, a prática do amor pode apresentar-se de maneira muito diferente. Nesse sentido, levantar as possibilidades de relacionamentos, por exemplo, em sociedades não monogâmicas, será valioso nessa discussão.

            Também pensei em possibilidade de trabalhos com contos. O primeiro que pensamos é o conto “A galinha”, de Clarice Lispector. Esse conto trata de outra característica da cultura, de superar a dimensão puramente biológica da existência humana, inclusive ressignificando esta dimensão. O texto trata da quase humanização de uma galinha que, de fonte de alimentação, passa a ser encarada como um ser, cuja existência não pode ser preterida em prol de uma refeição (que, aliás, pode ser garantida de outras formas). Isso demonstra como os hábitos alimentares são também culturais.

            O outro conto proposto foi “A menina” de Ângelo. Nele são abordadas características tidas como naturais, mas que são na verdade culturalmente aprendidas. O trabalho com contos traz a vantagem de não prescindirem de recursos áudio-visuais, mas devem ser escolhidos levando em conta as possibilidades e limitações do público ao qual estamos dirigindo as aulas. É preferível que sejam curtos e de linguagem acessível.

            Por fim, trago dois quadros, o que nos possibilita uma abordagem diferente, que trabalhe a linguagem visual. O primeiro deles é Gaugin, “Mulheres do Taiti na praia”. Nele podemos observar diversos valores simbólicos que caracterizam a cultura a que pertencem as mulheres presentes na tela. Esse quadro nos possibilita pensar de que forma os símbolos falam por uma cultura e como, em alguns casos, são facilmente reconhecíveis, apesar de outras ricas relações que pode-se trabalhar nesse quadro, uma observação primária poderia identificar símbolos de uma cultura específica, pensando sempre como isso é representado e porque o é dessa forma.

            Como última opção de atividade, apresento o quadro “O mestiço” de Portinari. Pretende-se que a partir da análise dessa obra, se associe cultura, história e política, práticas sociais que, como veremos ao longo da disciplina de Sociologia, caminham juntas. Sugere-se como ponto de discussão: de que forma a questão dos mestiços e seus antepassados foram incorporadas na sociedade brasileira e o que vem a ser o mestiço em nossa cultura.

Esses são exemplos de atividades propostas utilizando os mais diversos recursos pensando apenas em um tema, de forma a demonstrar como é rica de possibilidades o trabalho dentro de sala de aula, lembro que é de opção do professor trabalhar ou não com tais mídias e isso requer uma reflexão que extrapole as poucas linhas que utilizei para ligar tantos recursos com um único tema. A proposta desse post não é fornecer um plano de aula em toda a sua complexidade, mas sim indicar de que forma ele pode extrapolar a tradicional forma de aula expositiva. Quanto às questões de direitos autorais que poderia ser levantada é importante lembrar que a autoria jamais pode ser ignorada, no entanto exibição de trechos de filmes em classe, ou indicação dos mesmos para que os alunos assistam em casa não creio ferir tais direitos.

Comentários a cerca do livro didático “Introdução à sociologia” de Pérsio Santos de Oliveira, editora Atica.

   

   O livro analisado tem um título condizente, na verdade bem óbvio. O autor tem uma formação adequada, mas o fator que chama mais atenção é o ano da primeira edição, 1988, apesar das diversas reedições o livro continua um tanto ultrapassado por conta disso, seus exemplos e linguagem foram pouco modificados em suas edições, o que não costuma ser positivo quando se trata de livros didáticos. Os textos trazem expressões que não são mais utilizados nas ciências sociais, como ao tratar em um capítulo sobre isolamento social aproximando os casos dos “meninos lobos” à “natureza do homem” e faltam “novos” conceitos (o livro não contempla os temas propostos no currículo do Estado de São Paulo, como discussões sobre a história política do Brasil ou formas de governo), o que torna o livro um tanto quanto inadequado para o ensino das ciências socais nos dias de hoje.

    Os principais eixos temáticos são: O que é sociologia?; Relações sociais; Grupos Sociais; Cultura; Trabalho; Instituições Sociais; Mudanças Sociais; Movimentos Sociais; Grandes Pensadores.

     Por outro lado os textos são bem escritos e fazem referência aos temas estudados, no entanto não são atualizados ou tratam de forma adequada aos conceitos e discussões atuais das Ciências Sociais, assim como raramente se aprofundam em conceitos dos “grandes” sociólogos.

    O livro possui ótimas ilustrações que dialogam com o texto e são atualizadas nas edições, possui poucas atividades e normalmente elas possuem o mesmo formato, no entanto são boas atividades que visam estimula o pensamento crítico. Questões de interpretação e discussão são os mais freqüentes, na verdade o único tipo de atividade que o livro coloca.  Há também a sugestão de trabalho com livros e filmes.

    O livro não faz parte do PNLD, porém  a escolha de seu uso seja como referência, seja como livro para a classe é de escolha do professor e dirigentes da escola, ficando aqui apenas alguns comentários.

Filme “Eles não usam black-tie”, considerações para utilização do cinema nacional em sala de aula. Sugestão de interpretação do filme para explicação dos movimentos sociais segundo o marxismo.

                 O filme “Eles não usam black-tie” é um filme brasileiro de 1981 que retrata uma greve e as relações pessoais que a cercam. Mostra uma família onde o pai e o filho são operários da mesma empresa, há uma série de acontecimentos na vida dessa família que são permeados pelo quadro de greve que os operários iniciam na empresa.

            Otávio é o pai dessa família, casado com Romana e com dois filhos. Otávio é um antigo operário da fábrica, militante, já foi inclusive preso por seu envolvimento em greves e movimentos operários. Muito engajado na causa dos trabalhadores preocupa-se em encontrar o momento certo para realizar greves, nos quais os seus companheiros estejam conscientizados e apóiem o movimento.

            Tião é o filho primogênito de Otávio, trabalha na mesma fábrica que o pai e namora Maria, a qual engravida e então resolvem se casar. Tião tem a influência do pai militante, mas tem outras preocupações que influenciam em suas atitudes divergindo da ideologia do pai.

            Romana, mãe de Tião e esposa de Otávio é preocupada com o filho e marido que se envolvem em movimentos operários, no entanto, apóia integralmente o marido em suas atitudes militantes, grevistas e que luta por seus direitos. Como mãe não abandona Tião, mas envergonha-se das atitudes do filho que vão contra as ideologias dela e do marido.

            Maria é a namorada de Tião, tem uma vida difícil com um pai alcoólatra e um “irmão” pequeno. Engravida de Tião sem querer, mesmo sem condições financeiras os dois resolvem se casar, mas então os acontecimentos em torno da greve modificam as relações entre os dois, pois Maria preocupa-se também com sua nova e inesperada situação, mas não de forma egoísta como Tião, ela pensa não só em seu próprio bem como também em toda a classe com que se identifica.

            Há também outros personagens relevantes, como o militante extremista e apressado chamado de “italiano”, que tenta de qualquer modo e o mais rápido possível iniciar a greve. E o Bráulio, amigo de Otávio, também militante, mas mais comedido e que busca acalmar os ânimos e evitar desentendimentos e rupturas dentro do movimento, sendo o mais consciente e equilibrado é muito respeitado por todos.

            São com esses personagens principais que todo o enredo se passa. Nesse filme não só é possível ver passo a passo o início de um movimento social, operário e sua organização, como também todas as suas conseqüências e problemas que vão além do âmbito político, invadindo o privado, afinal trata-se diretamente da vida das pessoas e de suas ideologias e convicções.

            O filme trata muito disso: ideologia, convicção e consciência de classe. É interessante notar como essa consciência difere de personagem para personagem no filme, e como ela se transforma e se revela no decorrer dele. Essa consciência de classe não é algo intrínseco, e sim é algo que deve ser buscado e que muitas vezes apesar de representar uma união com iguais é enfraquecido por uma hegemonia que prega a ideologia do opressor, a qual o oprimido sem se dar conta acolhe e aceita passivamente pensando ser o melhor para si mesmo.

            Paulo Freire fala sobre essa situação do oprimido diante do opressor:

            Ao fazermos essa afirmação, não queremos dizer que os oprimidos, neste caso, não se saibam oprimidos. O seu conhecimento de si mesmos, como oprimidos, se encontra, contudo, prejudicado pela “imersão” em que se acham na realidade opressora. “Reconhecer-se” a este nível, contrários ao outro não significa ainda lutar pela superação da contradição. Daí esta quase aberração: um dos pólos da contradição pretendendo não a libertação, mas a identificação com o seu contrário. (FREIRE, 1994, p.18).

            Disso que Paulo Freire trata fica evidente no filme representado nas atitudes de Tião. Apesar de se reconhecer como pertencente a classe operária, encontra-se imerso na realidade opressora, na posição que se encontra, tendo por experiência o caso do pai militante que passou um certo tempo inclusive preso por suas atividades políticas, Tião teme uma mudança apenas para pior na sua vida se unir-se ao movimento. Teme perder o emprego estando prestes a casar e ter um filho, pois tem interiorizado que a sua classe pode tentar lutar por seus direitos, mas ao fazer isso acabará por ser prejudicada.

            Já Maria, sua namorada, discorda dessa posição e não só se vê como parte da classe, como vê como traição consigo mesma trair aos interesses da classe por vantagens pessoais. Inclusive ela prefere ficar ao lado dos amigos e companheiros de classe a ficar do lado do noivo que furou a greve e traiu seu pais e os demais operários. Maria vê a si mesma como oprimida e portanto como pertencente a um todo de oprimidos pertencentes a mesma classe de forma indissociável.

            A questão da conscientização e da luta de uma classe por seus direitos é abordada de uma forma pelo filme que deixa clara as diferenças que existem dentro de um mesmo cenário e contexto de conscientização. Primeiramente entre os operários, muitos eram a favor da causa mas temiam as repressões ao movimento, outros inflamados queriam movimentos em certo ponto violentos e ostensivos, outros simplesmente alienavam-se pensando apenas em suas próprias vidas estando conformados com a posição de oprimidos.

            É interessante observar que as mesmas variantes ideológicas e de consciência política e social existiam em um grupo familiar próximo. Otávio consciente e militante ponderado, que lutava incessantemente pelos direitos da classe pelas formas que lhe pareciam mais sensatas, batia de frente com seu filho Tião que achava a militância inútil e que só trazia prejuízos para os próprios militantes que se sacrificavam por outros, sendo para ele mais vantajoso “se unir”, ou ser manipulado, pelos opressores e obter “vantagens pessoais”.

            É bem claro no movimento sindicalista que representa o filme que ou você é companheiro e participa ativamente do movimento, ou você pelego, que trai seus iguais em busca de vantagens egoístas ou por pura covardia. É bom lembrar que o filme retrata uma época em que os movimentos sociais eram reprimidos com muito mais violência evidente, os envolvidos nesses movimentos eram presos e demitidos, outros funcionários eram coagidos a entregar os “cabeças” do movimento, que deveriam ser afastados em uma tentativa de conter a organização e revolta da classe operária. Isso porque os opressores, os donos das fábricas sabiam que apesar de todos os operários sentirem-se injustiçados e oprimidos seria necessário pessoas que os organizassem e os conscientizassem como massa, como grupo, como um todo que deve lutar e permanecer junto em busca de um bem comum.

            Essa não é uma tarefa fácil, as pessoas podem se reconhecer como pertencentes a uma classe, conscientizando-se da sua situação de opressão, reconhecendo seus opressores como diferentes e seus companheiros oprimidos como iguais, mas ainda há um grande passo a percorrer entre essa percepção e a inclusão e identificação com o movimento, a mobilização, onde não há vantagens que não sejam de todos juntos é muito complicado de se alcançar, por isso Paulo Freire sugere toda uma pedagogia do oprimido que internalizaria desde cedo a consciência política e de classe.

            Eles não vestem Black-tie não é só um dos grandes filmes do cinema nacional brasileiro, mas é também um filme que nos mostra uma realidade dos movimentos sociais com toda a sua complexidade e relações que estão de maneira direta ou indiretamente relacionas. É interessante notar os diferentes níveis e consciência e os motivos para que as pessoas não percebam que a união da classe é uma das  formas de conseguir melhoria para a própria classe, sendo que uma classe não é uma ideia abstrata e sim formada por um grupo de pessoas que estão submetidas e identificam-se como vivendo as mesmas situações pelos mesmos motivos.

Bibliografia

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

Questões que poderiam ser trabalhadas em classe à respeito do filme:

O que significa ser oprimido?

De que forma os movimentos sociais estão organizados?

Quais as relações entre movimentos sociais e classe social?

Como as personagens do filme relacionam-se com “sua” classe social?

De que forma opressão relaciona-se com classe social?

Trabalhar com essas questões em sala à partir de um filme é muito rico de forma que coloca os alunos a refletirem sobre diversos aspectos que relacionam-se.  A contribuição de Freire fará refletir sobre o que é “ser” e “reconhecer-se” como tal, e de que forma isso influência nos atos dos sujeitos, e assim na superação ou não dessa situação de opressão.

Reflexões preliminares sobre Max Weber e a Educação realizadas na disciplina Ciências Sociais aplicadas à Educação em 2010 na Universidade Estadual de Campinas.

No que diz respeito a educação, Weber, não a abordou diretamente , ainda que esta faça parte de seu conjunto de obras, as reflexões de Weber acerca da educação se deram concomitantemente ao estudo geral da sociologia política. Para Weber, a concepção de educação esta atrelada a uma forma tipológica derivada dos tipos de dominação legítima, sendo importante observar que os tipos são instrumentos para compreender a realidade, não tratando-se portanto de “expressões da realidade” mas sim construções usadas na análise da realidade empírica, não se encontrando ou raramente se encontrando em tal realidade.
Na evolução histórica das sociedades humanas, Weber reconheceu a ocorrência sempre presente de lutas/disputas entre os indivíduos membros das sociedades estudadas, embates estes que podem ser entendidos, segundo Weber, como seleção social. A seleção é permanente nas sociedades e não existem meios de eliminá-la, a não ser teórica ou utopicamente. Assim como a seleção biológica, a seleção social acarreta a seleção de indivíduos detentores de determinadas qualidades pessoais, sendo o fator sorte elemento presente, tanto favoravelmente como prejudicialmente. Nesta dinâmica, a educação pode ser capaz de favorecer o indivíduo sob seleção social. Assim, para Weber a educação agirá como um processo amplo de socialização, sem que porém haja uma restrição da instrução à instituição escolar.
“É através do processo de socialização que os indivíduos são preparados para participar dos sistemas sociais a partir da compreensão dos símbolos, dos sistemas de idéias, da linguagem e das relações que constituem os referidos sistemas. Esses elementos são aceitos pelos indivíduos como sendo naturais” (JOHNSON, 1997 in. GONZALEZ, 2000)
Em Weber, cultura e educação servirão como mecanismos mantedores de uma situação de dominação – dominado. A sociedade capitalista moderna é caracterizada pela alta racionalização de todos seus aspectos, a educação entre eles.
Novamente, diferentemente de Durkheim e Marx, Weber persistiu em toda a sua obra numa visão pessimista da sociedade moderna e resignada em relação aos problemas desta, inclusive os de educação.

Ainda sobre educação, pensando em seus fins, em Os Letrados Chineses, Max Weber demonstra que na medida em que a sociedade se racionaliza, historicamente, a formação educacional torna-se um fator de estratificação social, um meio de distinção, de obtenção de honras, de poder e de dinheiro. A educação racionalizada passa a ser essencial ao Estado, pois para funcionar, o mesmo necessita de pressupostos responsáveis pela constituição do direito racional e da burocracia apoiada também em moldes racionais. Se na China antiga o exercício das funções não precisava de treinamento, com o capitalismo monopolista, o treinamento se torna essencial para o desempenho das funções. Quanto mais se acirra a concorrência, maior a necessidade de treinar pessoas para o desempenho das funções. O avanço do capitalismo e do Estado implica na transformação radical da sociedade, impondo a construção de um novo tipo de homem, um homem que vá além dos princípios da dominação carismática e se submeta aos primórdios da dominação racional.
A educação toma um sentido diferente das sociedades antigas, pois passa a treinar em vez de cultivar o intelecto: As instituições educacionais do continente europeu, especialmente as de instrução superior – as universidades,bem como as academias técnicas,escolar de comércio, ginásios e outras escolas de ensino médio – são dominadas e influenciadas pela necessidade de tipo de “educação” que produz um sistema de exames especiais e a especialização que é cada vez mais, indispensável á burocracia moderna.”(WEBER,2002b, p 277.) Se compararmos com outras formas de dominação, vamos perceber que o prestígio social, em virtude do desfrute de determinada educação e formação não é, por si mesmo, algo específico do burocratismo. A finalidade da educação atual está voltada para as funções a serem exercidas na sociedade, ou seja, para as utilidades da formação educacional e do diploma, já as finalidade das estruturas sociais anteriores baseiam-se em fundamentos distintos, já que apesar destes relacionarem-se com a obtenção de privilégios ou de mudança social não enfocavam a especialização e a técnica. “Tanto na formação helênica quanto na medieval e na chinesa, elementos totalmente distintos dos „úteis‟ para determinada especialidade constituíam o centro da educação” (WEBER, 1999, p 232.)

Referências

WEBER, Max. “A Racionalização da Educação e treinamento”. In: Ensaios de
Sociologia. 5.ª ed. Rio de Janeiro, LTC Editora S.A., 2002b.
GONZALEZ, Wânia R. C. Educação e desencantamento do mundo: contribuições de Max
Weber para a Sociologia da Educação. 2000, 335 f. Tese (Doutorado em Educação) –
Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.